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The Witcher 3: Blood and Wine. A despedida de Geralt de Rivia. Regada a sangue e vinho, a última expansão de The Witcher ganha tons de jogo completo.

A história dos DLCs nos consoles nos deixaram negativamente acostumados. A palavra expansão costuma causar arrepios no coração dos gamers, geralmente indicando algum conteúdo que foi arrancado do jogo principal ou então algum adendo de poucos minutos de jogo, sempre ao custo financeiro do jogador. Neste cenário, a CD Projekt Red – premiada como melhor desenvolvedora de 2015 no The Game Awards – oferece aos fãs da série The Witcher uma lufada de ar fresco: pelo preço de US$ 19,90, mais acessível que outros DLCs com muito menos conteúdo, Blood and Wine acrescenta um novo mapa, gráficos melhorados, mecânicas inéditas, um novo baralho de Gwent e mais de 30 horas de gameplay. Trata-se de um DLC, mas poderia facilmente ser um jogo completo.

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Uma vez instalada a expansão, o jogador tem 3 formas de iniciá-la. Seja em uma nova partida ou dando continuidade a um jogo salvo, o chamado inicial de Blood and Wine surge nos quadros de avisos de Velen e Novigrad após completado os desafios da missão “Um Bardo em Apuros”. A terceira opção consiste em começar diretamente na expansão, com um personagem com nível 34 (o recomendado para lidar com os desafios) e os equipamentos adequados. Para aqueles que encaram um bom desafio, os inimigos de Blood and Wine são bastante mortais quando enfrentados no nível 34 na dificuldade Marcha da Morte.

A História e seus Personagens

Independentemente de como o jogador opta por iniciar a expansão, a história começa com Geralt encontrando dois velhos amigos portando um convite oficial em nome da duquesa Anna Henrietta para visitar Toussaint e investigar uma série de mortes em seu ducado. A narrativa de Blood and Wine independe dos fatos ocorridos em Wild Hunt, podendo ser jogada mesmo depois do término do jogo. A região de Toussaint vem sendo assolado por uma sinistra e obscura criatura que mata e humilha suas vítimas e ataca-as em situações descritas como impossíveis. O bruxo é convocado pela duquesa da região para investigar o caso em troca de uma recompensa. Fãs e leitores da série The Witcher ficarão felizes em ver a presença de personagens conhecidos e novas referências aos eventos da saga – mas isto não impede que os não-leitores aproveitem o jogo.

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A expansão busca um clima mais leve e festivo que o que vimos no jogo principal ou no DLC Hearts of Stone. A missão principal tem seus momentos mais sinistros, mas a pompa dos cavaleiros e suas festividades – sempre contrastados pelo cinismo ácido do Geralt – dão alívio cômico à história e uma grande parte dos eventos paralelos lida com o humor e situações absurdas como testículos roubados e burocracia bancária. Ainda assim, não faltarão momentos da conhecida dramaticidade do cenário e decisões difíceis para o jogador, onde o bem e o mal, ou o certo e errado, nunca ficam totalmente claros.

Os personagens de Toussaint não estão preocupados com as mazelas da guerra, as penúrias da fome ou tristes problemas familiares. Com a cabeça voltada para as artes, os vinhos e suas festas, eles buscam Geralt para empreitadas mais leves, como posar para pinturas heroicas ou investigar barulhos noturnos que não permitem que elas durmam com tranquilidade. Até mesmo o linguajar do jogo – pomposo e ocasionalmente rimado – faz tudo soar como uma grande peça teatral. Esta combinação faz com que a expansão não tenha os toques de gravidade e dramaticidade dos outros jogos, o que poderia criar um distanciamento deste episódio em relação ao restante da série – mas a personalidade de Geralt e a missão principal criam a cola que une as coisas e transformam Blood and Wine em um conto mais divertido e leve, porém coeso com o universo criado por Sapkowski, autor polonês por trás da série de livros The Witcher.

O universo do bruxo sempre foi pontuado por mulheres fortes – Ciri, Yennefer, Cerys, para mencionar apenas algumas. Agora é a vez de Anna Henrietta, a duquesa de Toussaint, que tem uma personalidade bastante forte. Ao mesmo tempo em que deseja ver a questão da besta assassina solucionada, Anarietta – como é conhecida pelos amigos – sabe que precisa manter a compostura e as aparências, preservando a tradição do campeonato entre cavaleiros e as festividades do reino. Esta dicotomia cria uma personagem profunda e interessante, que vaga entre momentos de perigosa futilidade real e ocasionais explosão de ação impulsiva.

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Gráficos e Desempenho

Graficamente, a visão de Toussaint cria uma oposição à desolada Velen e Novigrad ou à bárbara Skellige. O ducado é uma região civilizada e bela, com flores abundantes, edifícios coloridos e um povo feliz e apaixonado, onde as tradições dos cavaleiros – com seus festivais, romances e honrarias – ainda perduram. Ao invés de pântanos e pessoas enforcadas em árvores, temos planícies extensas e floridas, quedas d’água cristalinas e intermináveis vinhedos. Em termos de tamanho, o mapa do ducado tem as dimensões de Velen ou Skellige, mas seus pontos de interesse são mais concentrados, com menos extensões ermas e vazias. É difícil explicar com palavras, mas Toussaint – inspirada pelas regiões vinícolas da França e da Itália – parece ter saído de uma pintura impressionista. Suas paisagens são dignas de cartões postais, o que nos remete à falta que faz um modo de fotografia no jogo ou um sistema que nos permita desligar por alguns instantes da jogabilidade ruim de Carpeado, o cavalo de Geralt, e nos concentrarmos em apenas apreciar os arredores.

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A CDPR revelou que desenvolveu uma nova forma de armazenar texturas em Blood and Wine, melhorando o desempenho do jogo. Como resultado, a expansão é visivelmente mais bonita que Wild Hunt, com mais detalhes e uma vegetação ainda mais exuberante, e roda de forma mais fluída e com pouquíssimas quedas de quadros (a versão testada foi a de Playstation 4). Os jogadores – principalmente aqueles que jogaram The Witcher 3 no lançamento – ficarão impressionados com o quanto a performance da engine melhorou desde 2015.

Diferentemente de Hearts of Stone, que se passa na região de Velen/Novigrad e foca na utilização dos mesmos modelos do jogo principal, agora temos novas árvores, edifícios e monstros. A arquitetura é colorida, cheia de arcos, paredes coloridas e afrescos. A natureza ganhou nova vida com ciprestes, parreirais de uvas, campos extensos de hortênsias e cogumelos gigantes. No momento do combate, o jogador poderá enfrentar diversos novos inimigos, como barghests, necrófagos que explodem em uma chuva de espinhos, plantas carnívoras e centopeias gigantes. Seguindo a linha da expansão anterior, Blood and Wine também traz combates com chefes mais interessantes, com mecânicas um pouco mais complexas do que simplesmente esquivar e bater – fazendo com que o desafio fique bastante intenso e estratégico nas dificuldades mais elevadas e tornando mais importante o uso de bombas e poções.

Melhorias de Interface

Outra novidade – neste caso, disponível até mesmo para quem não adquiriu a expansão – são as melhorias de interface. O menu rápido radial, acessível durante o combate, foi simplificado e ganhou visibilidade, com os nomes das magias em destaque e ícones maiores, facilitando a troca de sinais, bombas ou virotes de bestas. Outro ponto que atendeu aos pedidos dos jogadores diz respeito aos menus de criação, onde é possível comprar os ingredientes necessários que o vendedor tiver em estoque diretamente da tela de fabricação, poupando longas viagens pelos painéis – que infelizmente mantém a lentidão que tinham nas versões anteriores.

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O painel de Inventário foi o que sofreu maiores alterações. As abas que já existiam nas versões anteriores, agora foram subdivididas em grades menores. Onde antigamente ficavam todos os equipamentos, agora dividem-se espadas e todos os itens relacionados em um lado (glifos ou ferramentas de reparo) e armaduras e seus itens (como tingimentos) do outro. A categoria de consumíveis, por sua vez, ganhou divisões independentes para poções, bombas e óleos. A alteração facilita bastante o processo de localizar e utilizar itens diversos, além de contar com a novidade de permitir que você visualize um equipamento no seu personagem sem a necessidade de aplicá-lo, mesmo ainda estando em um nível inferior ao exigido para usá-lo.

Gwent

Para quem ficou viciado em Gwent e vivia esquecendo da Ciri para mais uma partida, temos um novo baralho, com novas cartas para colecionar. Com o tema de Skellige, ele conta com uma mecânica nova – cartas que sofrem metamorfose quando combinadas ou em situações específicas – e foca na combinação de cartas que compartilham força entre si. Um novo campeonato dará aos jogadores a chance de testarem suas habilidades com e contra este novo baralho, enquanto o mordomo da vinícola adquirida por Geralt oferece a opção de treinar contra qualquer baralho, em três níveis de dificuldade.

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Jogabilidade

Como não é de se estranhar, o jogador irá fazer em Blood and Wine o mesmo que fez durante The Witcher 3: Wild Hunt. Como o jogo é parte de algo maior, ele expande em cima do terreno já conhecido, onde Geralt vai matar monstros, explorar cavernas e templos e usar seus sentidos de bruxo para investigar corpos e seguir rastros. Os combates com os chefes adicionam alguns novos elementos estratégicos, mas nada que possa ser considerado novo diante do que já vimos em Hearts of Stone. O combate ainda foca na combinação de esquivas, bloqueios e espadadas, o uso de magia continua sendo importante – principalmente nas maiores dificuldades, onde Quen é uma magia fundamental para a sobrevivência – e a besta continua servido para pouco mais que derrubar inimigos voadores, na maioria das vezes facilmente substituída pelo sinal Aard.

Carpeado, o cavalo de Geralt, continua ocasionalmente parecendo mais uma mula teimosa que uma montaria treinada, empacando aleatoriamente no cenário, disputando o controle do jogador e insistindo em pegar o caminho errado sempre que corre automaticamente por uma trilha. Embora os jogadores já tenham aprendido a lidar com estes problemas e até mesmo ignorá-los, a paisagem de Toussaint faz com que eles sejam relembrados sempre que é necessário parar de apreciar a vista para lidar com o controle do cavalo.

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Como a expansão se passa durante um evento entre cavaleiros, que inclui um campeonato, rapidamente fica óbvio que Geralt terá a chance de demonstrar suas habilidades nas provas que compõem as festividades. O evento é curto e toma poucos minutos de jogo, mas deu à CD Projekt Red a chance de explorar mecânicas que sempre estiveram presentes em The Witcher, mas nunca tiveram destaque ou importância, como o combate montado ou o uso da besta. A corrida de cavalo que faz parte do campeonato, e exige que o jogador ataque bonecos de palha e dispare em alvos com a besta, renova os eventos de corrida sem graça e problemáticos do jogo principal. Uma pena que a ideia tenha chego tão tarde na saga e não tenha sido aproveitada como merecia. No lado negativo, o ponto alto do campeonato é um evento de combate que não apresenta qualquer novidade ao jogo e acaba decepcionando.

Novas Mecânicas, Equipamentos e Brincar de Casinha

Depois das aproximadamente 150 horas de jogos possíveis entre Wild Hunt e Hearts of Stone, a evolução do personagem parecia ter atingido uma barreira, limitando a evolução apenas à coleta de equipamentos mais poderosos. Para solucionar isto, Blood and Wine traz uma nova mecânica envolvendo mutações. Em determinado momento do jogo, Geralt se depara com o laboratório de um alquimista especializado em manipular as mutações dos bruxos, dando ao jogador acesso a novas habilidades – como desmembrar inimigos, acertos críticos nos sinais e até mesmo ressurreição – ativadas com o uso de Pontos de Habilidade e mutagênicos. Este processo ainda libera ao bruxo espaço para mais quatro habilidades, que precisam ter a mesma cor da mutação ativa, além dos doze disponíveis anteriormente.

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Quanto aos equipamentos, os jogadores poderão explorar um novo patamar para as armaduras de bruxo. O encontro com um determinado ferreiro resulta em missões onde Geralt precisará buscar novos esquemas de armaduras de nível grão-mestre das escolas do Lobo, Urso, Gato, Grifo e Manticora. Os itens fabricados conferem ao personagem habilidades especiais com base na quantidade de equipamentos vestidos do mesmo conjunto, como colocar mais de um tipo de óleo ao mesmo tempo na espada ou aumentar a velocidade com que Geralt arremessa bombas. Além disto, a expansão também permite que o jogador tinja as peças da armadura, podendo personalizar as cores que Geralt irá vestir. Como os itens – luva, bota, calça e armadura de peito – podem ser coloridos de forma independente e o jogo oferece uma boa gama de tintas, a gama de combinações é bastante extensa.

Como parte do pagamento antecipado por seus serviços, o bruxo recebe ainda a posse de uma vinícola semiabandonada. Com a ajuda de um mordomo, o jogador poderá investir dinheiro para recuperar o local, melhorando a casa principal e instalando utilitários como uma pedra de amolar, uma bancada de armaduras e um laboratório alquímico. As benfeitorias geram bônus temporários – como um multiplicador de experiência em combate por 60 minutos – sempre que Geralt dorme em sua cama. Além disto, a casa tem diversos cômodos que podem ser decorados com quadros, troféus, armas e armaduras, personalizando o local.

Conclusão

Blood and Wine fecha com chave de ouro a história de Geralt de Rivia nos jogos eletrônicos. The Witcher 3: Wild Hunt despontou como um dos melhores jogos de 2015, elevando o patamar pelo qual jogos de RPG de mundo aberto serão avaliados, e a desenvolvedora CD Projekt Red vem impressionando ainda mais em cada um dos DLCs do jogo. A expansão não se contenta em apenas adicionar poucas horas de história, e embora o jogador ainda vá encontrar os mesmos elementos com os quais se familiarizou, as novidades são suficientes para renovar o jogo durante às 30 horas, aproximadamente, que ele oferece de conteúdo.

Nada em Blood and Wine parece preguiçoso ou mero caça-níquel. Cada detalhe, modelo, missão, personagem ou mecânica parece ter recebido o mesmo esmero e carinho que a desenvolvedora dedicou ao jogo principal, colocando a expansão em um patamar paralelo ao de muitos jogos vendidos ao preço de lançamento. A última missão de Geralt de Rivia vale cada centavo dos 19,90 dólares (ou R$ 61,50) que custa.

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Finalizar a saga The Witcher 3: Wild Hunt é como terminar de ler a última página, do último livro, de uma série apaixonantemente bem escrita. O livro vai para o criado mudo e deixa aquela sensação indescritível de saudades, mas acompanhada pela realização de que você viveu uma experiência única e incrível.

Que venha Cyberpunk 2077 – o RPG futurista em que a desenvolvedora CD Projekt Red começa a trabalhar com o encerramento do trabalho dedicado ao The Witcher 3. A empresa diz que o novo jogo será maior e mais ambicioso. Então, resta-nos aguardar algo igualmente grandioso.

PROS:

  • Gráficos renovados
  • Novos desafios
  • História principal interessantes
  • Missões paralelas divertidas
  • Novas mecânicas de evolução e personalização do personagem

CONTRAS:

  • Menus insuportavelmente lentos
  • Bug irritante que impede o personagem de travar a mira no inimigo
  • Pouca novidade em termos de jogabilidade

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.

Excelente

Com um clima mais leve, Blood and Wine é um jogo completo disfarçado de DLC. A última aventura de Geralt expande aquilo que The Witcher 3: Wild Hunt construiu e fecha a saga com cerca de 30 horas incríveis.

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