Artigos Opinião 1

A Dura Tarefa de Demonstrar as Novas Tecnologias dos Games Sony e Microsoft enfrentam as dificuldades de apresentar conteúdos em VR, HDR e 4K.

O escritor Antoine de Saint-Exupéry escreveu: “o essencial é invisível aos olhos”. Lembrei destas palavras ao sair de uma sessão de demonstração do Playstation VR e tentar explicar aos companheiros do Doze Bits como havia sido a experiência.

Enquanto eu tentava descrever as sensações de imersão, de proximidade e de realismo, meus amigos não podiam fazer nada além de me observar e imaginar o quanto daquilo era real ou exagero causado pelo ineditismo. Era impossível olhar para o rosto deles e não imaginar suas engrenagens cerebrais formando a frase: “de que diabos você está falando?”

Com isto, dei-me conta do dilema enfrentado pela Sony e a Microsoft ao tentarem promover as novas tecnologias dos games. Realidade virtual e ampliada, resolução 4K e cores HDR – como você apresenta estes conceitos para o grande público, desprovido dos equipamentos necessários para apreciar estas características em sua totalidade?

Os óculos de realidade virtual e ampliada – como o Playstation VR e o Microsoft HoloLens – são apenas a ponta mais óbvia do iceberg. É impossível transmitir por vídeos ou fotografia a sensação real de utilizar estes periféricos e a experiência de imersão proporcionada por eles. A Microsoft fez um ótimo trabalho com o HoloLens na E3 de 2015 – mas ainda assim, o conteúdo apresentado era apenas uma simulação vaga da realidade do acessório. A disparidade entre a realidade e a demonstração é ainda maior nas tentativas da Sony de apresentar em palco o Playstation VR – a imagem vista pelo público carece de tudo que é essencial à experiência de realidade virtual: seus efeitos 3D e de imersão.

O problema de demonstrar as novas tecnologias fica mais sutil quando se trata da resolução 4K e HDR – destaques nos novos modelos de consoles das duas empresas. Ambas as tecnologias dependem de monitores e TVs compatíveis – equipamentos caros que ainda estão bem distantes da realidade da maioria dos gamers. É difícil provar aos jogadores as vantagens de tais sistemas quando eles não conseguem enxergar as diferenças em seus equipamentos atuais.

Este gráfico é tão relevante para o jogador quanto a imagem de uma molécula de oxigênio para alguém se afogando.
Este gráfico é tão relevante para o jogador quanto a imagem de uma molécula de oxigênio para alguém se afogando.

A resolução 4K produz uma imagem com área quatro vezes maior que a oferecida pelo padrão Full HD (3840 x 2160 contra 1920 x 1080). O HDR oferece uma amplitude maior de luminosidade e cor, permitindo uma maior quantidade de detalhes nas áreas escuras de uma cena, brilhos e luzes mais intensas e cores mais vibrantes. Todavia, nada disto pode ser corretamente apreciado sem o equipamento correto e tentativas de simular estes recursos acabam por distanciá-los ainda mais da experiência real.

Durante o Playstation Meeting – que aconteceu neste dia 07 de setembro – a Sony pareceu sequer tentar enfrentar estas questões. Com milhões de jogadores acompanhando a conferência no mundo inteiro, a empresa apresentou versões 4K e HDR de seus sucessos passados e futuros como Uncharted 4, Infamous: First Light e Horizon: Zero Dawn. Entretanto, o público em geral não viu nada que demonstrasse uma diferença relevante em relação às versões atuais destes títulos, pois qualquer vantagem oferecida pelo aumento de resolução e pelo HDR se perdeu na compressão necessária para a transmissão do conteúdo pela internet e no fato dos usuários assistirem o conteúdo em monitores e TVs com resolução Full HD e sem compatibilidade com o HDR.

No caso do VR ou da realidade ampliada, o observador ainda parece mais disposto a acionar sua suspensão de descrença e aceitar que algum tipo de mágica está acontecendo sob os óculos. Mas quando se trata do 4K ou HDR, o usuário que avalia este conteúdo através dos equipamentos não compatíveis simplesmente não sabe o que ele está tentando visualizar ali, pois ele carece de qualquer referência.

Isto é a simulação de um HDR, mas não é um HDR.
Isto é a simulação de um HDR, mas não é um HDR. 

O efeito “eu não percebi qualquer diferença” foi ainda amplificado pela ausência de qualquer comparativo do tipo “antes e depois” entre os jogos rodando no Playstation 4 normal e em sua versão Pro. O que nos leva a um outro problema enfrentado pela equipe de marketing – como os novos modelos dos consoles não visam substituir os anteriores, as empresas precisam afirmar que os jogos são melhores e mais bonitos nas versões premium dos sistemas, sem sugerir que os modelos inferiores ficarão (obviamente) com as versões piores, menos bonitas e mais limitadas. Um equilíbrio difícil de se atingir.

Este será o grande desafio desta segunda metade da geração atual – provar ao usuário que estas novas tecnologias realmente compensam o custo de trocar não apenas de console, como também de TV ou adquirir novos (e caros!) periféricos. Como você pode atingir o grande público, se imagens e vídeos comuns não são capazes de comunicar os diferenciais daquilo que você deseja vender? Ainda mais difícil, como fazer isto sem depreciar as versões mais básicas dos consoles?

Parece que, no futuro próximo, as grandes fabricantes não poderão contar apenas com o talento e a criatividade de seus engenheiros, programadores e game designers, mas também dependerão ainda mais da capacidade de comunicação e engenhosidade de suas equipes de marketing e publicidade.

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.

1 Comentário

  • pedrosmr
    09 de set, 2016 17:17

    Análise muito pertinente! Vi a apresentação e quando terminou fiquei com uma sensação de que havia algo errado, começando pelo nome do novo produto “top de linha”. O sufixo “Pro” não me parece adequado nesse mercado dominado pela diversão e casualidade, ainda que existam as vertentes sérias, como os eSports. Ainda assim, acredito que a Sony perdeu a oportunidade de anunciar o produto como um objeto de desejo mesmo para aqueles que já possuem a versão anterior. O nome “Pro” parece segregar além da conta, não tem o apelo para atingir um público maior. Antes tivessem mantido o codinome que estava circulando há meses, o “Neo”. Este sim parece designar algo novo, melhorado, algo que valha a pena investir. Sobre as novas tecnologias, também concordo com tudo que foi dito no texto. Até já tenho uma TV 4K, mas no streaming não consegui distinguir a diferença em relação a versão atual dos jogos. Realmente faltou o comparativo, o “antes e depois”, aquela coisa que te faz perceber o quão melhor é a nova versão. Não virou objeto de desejo, e olha que o preço em dólar nem é tão assustador, já que vai sair pelo preço original do primeiro lançamento do PS4.

    P.S.: até os apresentadores do Meeting eram inexpressivos e pareciam pouquíssimo empolgados com as novidades. Quase dormi assistindo…