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Desculpe o transtorno, preciso falar do PlayStation

Conheci ele em casa. Essa frase pode parecer comum se você imaginar o console após o lançamento, quando todo mundo já tem. Mas o console em questão era aquele de testes que a Sony do Brasil estava emprestando para os funcionários fazerem testes no ano de 1995 – o console era japonês e os jogos também. Ele era espetacular. Meu irmão trabalhava na Sony. Eu não trabalhava na Sony mas queria jogar. Ele veio pra casa. Ligando. Nunca vou me esquecer: os jogos eram Motor Toon Gran Prix e Battle Arena Toshinden.

Nós ficamos sentados no chão, a TV ficava no alto. Quando ligamos o aparelho, já estávamos de joelhos. Quando a primeira tela apareceu, olhamos um para o outro. Os olhos, sempre ligados na TV, deixavam claro que nós não fazíamos ideia do que esperar. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho. Meu irmão nunca gostou muito de videogames.

Passamos muitas madrugadas juntos, jogando de tudo, de Winning Eleven a Tomb Raider. De lá, migramos para o PS2. Do PS2 para PS3. Ao PS3 somamos o PSP. E do PS3 para o PS4, agora também temos o Vita.

Quando nos conhecemos eu já tinha 14 anos, já tinha passado por outros consoles, mas parecia que a vida começava ali. Joguei vários jogos. Alguns várias vezes. Fiz todos os finais existentes em Silent Hill. Queimei alguns neurônios jogando Metal Gear Solid 2. Escolhi personagens sem pensar em Street Fighter 4. Escrevemos nossa história, nossa vida, nossos dias. Fiz meia dúzia de amigos novos e junto com eles o Doze Bits. Joguei mais de 500 jogos, muitas vezes em dois – não dá pra contar. Sofri com os haters, ri dos fanboys. Viajei por vários mundos. Dos dez jogos que mais gosto, sete são multiplataformas que joguei no PlayStation. Os outros três são exclusivos. Aprendi o que era RPG japonês e o que eram shooters, beat’em up, shoot’em up e outros gêneros que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ter um PlayStation.

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Ainda estamos juntos, mas não é fácil. Choramos no final de “The Witcher”, dormimos durante “Journey”, três vezes. Até hoje, não tem um jogo que eu jogue e não diga, em algum momento: que história bela! Parece que, pra sempre, você vai estar presente. Te apresentarei para o meu filho. E te levarei pra sempre comigo.

Essa semana, pela enésima vez, liguei o console pra jogar mais um pouco – não por acaso, um jogo de tiro. Não achei que fosse jogar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido não só uma vida… mas várias delas! Graças a você! Não falta nada!

*Baseado no texto original de Gregório Duvivier “Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice”, publicado na Folha de São Paulo.

Jornalista, pai do Joaquim, marido da Carol, gamer… realizando um sonho aqui no Doze Bits!