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O horror está de volta em Resident Evil 7. Novo, porém mais familiar que nunca.

Resident Evil 7 surge com uma enorme responsabilidade: reerguer a franquia que teve suas origens no Survival Horror, mas cresceu tanto na direção dos jogos de ação e de grandiosidade cinematográfica que foi progressivamente perdendo sua identidade inicial. Com uma recepção ruim do 6º jogo da série, a Capcom concluiu que estava na hora de reinventá-la. Resident Evil 7 executa sua missão com maestria, fazendo o que poderia parecer impossível: olhar para o futuro e para o passado, em mesma proporção.

Muitas pessoas que jogaram as demonstrações Beginning Hour e Midnight ficaram receosas de que a série, na tentativa de se modernizar em direção aos jogos de sobrevivência e horror mais modernos (Amnésia, Alien: Isolation e etc.), estivesse se afastando de suas raízes. Esqueça este medo – este jogo está mais Resident Evil que nunca.

A História

Posicionado após os eventos de Resident Evil 6, a sequência coloca o jogador na pela de Ethan, um personagem com histórico indefinido. A esposa de Ethan – Mia – desapareceu enquanto trabalhava como babá em uma viagem. Três anos depois disto, o personagem recebe um email da garota, com uma foto, o endereço de uma casa em Lousiana e uma mensagem: venha me buscar.

A busca leva Ethan até uma residência nos pântanos, onde a aventura tem início. Qualquer coisa que eu conte a você depois disto, pode ser considerado spoiler e irá prejudicar sua experiência com o jogo. Confie em mim. Se você ainda não jogou Resident Evil 7, leia o mínimo possível sobre o enredo e evite quaisquer spoilers, pois eles realmente vão afetar seu aproveitamento.

Basta, então, dizer que a história é bem narrada e ainda mantém aquele clima de filme B da série. A forma como o enredo se revela ao jogador é cativante e mantém o interesse do começo ao fim do jogo. Além disto, Resident Evil 7 tem um dos melhores inícios de jogo da história.

Modernização e Familiaridade

A perspectiva em primeira pessoa é a principal novidade em Resident Evil 7. Colocar o jogador ‘dentro’ do personagem amplia a sensação de imersão. A jogabilidade se comporta de maneira similar aos FPSs mais modernos – porém com um ritmo mais lento, acompanhando o clima tenso, e uma mira menos responsiva.

Se você esperava que esta mudança de visão fosse colocar a série mais perto de jogos como Silent Hill, Amnésia ou Alien: Isolation, esqueça. Resident Evil 7 não coloca o jogador no papel do protagonista indefeso tentando sobreviver contra o improvável. Praticamente todas as armas clássicas da série estão no jogo e Ethan cobrará caro por cada pedaço que carne que os inimigos queiram arrancar dele. Além disso, o personagem é resistente o suficiente para resistir a um bocado de punição.

Neste sentido é que Resident Evil 7 olha para o passado e recupera muitos dos ingredientes que temperaram o sucesso da série em seus primeiros anos. Junto das armas clássicas, está a eterna sensação de escassez de munição – com um equilíbrio preciso no qual você sempre tem balas a sua disposição, mas acompanhada da impressão de que elas podem acabar a qualquer momento.

As ervas ainda são o item de cura principal do jogo, combinadas com componentes químicos para aumentar sua potência. A possibilidade de usar o mesmo componentes com outros itens – para produzir munição de diversos tipos – aumenta a gama de possibilidades do jogo, fazendo o jogadores pesar sempre suas opções e prioridades. O inventário do personagem continua limitado, fazendo com que o personagem utilize os baús espalhados pelo cenário para armazenar e recuperar seus itens, armas e equipamentos. Um elemento que está de volta é o limite de salvamentos, mas apenas no modo Difícil, onde o Ethan precisa localizar fitas K-7, que funcionam de modo similar às antigas fita de tinta (Ink Ribbon) das máquinas de escrever dos primeiros jogos.

Mas de todos os elementos recuperados dos Resident Evils originais, o mais importante está no conceito do jogo. Resident Evil 7 é intimista. Ethan não está envolvido em uma ameaça da proporções globais, viajando pelo mundo na caça de uma megacorporação maligna. A aventura é uma busca pessoal e claustrofóbica tanto em seu ambiente físico (a casa onde ela acontece), quanto em seu escopo narrativo. Isto faz com que a relação do jogador com os eventos do jogo seja muito mais visceral.

O clima é constantemente tenso, mantendo o jogador na beirada do sofá – uma experiência melhor aproveitada com as luzes apagadas e volume alto. Como era de se esperar, o jogo ainda recorre aos ocasionais jump scares (sustos rápidos) – mas o faz de forma esporádica, evitando que o recurso perda sua eficácia.

A familiaridade com cada cômodo da casa e com seus habitantes tornam a aventura de Resident Evil muito mais próxima e tangível para o jogador.

A Família Baker

Para aumentar este clima de familiaridade, onde você conhece aquilo que te persegue, Resident Evil 7 se inspira em Alien: Isolation e coloca o jogador contra inimigos recorrentes e com personalidade bem definida – tornando os antagonistas muito mais interessantes.

Durante toda a narrativa do jogo, Ethan precisará lidar com a família Baker, os donos da casa onde supostamente está a sua esposa. Composta por quatro integrantes: Jake (o pai, um fazendeiro parrudo, ex-militar e ex-jogador de futebol americano), Marguerite (a mãe), Lucas (o filho “ovelha negra” e engenhoso) e Zoe (a filha desgarrada).

Cada um destes personagens tem seus momentos de brilhar no jogo, com características bastante pessoais e personalidade desenvolvida – explorada através de documentos e itens de cenário. Jake, por exemplo, testará a capacidade física do jogador, enquanto sobrepujar Lucas exigirá inteligência e engenhosidade.

Entretanto, é na família que surge um dos problemas do jogo. Diferentemente do que ocorre em Alien: Isolation – onde a criatura passa ao jogador a sensação de ser um segundo protagonista, vivo e orgânico – a família Baker é mecânica. Em pouco tempo o jogador saca como fugir de Jake ou compreende as rotas bem definidas de Marguerite pela velha casa. Nestes momentos, o véu do jogo cai por alguns instantes e as engrenagens que movem o mundo ficam expostas, quebrando um pouco a ilusão.

Por outro lado, os Bakers brilham em pequenas interações escondidas pelo jogo, que exigem que o jogador esteja em um determinado lugar, em um momento certo, ou faça algo específico ou use um determinado item. Estas interações acontecem de forma magistral e acrescentam muito ao jogo e o fato de exigirem determinadas situações para acontecerem faz com que a experiência seja um pouco diferente para cada jogador.

Além dos membros da família, o jogo ainda apresenta mais alguns inimigos. Criaturas que rastejam rapidamente, outras que atacam de perto e algumas que podem lhe ameaçar à distância, exigirão que o jogador utilize suas armas e diferentes táticas, oferecendo variedade nos combates, sempre presentes.

A Casa como Personagem

Até o final das 10 horas médias de jogo de Resident Evil 7, você irá conhecer cada cômodo da casa dos Bakers e seus arredores. Embora a locação remeta ao jogo que deu origem à franquia, a residência dos Bakers não parece um ambiente criado apenas para que o jogo existisse. O cuidado com a modelagem, os detalhes e o clima da casa deixa claro que uma família de verdade – com seus problemas e peculiaridades – morava ali e compartilhava momentos de alegria e tristeza antes dos eventos do jogo.

Os cômodos são memoráveis e seus detalhes contam pequenas histórias sobre o passados dos personagens, não apenas nos itens com os quais Ethan pode interagir, mas também em pequenos detalhes espalhados por todo o cenário. O jogador será recompensado pelo seu olhar atento com itens escondidos sob mesas, atrás de portas e em outros cantinhos ocultos, além de várias referências aos jogos anteriores da franquia.

Também estão de volta os velhos quebra-cabeças da série. Quadros que precisam ser posicionados, portas que só podem ser abertas com determinadas chaves e enigmas envolvendo sombras precisarão ser solucionados pelo jogador. Assim como em Beginning Hour, fitas de vídeo permitirão adquirir informações que serão de grande ajuda nos momentos certos.

Gráficos e Som

Graficamente, Resident Evil 7 convence, mas fica um pouco atrás do que já estamos habituados a ver nesta geração – uma possível concessão para que o jogo possa ser todo jogado em realidade virtual. Os cenários são detalhados, mas basta se aproximar de algo ou de um personagem para ver as texturas no limite e as ‘simplicidades’ na modelagem.

O jogo conta ainda com um filtro que o deixa com um visual sujo e com um contraste bastante característico. O efeito é bastante interessante, pois aprimora o clima do jogo, remetendo a uma sensação de filmagem crua. Outro ponto muito positivo dos gráficos são os efeitos de luz e sombras, muito realistas e fundamentais na construção do clima da casa.

Quanto aos personagens, o jogo buscou uma renderização mais realista deles, afastando-se do hiper-realismo gráfico dos anteriores. O resultado é incrível e impressionante, porém isto os jogou diretamente no uncanny valley (aquele limiar em que o excesso de realismo causa estranheza). Ocasionalmente, é impossível não perceber certas esquisitices nas expressões ou aparência dos personagens.

O som do jogo foi todo trabalhado para aumentar o clima tenso da casa dos Bakers, fazendo de Resident Evil 7 um sério candidato a ser jogado com fones de ouvido. Madeiras estalando, vozes, ruídos estranhos preenchem o silêncio da casa, ocasionalmente quebrado pela trilha sonora que aumenta a tensão nos momentos com mais ação.

Homenagem aos Filmes de Terror

Resident Evil 7 ainda guarda surpresas para os fãs de filmes de terror. São diversas as referências a títulos como O Massacre da Serra Elétrica, Uma Noite Alucinante, Jogos Mortais, entre outros. Até mesmo os nomes dos troféus fazem pequenas homenagens.

Um Novo Começo

Embora faça suas amarrações com o grande universo da franquia, Resident Evil 7 representa um novo ponto de partida para a série. O terror volta, de forma mais íntima e sem os complexos de grandiosidade que a série desenvolveu com o tempo.

Mesmo assim, ela olha para o futuro sem esquecer o seu passado e abraça novamente os elementos que a tornaram tão especial em sua origem.

O jogo recupera seu status de expoente do gênero Survival Horror, mas sem deixar de fora a ação. A tensão volta a ser a tônica do jogo, mas a galhofa e o senso de humor pontual – digno dos melhores filmes de terror B – ainda estão lá. A narrativa ganha toques modernos, contada através de pequenos detalhes, mas sem nunca esquecer que tudo começou naquele vídeo em live action, com um cachorro, na tela do Playstation.

Este equilíbrio entre retornar ao passado, mas de olho no futuro, é que tornam Resident Evil 7 um acerto tão grande.

Pros:

  • É um novo tipo de Resident Evil, mas ainda é Resident Evil;
  • As 10 horas médias da primeira jogada são o equilíbrio ideal para que o jogo termine com um gosto de quero mais, imediatamente antes de se tornar cansativo;
  • Vilões interessantes;
  • Clima e ambientação altamente imersivos;
  • Humor na medida dos filmes B de terror.

Contra:

  • Gráficos um pouco abaixo do esperados para esta geração;
  • Uncanny valley;
  • Combate final sem inspiração;
  • Jogabilidade mecânica dos antagonistas.

PS.: Resident Evil 7 oferece suporte ao Playstation VR. Entretanto, infelizmente não pude testar o jogo neste modo. Caso venha a testá-lo, atualizarei este review. 

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.

Um retorno ao passado, rumo ao futuro.

Resident Evil 7 faz um retorno às suas origens de Survival Horror, mas de olho no futuro, com uma nova perspectiva mais imersiva. Com ênfase na tensão, o jogo não esquece dos combates e dos puzzles.

10