PC Playstation Review Xbox

Investigação e Ação em Sherlock Holmes: Devil’s Daughter Elementar, meu caro Watson.

Resolver enigmas e fazer deduções incríveis com base em pistas, diálogos ou até mesmo pequenos e sutis detalhes nas roupas das pessoas, quem nunca sonhou em ser Shelock Holmes, o incrível investigador criado por Arthur Conan Doyle em 1887.

Devil’s Daughter é o novo jogo da série Adventures of Sherlock Holmes, desenvolvida pela Frogwares e publicada pela Bigben Interactive. Assim como seu antecessor, Crimes & Punishments, o título envolve principalmente a exploração de cenas de crimes e diálogos com os envolvidos em buscas de pistas, que podem ser conectadas na “tela de dedução” – uma mecânica de jogo que permite ligar duas pistas relevantes e transformá-las em uma dedução.

A parte mais interessante do jogo entra em cena no final da investigação, após todas as pistas terem sido coletadas, todos os diálogos terem sido esgotados e todos os personagens terem seus perfis definidos – uma das diferenças para o jogo anterior, agora o jogador precisa tomar decisões sobre como interpretar determinadas características físicas do suspeito, podendo criar um perfil equivocado do personagem. Neste momento as mecânicas do jogo saem de cena e o jogador pode montar duas ou mais deduções sobre a resolução do caso, cabendo a ele escolher a resposta correta. Para isto, o jogador conta apenas com sua própria intuição e capacidade de analisar e recordar de detalhes em textos, nos cenários ou durante os diálogos.

Este é o momento em que a série Adventures of Sherlock Holmes se torna uma das melhores franquias de investigação dos games. Após uma série de cenas, diálogos e interações totalmente lineares e direcionadas – uma característica do estilo – o título larga a mão do jogador e permite que ele entre, sem barreiras, no papel do investigador. Após esta decisão, cabe ao jogo apenas informar o jogador do sucesso ou fracasso de sua dedução.

O Fracasso e Sucesso como Definitivos

A linearidade de Devil’s Daughter faz dele um dos jogos com pior fator de rejogabilidade da história dos games. Simplesmente não faz qualquer sentido jogar novamente um determinado caso – as pistas foram esgotadas, os diálogos serão os mesmos e a conclusão será óbvia. Em analogia, rejogar um caso seria como responder a mesma cartela de um jogo de perguntas e respostas pela segunda vez – você acertará, sem dúvida, mas porque já sabe as respostas.

Por outro lado, a forma como o jogo funciona cria um peso inédito para o fracasso. A sensação de fechar um caso e descobrir que você mandou a pessoa errada para a cadeia é única e rejogar – embora permita que você veja o final correto – não lhe trará uma sensação de sucesso. Enquanto alguns jogos utilizam o fracasso como um trampolim para ampliar a sensação da conquista (como a série Souls, da From Software), a Frogwares apostou na tensão de fazer o jogador dar uma resposta definitiva e lidar pessoalmente com seu erro. Pressionar o botão de confirmar traz uma sensação similar a estar diante do apresentador de um programa de TV de Perguntas e Respostas, sabendo que não há como voltar atrás.

Várias Histórias e uma Linha Amarrando Elas

Devil’s Daughter conta com cinco casos independentes entre si: assassinatos, desaparecimentos e até mesmo uma tentativa de eliminar o próprio Sherlock Holmes. Entretanto, nos intervalos dos eventos, Sherlock Holmes precisa lidar com questões pessoais que criam uma linha amarrando todo o enredo.

Uma filha adotiva, um segredo bem guardado e uma estranha e bela visitante colocam Sherlock Holmes em conflito com antigos inimigos e as consequências de suas próprias atitudes. Esta decisão da desenvolvedora ajuda a quebrar o ritmo dos casos – inserindo elementos da vida pessoal do protagonista e aprofundando ainda mais a personagem – e permite uma conclusão empolgante para o jogo, gerando uma sensação agradável de continuidade e finalização para a história.

Minigames e Mecânicas de Ação

A maior novidade de Devil’s Daughter também é seu maior problema – querer implementar mecânicas mais tradicionais e minigames, em uma tentativa falha de atrair outros gostos para o título. A investigação dos jogos anteriores da série agora é pontuada de minigames e eventos de ação, dando um pouco mais de dinâmica ao jogo.

As ideias funcionam quando complementam a temática de investigação do jogo, como quando o investigador precisa colocar em ordem uma série de eventos de um trágico acidente, criando um efeito dominó que parece se encerrar em seu próprio início e obrigando o jogador a raciocinar para determinar o que teria iniciado a tragédia.

Entretanto, as novas mecânicas falham miseravelmente quando tentam emular cenas de ação ou furtividade. Controles ruins para a câmera e o personagem, mecânicas falhas e confusas e animações de baixa qualidade minam estes momentos e distraem daquilo que realmente funciona no jogo.

Isto fica ainda pior quando o jogo empurra estes elementos em situações esquisitas – para falar o mínimo. Como no primeiro caso do jogo, quando você joga com Wiggins (um garoto de rua que ocasionalmente auxilia o Sherlock) em uma cena de furtividade e perseguição e a ação (que já não funciona muito bem) é interrompida por um minigame totalmente desnecessário de limpar chaminé!

O ponto positivo é que a maioria destes podem ser pulados e ignorados – mas o jogo oferece troféus e conquistas para aqueles que realizarem com sucesso estes eventos especiais.

Vistas e Sons de Londres

Graficamente, Devil’s Daughter supera seus antecessores, mas dá pistas de como a Frogware tem dificuldades para extrair o melhor da Unreal Engine 3.

Embora tenha ambientes interessantes e bem detalhados, o título não conta com quaisquer efeitos de ambientação ou iluminação que ajudem a dar realismo e consistência ao cenário. Some isto à personagens com modelagem e texturas simples, animações mecânicas e um desempenho abaixo do esperado para a baixa fidelidade gráfica do jogo.

O destaque gráfico do jogo fica para os ambientes externos de Londres – uma novidade do título, que agora permite que o jogador passeie por algumas ruas dos bairros da cidade, acrescentando uma nova camada de exploração. Se você conseguir ignorar a inconsistente taxa de quadros, estes passeios oferecem uma visão bastante fiel e interessante das ruas da cidade no final do século XIX.

Na parte do áudio, o jogo conta com boas interpretações para os personagens e os sons dos ambientes são mais importantes e presentes do que a trilha sonora. Embora o áudio ainda não tenha opção para português, o título já conta com legendas e textos traduzidos em nosso idioma, ampliando o acesso aos jogadores brasileiros.

Encerrando o Caso

Sherlock Holmes: Devil’s Daughter é um título recomendado para quaisquer fãs da série ou jogadores que gostem de jogos de investigação. A sequência cresce em cima das mecânicas da série de apresenta novos casos divertidos, interessantes e curiosos.

Todavia, a tentativa de atrair um novo público com mecânicas de ação e minigames cria um ruído desnecessário do jogo, distraindo o jogador de suas melhores partes em detrimento de elementos que simplesmente não funcionam como deveriam.

O título começa a dar mostra de cansaço e aparenta a necessidade de se reinventar – porém parece ainda confuso sobre qual direção tomar. Na forma como o jogo funciona, é impossível não se perguntar se o lançamento de jogos completos em disco é realmente a melhor opção ou se a série não funcionaria melhor seguindo o rumo de Hitman e investindo em um sistema de episódios.

De todo modo, a renovação não passa por levar o jogo para o caminho dos jogos de ação, isto é elementar, meu caro Watson.

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.

Mediano

Recomendado para quaisquer fãs da série ou jogadores que gostem de jogos de investigação. A sequência cresce em cima das mecânicas da série de apresenta novos casos divertidos, interessantes e curiosos. Todavia, o jogo tenta inserir minigames e cenas de ação que distraem dos pontos positivos do título e não funcionam como desejado.

7