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Sony, Microsoft e cross-play entre Consoles Uma história que não começou agora e não deve terminar tão cedo.

Se você acompanhou as últimas notícias da E3 2017, deve ter ouvido falar que os jogos Minecraft e Rocket League permitirão que jogadores de diferentes plataformas joguem juntos. Isto significa que proprietários de Xbox One, PCs e Nintendo Switchs poderão disputar juntos em Rocket League ou colaborar em suas construções no mundo de Minecraft. Mas uma plataforma resolveu ficar de fora da festa e isto tem gerado pesadas críticas em relação à Sony.

A Sony Tenta se Explicar

Como forma de justificar a opção de não participar do cross-play, destacou-se a seguinte declaração de Jim Ryan, Presidente de Vendas Globais e Marketing da Playstation: “Precisamos estar atentos à nossa responsabilidade com nossa base instalada. Existem pessoas de todas as idades jogando Minecraft, mas também algumas muito jovens. Temos um contrato com as pessoas que entram online em nosso sistema, de que cuidaremos delas e de que elas estão em um universo Playstation controlado. Expor estas, em muitos casos crianças, a influências externas sobre as quais não podemos gerenciar ou cuidar, é algo sobre o qual devemos pensar com muito cuidado”.

Aos olhos de críticos e fãs, igualmente, a desculpa soou como esfarrapada. A própria Nintendo, famosa por manter a imagem de family-friendly e altamente cuidadosa com o tipo de conteúdo disponível em sua plataforma não aparenta ter qualquer problema com o cross-play. Phil Spencer – Presidente da Xbox – criticou o comentário da empresa, afirmando que insinuar que a Microsoft seja incapaz de manter seguros os jogadores de Minecraft não era saudável para a indústria como um todo.

Como jogador, eu sou um grande entusiasta do conceito de cross-play, da ideia de poder compartilhar determinados jogos com meus amigos que são proprietários de plataformas diferentes da minha. Mantida a paridade de desempenho (o que coloca o PC como um ponto de interrogação para determinados jogos, como os de tiro), qualquer jogo só teria a ganhar com esta ideia.

Fico bastante decepcionado em saber que esta possibilidade está tão próxima (a um botão de distância, como afirmou a Psyonix, desenvolvedora de Rocket League) e a Sony está sendo um entrave no processo.

Questões jurídicas e de segurança poderiam ser facilmente resolvidas com Acordos de Usuário Final bem escritos ou sistemas de controle de faixa etária, já disponíveis nos consoles, fazendo com que as crianças só pudessem entrar nos modos online a partir de uma determinada idade – selecionada pelos pais, os principais interessados em controlar isto.

Entretanto, a real explicação está em uma outra frase da mesma entrevista, menos atraente e explicativa: “Infelizmente, esta é uma discussão comercial entre nós e outros acionistas e não entrarei em detalhes sobre este assunto em particular“. A verdade é que o cross-play não é interessante para a Sony no momento.

Empresa Boazinha vs. Empresa Malvada

Esta história se desenrolou em uma narrativa de empresa boazinha vs. empresa malvada. Uma dicotomia sobre a empresa que pensa em seus jogadores e aquelas que os ignora – uma besteira sem tamanho. Correndo o risco de dizer o óbvio, qualquer empresa tem um objetivo claro: vender seus produtos e lucrar com isto. Em certas ocasiões isto significa atender aos desejos dos seus consumidores, em outras, não.

Fosse você o presidente de qualquer uma destas empresas, no final do ano fiscal caberia a sua pessoa ficar diante dos investidores e acionistas e explicar como suas decisões naquele período ajudaram a empresa e fizeram eles ganharem mais dinheiro, e o fato é que – no atual momento – a ideia de permitir o cross-play é muito mais vantajosa para a Microsoft do que para a Sony.

E a coisa toda parece ser especificamente com a concorrência mais direta, visto que a Sony não pareceu adversa ao conceito do cross-play em Final Fantasy XIV ou mesmo Rocket League, onde é possível jogar com jogadores do PC.

Final Fantasy XVI: A Realm Reborn permite que jogadores do PS4 e PC joguem juntos.

Mas a questão é que com uma base instalada duas vezes maior do que a do Xbox One, o Playstation 4 é ajudado pela inércia. Um comprador indeciso sobre qual console comprar tem uma chance maior, estatisticamente falando, de ter amigos na plataforma da Sony do que na da Microsoft, direcionando a escolha dele. O oposto vale para a Microsoft, que lucra com a ideia de que o comprador poderia investir em seu console, mesmo sabendo que a maioria dos seus amigos tem o outro. Quanto a Nintendo, esta tem o benefício de chegar nesta situação com um console que não é concorrente direto de nenhum deles.

Certamente, não é o multiplayer de Minecraft ou Rocket League que definirão a compra de um console, mas ao abrir o precedente do cross-play, como impedir que a mesma função chegasse a grandes títulos como Overwatch, Destiny 2 ou Call of Duty? Seria apenas uma questão de tempo.

Para a Sony, neste momento, esta não é uma investida vantajosa e só traria benefícios à concorrente. Por mais que isto deixasse os jogadores felizes – como eles também ficariam se os consoles e jogos fossem gratuitos – não deve ser fácil explicar uma decisão assim às pessoas que determinam se você será mantido em seu emprego.

No Mesmo Lugar, a Mesma Decisão

Em 2011, a situação entre Sony e Microsoft era bastante diferente. Por mais que o Playstation 3 estivesse se recuperando em relação à arrancada do Xbox 360, o console da Microsoft ainda era visto como o lugar certo para quem apreciava jogos online – um fator que direcionava a compra de muitos jogadores.

A versão de desenvolvimento de Defiance permitia jogadores do PS3 e Xbox 360 no mesmo servidor.

Nesta época a Trion estava trabalhando em um jogo chamado Defiance e chegou a apresentar ao site Kotaku o jogo funcionando com jogadores de PS3 e o Xbox 360 compartilhando o mesmo multiplayer. Mas, infelizmente, o jogo finalizado não poderia carregar esta função, pois “A Microsoft não permitirá que os jogadores da Sony joguem contra os deles”, disse Alex Rodberg, diretor global da desenvolvedora.

A Kotaku buscou um representante da Microsoft sobre o assunto e a resposta dele foi: “A Xbox Live oferece a melhor experiência de entretenimento, incomparável com qualquer outra, com 35 milhões de membros engajados. Temos um alto nível de expetativa para nossos desenvolvedores para garantir que todas as experiências na Live sejam de alto nível. Como não temos como garantir este nível de qualidade ou controlar a experiência do jogador em outros consoles ou outras redes, no momento não abriremos nossa rede a jogos que permitam esta capacidade entre sistemas”.

Impressionantemente similar, não?

Aumentando a Pressão

Mesmo assim, temos vários exemplos de cross-play funcionando perfeitamente, o que indica que tudo continua sendo uma avaliação caso a caso e que a pressão dos jogadores pode influenciar ou afetar estas decisões.

Shadowrun permitiu que usuários do Xbox 360 e do PC compartilhassem a mesma rede, Warframe e Street Fighter V colocaram nos mesmos servidores jogadores do Playstation 4 e PC. Temos até um caso único de cross-play entre consoles com Final Fantasy XI unindo jogadores do Playstation 2 e Xbox 360, dois consoles de gerações distintas.

Todavia, por mais que uma determinada decisão possa agradar aos jogadores, ela só será tomada – e justificada diante dos acionistas da empresa – se de alguma forma aquilo aumentar (ou impedir a queda) as vendas e a lucratividade do negócio.

Isto não diminui a importância das críticas ou da voz do consumidor afirmando que deseja o cross-play também nos consoles da Sony. Entretanto, a não ser que de algum modo a recusa (ou aceitação) do cross-play afete diretamente as vendas do Playstation 4 e seus jogos, eu não seguraria o fôlego esperando que estas barreiras caiam no futuro próximo.

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.