Playstation Review

Samurais, Demônios e Muita Morte em Nioh Conheça a desafiadora jogabilidade deste exclusivo do Playstation 4.

Chamar Nioh de Dark Souls no Japão feudal é, ao mesmo tempo, um atalho necessário e uma injustiça. Isto porque o rótulo nos poupa de listar várias características que os dois títulos têm em comum – como a dificuldade elevada, o sistema de progressão do personagem e o ressurgimento dos inimigos sempre que você acessa um dos pontos de verificação do cenário – mas também ignora que, em vez de se contentar em ser apenas um clone da série Souls, Nioh possui suas próprias qualidade e uma personalidade única. Mas será que isto é suficiente para colocar o exclusivo do Playstation 4, desenvolvido pelo Team Ninja, entre os grandes jogos de 2017?

Um Gaijin Na Guerra Civil Japonesa

Levemente baseado em um roteiro não finalizado do diretor Akira Kurosawa, Nioh coloca o jogador na pele do samurai ocidental William Adams – um samurai da vida real que inspirou também o livro Xógun, de James Clavell. Em um cenário que mistura fatos históricos do final do período Sengoku e elementos de ficção e sobrenaturais, William chega ao Japão em busca de um espírito guardião chamado Saoirse, sequestrada pelo antagonista Edward Kelley.

Com sua busca acontecendo durante um dos períodos mais turbulentos do Japão, William encontra aliados famosos como Hattori Hanzo e Tokugawa Ieyasu e acaba envolvido na guerra civil. Tudo isto enquanto busca seu espírito guardião e desvenda um plano envolvendo um minério místico chamado amrita, que teria sido determinante na vitória da Inglaterra contra a Espanha.

Por mais que a história parece complexa, a narrativa de Nioh é superficial e linear. A busca de William não tem grandes reviravoltas e boa parte dos eventos que ocorrem durante o jogo visam apenas aumentar o tempo de duração da experiência. Ler as descrições de cada item do jogo pode ajudar a ambientar a aventura, mas fazem pouco em tornar o enredo realmente interessante.

Esta superficialidade fica ainda mais clara quando consideramos as missões paralelas do jogo, que sou pouco mais que argumentos rasos para incluir mais alguns minutos de jogo. Samurais que perdem suas espadas, pessoas perdidas na floresta ou simplesmente uma invasão de yokais (demônios) em um determinado templo, em pouco tempo você começará a ignorar o conteúdo descritivo delas e concentrando-se apenas naquilo que Nioh traz de melhor.

As Jóias da Coroa: Sistema de Combate

A principal conquista de Nioh está em seu sistema de combate, que apresenta simplicidade aos jogadores iniciantes, porém oferece complexidade suficiente para aqueles mais experientes. Mesclando a inspiração na série Souls com toques de Ninja Gaiden, Nioh não é um jogo compassado e com ritmo lento, mas sim ágil e frenético, exigindo que o jogador pense e reaja muito rapidamente.

O jogo conta com 5 tipos de armas: espadas, espadas duplas, lanças, machados pesados e kusarigamas – a famosa arma oriental composta por uma foice e uma corrente. Cada arma possui suas próprias características de velocidade e potência, além de golpes específicos e potencial defensivo.

Cada uma destas armas possui ainda três posturas diferentes. A postura alta oferece golpes fortes e mais lentos, a média tem melhor potencial defensivo e é equilibrada, enquanto a baixa troca potência por velocidade e aumenta a capacidade de esquiva do personagem. Cada postura possui uma lista de golpes especiais que podem ser personalizados de forma independente, adequando o personagem cada vez mais ao seu estilo de jogo.

A barra de ki, que substitui a estamina da série Souls, tem particularidades específicas em Nioh. Primeiramente, esgotá-la reduz os ataques do personagem, mas não os impede. Entretanto, ser atingido com a barra de ki esgotada coloca seu personagem em um estado atordoado, que permite golpes fulminantes do seu oponente – muitas vezes fatais. Adicionalmente, o jogo introduz uma mecânica chamada fluxo de ki. Trocar a postura do personagem no momento correto, após um combo de golpes, faz com que parte do ki do personagem seja restaurada, permitindo uma sequência maior de movimentos e criando um fluxo ininterrupto entre as posturas.

Este complexo sistema de combate – enfatizado na arma kusarigama, que possui características bem diferentes em cada postura e é recomendada para jogadores mais avançados – torna o combate de Nioh sempre fresco e interessante. Em nenhum momento o jogador se sente fazendo a mesma coisa o tempo todo e variar seu estilo é um dos métodos para se adequar a cada oponente. Isto não significa que você precise virar um mestre do fluxo de ki para zerar a campanha do jogo, mas explorar o combate em sua totalidade facilitará e tornará sua experiência mais interessante, principalmente nos desafios mais avançados do jogo ou até mesmo nos momentos me que você enfrentar outros jogadores.

Completando o sistema de combate e personalização do personagem estão os espíritos guardiões que o jogador adquirir durante o jogo. Cada espírito confere ao jogador habilidades especiais, como detectar tesouros no mapa ou um maior poder de ataque. Adicionalmente, o espírito pode ser acionado como um estado especial do personagem, ampliando o poder do ataque e outros atributos – um recurso valioso que pode virar o jogo em muitas batalhas perdidas, principalmente contra um grupo grande de oponentes.

Humanos, Demônios e Outros Jogadores

Os oponentes em Nioh se dividem entre humanos e demônios. De modo geral, os humanos são os oponentes mais fáceis, exceto os grandes mestres samurais que servem de desafio em algumas missões paralelas. Isto não significa que você irá encarar seus inimigos levianamente. Um pequeno erro de esquiva ou defesa pode resultar em um golpe que causa muito dano ou mesmo a morte.

Mas o grande desafio são os yokais, demônios atraídos para o nosso mundo por causa da guerra. Com formas e características variadas, eles podem ir de mortos-vivos que oferecem pouca resistência até grandes demônios armados e rodas de fogo que podem lhe matar rapidamente. Cada um destes oponentes exigirá do jogador um estilo de combate diferente para lidar com ele.

Todavia, nada se compara com a experiência oferecida pelos chefes do jogo. Com formas que vão de sapos gigantes a gosmas horrendas e feras elétricas, estes são os momentos que colocam a prova toda a habilidade do jogador. Analisar o oponente, identificar seus movimentos e poderes e traçar a melhor estratégia é primordial, pois poucos golpes podem lhe matar e o ritmo frenético de Nioh faz com que as ações e reações precisem ser instantâneas.

Outro tipo de inimigos são os espíritos dos jogadores mortos em batalha. Espadas envoltas em uma aura vermelha marcam o local de morte de jogadores e você pode acessá-los para lutar contra seus espíritos em troca mais amrita e equipamentos. Nestas situações, o espírito não é controlado por um jogador online, mas sim pela AI, com base no equipamento e no estilo de luta utilizado pelo personagem.

Equipamento, e Outras Inspirações

Quando se trata de equipamento e saque, Nioh busca inspiração em jogos com foco em saque, como Diablo ou Borderlands, e utiliza um sistema de equipamentos aleatórios. Sempre que você mata um inimigo ou abre um baú, qualquer tipo de equipamento pode surgir, unindo características diversas que colocam o item no patamar de comum, incomum, raro, único ou celestial. Apenas as recompensas oferecidas no final das missões são fixas.

O jogador também pode utilizar o ferreiro para construir novas armas ou alterar os poderes de uma arma específica. Conseguiu uma arma de nível elevado, mas sem as características que você deseja? Sem problemas. Basta pagar o ferreiro por uma Fusão Espiritual, que permite que um equipamento de nível menor absorva outro de nível maior, aprimorando suas qualidades.

Arredondando o sistema de equipamentos está o sistema de Conjuntos, que oferecem poderosas habilidades quando o jogador reúne várias peças – peitoral, pernas, luvas, botas e capacete – do mesmo. Com o sistema de saque aleatório, a forma mais simples de reunir conjuntos é através dos planos que são encontrados nas fases (geralmente em missões paralelas) e que permitem que os equipamentos sejam fabricados pelo ferreiro, normalmente em troca de recursos raros obtidos com os yokais mais poderosos.

O sistema faz com que todo item seja interessante e a qualquer momento você possa se deparar com um equipamento melhor. Por outro lado, é constante a sensação de que nenhuma arma ou armadura é especial ou única. Baús ocultos e passagens secretas perdem um pouco do brilho quando você sabe que seu prêmio pode ser idêntico ao que você teria em qualquer outro baú no jogo, minimizando a sensação de recompensa pela exploração meticulosa do jogo.

A Bruta Beleza do Japão Feudal

Nioh foi originalmente anunciado para Playstation 3, porém foi cancelado e o Team Ninja trabalhou no título para Playstation 4 a partir do zero, o que ajuda a evitar aquela sensação de um jogo remasterizado que pode surgir nestas situações.

Graficamente, Nioh oferece uma experiência digna desta geração, mas distante de ser impressionante. Deixando de lado técnicas gráficas mais recentes, como efeitos de pós-processamento ou normal maps, a engine do Team Ninja recorre à força bruta para a maioria das coisas que aparecem na tela. Pedras, pisos e paredes são meticulosamente modelados e os pontos de luz na cena reagem corretamente com o ambiente, inclusive com os efeitos do clima.

Entretanto, os recursos utilizados para trabalhar desta forma reduzem o espaço para cenários muito detalhados ou efeitos como motion-blur, resultando em uma imagem limpa e nítida, porém menos rebuscada em efeitos e detalhes do que estamos habituados nesta geração.

Como a engine de Nioh é graficamente exigente e suas mecânicas pedem precisão e agilidade nos controles, o Team Ninja oferece ao jogador a opção de priorizar o desempenho ou a resolução do jogo. O jogo utiliza um sistema de resolução dinâmica, que reduz ou aumenta a quantidade de pixels de acordo com a carga de processamento. Nas Opções é possível escolher o modo Cinema, que mantém o jogo em 30 quadros por segundo e permite atingir resoluções maiores, como 1080p no Playstation 4 Base e até mesmo 4K no Playstation 4 Pro, ou então Ação, que utiliza resoluções menores (em torno de 720p no PS4 Base e 1080p no PS4 Pro) para garantir um desempenho estável de 60 quadros por segundo. Esta segunda opção foi a minha favorita, pois torna o brilhante sistema de combate de Nioh muito mais responsivo – jogando no Playstation 4 Pro, o jogo oferece uma qualidade de imagem bastante limpa, mesmo em uma TV 4K. Existe ainda a opção Cinema (Variável), que não limita a taxa de quadros a 30 fps, fazendo com que a flutuação na taxa de quadros resulte em uma experiência mais desconfortável – a pior das escolhas, na minha opinião.

Embora tenha uma história bastante superficial, Nioh apresenta personagens detalhados e expressivos durante as cenas de corte, ajudando a enriquecer a narrativa do jogo. O áudio, porém, não ajuda, visto que a dublagem em inglês deixa bastante a desejar, com pausas e entonações estranhas.

A trilha sonora de Nioh, por sua vez, cumpre o seu papel, levando o jogador para o Japão Feudal com suas flautas e cordas e enfatizando os momentos de ação com seus tambores.

As Individualidades de Nioh

Não há nenhuma vergonha em dizer que Nioh bebe fortemente na série Souls, criada por Hidetaki Mayazaki. O sistema de evolução do personagem, baseado na amrita absorvida de seus inimigos, exige que o jogador retorne aos santuários espalhados pelo cenário para trocar amrita por melhorias nos atributos. Morrer faz com que o jogador retorne ao último santuário, enquanto a amrita acumulada fica no local da morte – vigiada pelo espírito guardião do jogador – até que o jogador consiga chegar lá para recuperá-la.

Porém, além das importantes diferenças na velocidade, sistema de combate e de saque, Nioh distancia-se de sua inspiração no que trata do design de fases. Em vez de utilizar um único cenário ligado por caminhos tortuosos, confusos e complexos, Nioh possui estágios bem divididos e independentes.

Isto faz com que os mapas de Nioh sejam mais lineares e direcionados, geralmente contando com vários recursos para facilitar a vida dos jogadores. Santuários ocupam lugares estratégicos e portas que podem ser desbloqueadas aceleram o acesso aos setores mais avançados da fase no caso da morte do jogador. O design de fase, ao mesmo tempo que fica mais óbvio e previsível, parece tomar muito cuidado para limitar os índices de frustração que os jogadores venham a enfrentar com a alta dificuldade e letalidade do jogo.

Nioh também explora as características multiplayer do formato, permitindo que o jogador ofereça auxílio a outros jogadores ou convoque-os para o seu jogo para ajudá-lo com os desafios. Este é um recurso valioso, pois muitos dos combates difíceis se tornam muito mais fáceis quando enfrentados em dupla.

Para quem deseja colocar suas habilidades a prova, o jogo recebeu um modo competitivo, no qual os jogadores podem se enfrentar em combate. Além disto, os jogadores podem se filiar as famílias japonesas e suas conquistas são computadas em um embate semanal, premiando os jogadores que mais influenciaram na vitória do seu clã.

Uma Base Sólida para uma Franquia

Nioh é um título incrível e um exclusivo de peso para o sistema Playstation. As minhas primeiras horas com o jogo foram de grande fascinação com a forma com que o jogo pegava mecânicas amplamente conhecidas e adicionava seus próprios temperos e complexidades, montando um todo autêntico e cheio de personalidade.

Infelizmente, o título não consegue preservar este frescor durante toda o tempo de jogo a que ele se propõe. Com poucas dezenas de horas você terá esgotado praticamente todos os tipos de inimigos comuns (não-chefões) e a previsibilidade no design dos mapas começa a ficar muito perceptível.

O sistema de missões paralelas mais atrapalha do que ajuda, ampliando o tempo de jogo com desafios enfadonhos e repetitivos, reutilizando à exaustão fases e chefões. A falta de criatividade tenta ser substituída por desafios que colocam o jogador contra hordas cada vez maiores dos mesmos inimigos ou até mesmo combinando dois chefões no mesmo estágio.

Neste momento, a história deveria ser o elemento de atração – a isca que levaria o jogador prazerosamente através da experiência, mas sua superficialidade e a narrativa insossa fazem com que ela fracasse neste objetivo.

Se aproximando do terço final do jogo, caminhar pelos Japão feudal de Nioh é como ficar muito tempo em um parque temático, quando o deslumbre vai se esvaindo e você começa a perceber os interruptores de luz, fiações e extintores de incêndio por trás do cenário. Com a repetitividade e sem uma história que conduza o interesse do jogador, o loop de gameplay vai ficando cada vez mais mecânico e repetitivo, tornando-se cansativo.

Mesmo com estes problemas, Nioh é um dos melhores jogos deste primeiro semestre de 2017. As fundações que erguem o jogo são sólidas e a franquia tem muito espaço para crescer, aproveitando o sucesso obtido. Para quem gosta das mecânicas do jogo, ele oferecerá muitas horas adicionais – mesmo após a campanha – nos modos mais difíceis (que recompensam com equipamentos melhores), na batalha entre as famílias ou no modo competitivo entre jogadores. Mas mesmo que você queira apenas experimentar a campanha, Nioh oferece um desafio sólido e atraente, que compensa o investimento (seja financeiro ou de tempo) e deixa clara a competência do Team Ninja para criar jogos de ação frenéticos e complexos.

Prós:

  • Sistema de combate inteligente e variado;
  • Dificuldade exigente, mas não frustrante;
  • Permite ao jogador escolher entre desempenho e resolução nas opções.

Contras:

  • História superficial e pouco interessante;
  • Design de fase e inimigos repetitivos.
Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.

Um ótimo jogo de ação para quem aprecia um bom desafio.

Nioh oferece uma pegada nova para o modelo criado pela série Souls - adicionando uma personalidade própria ao modelo. Apesar de ficar um pouco repetitivo com o tempo, oferece um ótimo desafio e experiência para quem gosta de jogos exigentes.

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