Entrevista

Entrevista: Diego Oliveira, Organizador da Gamercom Um apaixonado por games, ele falou sobre o passado, presente e futuro do evento.

Diego Oliveira é um dos três organizadores por trás da Gamercom, feira de games que aconteceu nos dias 08 e 09 de julho em Florianópolis, Santa Catarina. Acompanhe a entrevista que o Doze Bits fez com Diego, onde ele falou sobre o passado, presente e futuro da feira.

Doze BitsComo surgiu a ideia da Gamercon, o que te levou a produzir esse evento?

Diego Oliveira – Primeiro de tudo, desde que me entendo por gente eu tenho uma relação com videogame, desde cedo alguém da família tinha um videogame. Conheci o meu primeiro ATARI e daí veio a paixão a primeira vista pelo primeiro eletrônico. Também tem toda uma história com meu pai que teve um restaurante e na baixa temporada, para atrair mais gente, comprou umas máquinas de arcade. Para mim aquilo foi a “Disneylândia”. Jogava Cadillac and Dinosaurs, Metal Slug e vários jogos… eu guardo com muito carinho essas lembranças, quando minha relação com games ela foi amadurecendo.

Ainda sim, eu sempre tive uma outra paixão, que foi a música. Lembro que por causa da música e dos games, eu tinha um grupo de amigos que compartilhavam essa paixão, então fazíamos encontros casuais, organizávamos campeonatos entre todos, víamos as novidades de jogos, comprávamos revistas e quando começamos a ter esse contato – na época a revista EGW – víamos bastante sobre a E3, no ano de 1998 ou 1999, e eu começava a imaginar como seria um evento semelhante aqui no Sul. Então, surgiu nossa primeira iniciativa de projeto em 2007, que foi realizado em 2008 e 2009 – mas a ideia foi em 2007 – que foi a Gameway, que foi nosso primeiro projeto de games

Só que como éramos muito novos, precisávamos de um tempo para amadurecer, procurar experiência, se especializar, terminar a faculdade, então a gente “foi lá”, o evento está crescendo a um ponto que a gente precisa ser cada vez mais competente para poder fazer um evento como esse. Ter a noção e controle total de como funciona. Era um mundo novo, produzir um evento não era tão simples como achávamos que seria.

Dado esse tempo o grupo foi diminuindo e cada um foi seguindo seu caminho. Desse grupo surgiu uma terceira pessoa, o Wallace, meu sócio hoje na Gamercom. A gente criou o projeto em 2014, mas só veio a realizar a primeira edição em 2015. Em 2014 a gente foi atrás dos contatos de todo mundo, das empresas, a gente fez o convite: “olha, temos aqui um pólo estudantil, um pólo turístico, a cidade é considerada a capital da inovação…” É uma cidade que é rota turística, então pensamos que se tem turismo, não tem apenas o público da cidade, temos capacidade de transformar aqui também na capital dos games no sul do Brasil. Então queríamos trazer essa experiência de novo, a gente queria trazer o espírito do que a gente fez na Gameway, que é aquela coisa para a comunidade mesmo, e tanto que até surgiu o nome “Gamercom”: comunidade gamer. Fizemos uma brincadeira com as palavras, então surgiu a Gamercom, da paixão que tínhamos e da vontade de realizar um evento aqui na capital e de transformar Florianópolis na capital dos games aqui no sul do Brasil.

Doze Bits – Você falou em comunidade gamer. Eu reparei que tem ganho muita força neste evento, em particular, a questão de não ser só para de quem gosta de jogos, mas também quem quer trabalhar com isso. Hoje tem o pessoal da ACATE na feira. O evento está se direcionando nesse sentido? Não só para quem curte videogame e quer vir jogar, mas também quem quer começar a produzir, quem está se perguntando: “quero ser game designer, o que eu faço?” O evento está indo nesse sentido?

Diego – Sim, totalmente. Até foi uma boa observação, porque é justamente isso que acontece. A gente entende que quando falamos de comunidade gamer, a gente mapeia vários nichos: e-sport, casual, hardcore, aquele que gosta mais de FPS, jogos de luta, esportes, outros que gostam de produção de jogos, querem desenvolver e vir fazer parte dessa indústria. Então, entendemos que o evento precisa ser esse ponto de contato nesse sentido também. É óbvio que não vamos, em um trabalho de 2 dias, ajudar na construção de toda uma indústria local para o desenvolvimento de jogos, então pensamos que poderíamos ser um ponto de encontro para conectar algumas áreas: a indústria com quem é desenvolvedor, transformar o desenvolvedor independente e fazer ele se tornar parte da indústria mesmo, como produtor, com estúdio.

A gente procura trazer um ambiente na Gamercom para troca de ideias, referências, conhecimentos, experiências, contatos, então estamos buscando justamente isso… fazer com que o evento comece a “abraçar” mais os diferentes nichos da comunidade gamer, até porque esse é o intuito principal do evento, conseguir fazer isso, dar essa experiência para todo mundo, para aquele que quer só o entretenimento e para aquele que quer ingressar na carreira de jogos mas as vezes não sabe como.

E a ideia que na qual a gente chegou foi do primeiro “Meeting Gamer”, que foi justamente para abrir esse cenário para as pessoas, tanto para quem já faz parte da indústria, já está estudando, mas também quem é curioso, para quem se faz as perguntas: “por onde eu começo? O que eu faço? Como eu ganho dinheiro com isso?”. Criamos o “Meeting Gamer” com esse intuito, fizemos uma parceria bacana com a ACATE (Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia), a Full Sail (uma das maiores universidades de entretenimento do mundo, com sede na Flórida) entrou como uma das patrocinadoras dessa área, porque acreditamos no potencial dos produtores brasileiros e entendemos que um pontapé inicial precisa ser dado.

E sem pretensão alguma, mas querendo colaborar com a indústria, pretendemos unir forças com a ACATE, GDA (Associação de Desenvolvedores de Jogos), outros desenvolvedores não associados a alguma instituição, e fazer com que o evento consiga atender essas pessoas.

Esse é um objetivo também do evento, queremos cada vez mais isso. Inclusive, este é um outro objetivo nosso para o próximo estágio também, que é conseguir transformar isso daqui num ambiente para match making e começar a gerar oportunidade de negócio, porque na Gamercom já aconteceram negócios e a gente tem notícia de alguém que fechou contrato com a uma empresa para desenvolver um jogo, então isso já acontece aqui no evento. O que queremos fazer agora é tornar isso mais “oficial”, criar uma sistemática, “agora temos um sistema de match making, onde você vem para o evento e você vai ter oportunidades de conversar com clientes ou com produtores”.

Doze BitsVocê comentou a respeito de unir, de montar essa comunidade e conectar as pessoas. Podemos sentir isto no ambiente em que estamos, temos bastante gente mais velha, mas temos uma “molecada” muito bacana que hoje não pensa em ser designer, mas vem hoje para jogar um Injustice 2, um Playstation 4, e logo ao lado estão apresentando um jogo que foi feito por um cara de Florianópolis, um cara que está ali, com quem você pode parar e conversar, e nesse momento que ele percebe…

Diego – … que existe produção aqui, que existe essa possibilidade…

Doze Bits – …é , e que ele pode fazer isto também.

Diego – É, isso é muito legal. É um prazer para a gente também e entendemos que é importante.

A gente sabe que as marcas possuem uma força, anos na indústria, mas sabemos que nosso ambiente é bem convidativo e intimista também. As coisas estão próximas, o produtor nacional está perto dessas outras marcas e eu acredito que é uma oportunidade para as pessoas descobrirem, “olha, aqui estão outros jogos que estamos apresentando para vocês, que é da galera daqui”. E nessa conversa sempre pode surgir esse contato entre o público e o desenvolvedor, que pode também ajudar no esclarecimento das pessoas. “A gente desenvolveu esse jogo, você pode também”. Isso é fantástico, a gente acha demais. E tanto que a Gamercom está a 3 anos com essa mesma proposta, de colocar os indies perto das grandes empresas.

Doze BitsA escolha da data, como se dá? Tanto no ano passado como nesse, a Gamercom aconteceu logo após a E3 e da BIG, que é o grande evento de independentes em São Paulo. É uma época que é mais morna em termos de notícias de games, mais tranquila. Quais fatores motivam a escolha dessa data?

Diego – Primeiro, muitas vezes temos apenas uma agenda que nos é disponibilizada. Gostaríamos de fazer um evento em outra data, mas só agora fechamos um contrato por mais 2 anos com o Centro Sul (local onde acontece o evento) e então poderemos escolher uma data melhor para seguir os lançamentos das empresas e trazê-los para a Gamercom. Esse é nosso objetivo, a gente quer trazer os lançamentos para cá. É muito divertido trazer essas marcas grandes para a Gamercom, que estão aqui para o pessoal ter essa experiência, esse contato próximo com elas. Ao mesmo tempo a gente entende que precisa oferecer uma experiência a mais para as pessoas, que seria justamente trazer os lançamentos para cá.

 

Doze BitsA gente viu que nesse ano você tem Playstation, Xbox e Warner, das grandes empresas, como que está esse apoio? Porque ainda é um evento pequeno, fora do eixo Rio-São Paulo…  Santa Catarina… como funciona isso? Como é essa busca das majors para vir para a Gamercom e como é a resposta delas?

Diego – É bem difícil conseguir a participação dessas empresas, porque exige uma certa responsabilidade do evento de oferecer um ambiente onde elas consigam estar presentes e serem relevante também no cenário “sul”. Elas por si só, como empresas do tamanho que tem, já são super relevantes. Mas quando elas vêm para a Gamercom, existe um interesse do tipo “o que eu vou apresentar para as pessoas de lá”. Existe esse interesse das empresas em trazer seus últimos lançamentos.

Por conta da E3, em que o GTI Sports para VR foi adiado, por pouco não tivemos este jogo aqui, que iria ser um lançamento muito legal de ter na Gamercom, com pelo menos a demo. Infelizmente, com o adiamento do jogo, a gente não conseguiu trazer, a “Play” não conseguiu colocar aqui para a gente.

Mas a resposta dela tem sido bem positiva, porque o evento tem mostrado um crescimento ao longo dos anos e isso é bom para elas e significa que elas estão num evento que está dando resposta, tanto de público como também das outras empresas. Claro, sempre dependemos do calendário de lançamentos deles e infelizmente esse ano não tivemos a presença da Ubisoft, mas meramente porque não tem lançamento recente para a data, de modo que não faz tanto sentido a gente expor jogos muito mais antigos. Agora, quando você tem uma empresa como a Xbox, a Playstation ou a Warner que nesse ano com lançamentos recentes, como o caso do Injustice 2, Carros 3, ou a Playstation com o lançamento do Crash Bandicot, que é um remake mas a galera adora, então a gente sabe que eles se preocupam muito com o que eles vão trazer para o público do evento. Sabemos que o evento precisa amadurecer mais em algumas partes, a gente tem o interesse de trazer mais expositores para PC Gamer também, mobile é algo que interessa muito, de modo que queremos aumentar cada vez mais o leque de participações.

Mas quanto à relação as empresas, eles adoram a Gamercom, tanto que a própria manager de marketing da Warner deu uma declaração para a gente e da qual a gente tem muito orgulho, de que ela enxerga a Gamercom como um ponto de contato dos fãs da marca e a marca. Isto é muito gratificante para nós, porque é justamente o grau de relevância que a gente busca com a Gamercom, que as marcas também nos enxergue como um ponto de contato entre elas e o público gamer aqui do sul. Assim, a gente entende que a cada ano estamos conseguindo atingir esse objetivo e conseguindo consolidar ele.

Doze BitsA impressão, então, é que as empresas vestem a camisa e que querem que a Gamercom cresça também, porque sabem que vão ser…

Diego – Sim, são parceiros nossos. A Playstation, por exemplo, é sempre a primeira marca a confirmar participação com a gente. A Warner e a Xbox também são parceiros da Gamercom, adoram mesmo o evento e estão aí mais um ano, o terceiro consecutivo, participando do evento.

Doze BitsPlano para o futuro, qual é o futuro da Gamercom?

Diego – Nós temos algumas expectativas, como falei, de estar colocando mais áreas de games, trazer mais PC Gamer, mobile e fortalecer a área business com sistema de match making, para reunir desenvolvedores locais com potenciais parceiros de negócios. O futuro que a gente enxerga é consolidar cada vez mais a Gamercom, trazendo mais inovação para o evento, trazendo mais áreas e fortalecendo como um evento voltado também para negócios.

(Crédito da foto: Thiago Mangrich)

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.