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A Mente Fragmentada em Hellblade: Senua’s Sacrifice O novo título da Ninja Theory leva o jogador em uma jornada pela esquizofrenia.

Embora seja filho de psicóloga, meu primeiro contato com esquizofrenia foi através do livro “Um Estranho no Ninho”. Diferentemente do filme – que coloca o espectador como um observador passivo da história – a obra literária de Ken Kesey é narrada através do Chefe Bromden, um nativo americano mudo com traços esquizofrênicos e paranoicos. Parte da magia do livro é fazer com que o leitor experimente aquela história de dentro da cabeça do personagem, tentando – muitas vezes em vão – filtrar a realidade e o delírio dentro da narrativa.

Comprovando novamente que os games formam uma mídia cada vez mais única, com propriedades particulares, exclusivas e incríveis, Hellblade: Senua’s Sacrifice leva o jogador através da psicose e questiona não apenas a realidade da personagem, mas toda a forma como experimentamos o mundo ao nosso redor. Se você quiser saber se vale a pena embarcar no novo título da Ninja Theory – empresa responsável por Heavenly Sword, Enslaved: Odyssey to the West e DmC: Devil May Cry – acompanhe-me nesta jornada.

Uma Realidade de Deuses e Guerreiros

Hellblade coloca o jogador na pele (e mente) da guerreira Senua, da tribo dos pictos – antigos habitantes da Escócia – durante o período das invasões nórdicas, em uma jornada através de Helhiem (o Reino dos Mortos da mitologia nórdica) em busca da alma do seu amado.

Descobrir a história da guerreira é parte do brilho de Hellblade, mas desde a cena inicial (bem como em todos os trailers) fica claro que Senua sofre de distúrbios mentais. A opção de deixar este fato claro desde o início (inclusive, abrindo a narrativa com o nome do consultor de saúde mental que deu apoio à Ninja Theory na criação do jogo) faz com que Hellblade não seja sobre a surpresa de descobrir que Senua mistura delírios e realidade, mas sim mergulhar na forma como ela enxerga o mundo através do seu próprio olho da mente.

Senua ouve vozes constantes em sua cabeça, enxerga ilusões, fragmenta-se e obsessivamente busca padrões visuais no ambiente ao seu redor. Acima de tudo, ela tem ciência de sua condição e parte do papel do jogador é interpretar o mundo através deste filtro, não apenas negando os traços esquizofrênicos, mas aceitando-os, compreendendo-os e até mesmo abraçando-os.

Mais do que uma jornada através do inferno nórdico em busca da alma do seu amado, Hellblade: Senua’s Sacrifice é sobre a viagem interior da guerreira a procura de si mesma.

A Realidade Fragmentada, o Jogo por trás da Narrativa

Embora a narrativa seja o grande destaque de Hellblade, a desenvolvedora fez questão incluir mecânicas e combate – possivelmente para afastar o título do derrogatório rótulo de walking simulator, constantemente utilizado de forma negativa para títulos com foco em narrativas interativas. Assim, o título mistura elementos de combate ocasionais, quebra-cabeças ambientais e pequenas doses de exploração, mas sempre em doses ou formas que permitam que a narrativa visual ainda esteja no primeiro plano.

A mente de Senua busca compreender o mundo ao seu redor através da busca por padrões visuais e ilusões. Navegar em direção a Hel exige que o jogador resolva enigmas ambientais, explorando o cenário em busca de runas que podem ser formadas por pilares, árvores, manchas de sangue ou até mesmo em espaços vazios – com a mesma obsessão que algumas pessoas encontram padrões numéricos ou enxergam rostos em objetos. Isto não é uma tarefa simples, pois Senua precisa estar no lugar certo e olhar o cenário em um ângulo no qual determinados objetos e elementos se alinham para formar o desenho buscado – mas é auxiliado por dicas visuais que alertam o jogador da proximidade de um padrão. A exploração também levará o jogador a totens onde é possível aprender um pouco mais sobre a cultura nórdica e suas relações com a jornada da protagonista.

Ilusões e delírios também podem atrapalhar ou ajudar na jornada. Um determinado portão pode estar fechado, mas mostrar-se aberto quando observada através de um determinado portal. Passarelas e pontes aparecem fragmentados, mas se fundem quando o jogador consegue alinhar corretamente os pedaços. Isto faz com que Hellblade se torne uma aventura exploratória, mas não em busca de tesouros ou equipamentos, mas sim um grande quebra-cabeça dos fragmentos da realidade da protagonista.

Famosa por combates complexos, ágeis e cheio de nuances, a Ninja Theory optou pelo simples em Hellblade, apresentando um combate mais compassado e sólido. O jogo cria uma fronteira clara entre os momentos de exploração e combate, mudando a forma como os controles e a jogabilidade se comportam e encerrando a ação em uma área controlada. Senua usa golpes e combos de espada, chutes, esquivas e bloqueios contra criaturas diversas – mas consistentemente humanoides. A luta de Hellblade é sobre ritmo – bloqueia, ataca, pausa, esquiva, ataca – aumentando a complexidade gradualmente com inimigos mais equipados ou com padrões de ataques diferenciados, ou mesmo simplesmente acrescentando oponentes simultâneos. O único movimento “especial” da guerreira é o foco, que permite enxergar inimigos invisíveis e desacelerar temporariamente a ação.

Embora simples, o combate oferece muita satisfação e isto deve-se principalmente ao ótimo feedback sonoro e visual dos golpes, permitindo que o jogador sinta com perfeição cada estocada dada ou recebida e deixando marcas visíveis nos inimigos.

O combate de Hellblade são esporádicos e pontuais, quebrando o ritmo puramente exploratório, mas tentando evitar o exagero que poderia surgir da busca de um desafio maior e puramente mecânico, salvo algumas poucas ocasiões em que ele parece se estender além do ponto de se tornar entediante. Adicionalmente, a dificuldade do combate é flutuante (por padrão), de modo que eles podem ficar mais difíceis ou fáceis, dependendo do desempenho do jogador.

Uma característica marcante do jogo é ausência total de interface. Não há barras de energia, mapas, bússolas, inventários, sistemas de níveis ou habilidades a serem desbloqueadas. A energia da personagem e o nível de foco são indicados por dicas visuais ou sonoras sutis. Como resultado, o título não coloca nenhum obstáculo visual entre o jogador e a experiência.

Hellblade também não tem nenhum tipo de tutorial, indicador de missão ou de alerta e soluciona isto de uma forma muito interessante, através das vozes na mente de Senua. Sem quebrar a ilusão da experiência, as vozes ajudam a direcionar a personagem. Em meio à verborragia constante e angustiante, frases como “olha, uma porta”, “não entre, parece ser perigoso”, “atrás de você” soam naturais e aprofundam ainda mais o jogador na mente da protagonista.

Os Olhos e Ouvidos da Mente

Sendo o primeiro jogo independente da Ninja Theory, Hellblade é visualmente impressionante. Não apenas pelo apreço técnico ou complexidade dos gráficos – que são convincentes e compatíveis com os esperados para esta geração, ao menos vindo do que poderíamos considerar um raro título AA – mas pelos efeitos visuais que ajudam o jogador a mergulhar na mente de Senua. Distorções, ruídos e efeitos de cor ajudam a dar ao jogo uma atmosfera angustiante, pontuada com momentos de calma e reflexão banhados pela luz do sol e um brilho surreal.

Para obter o melhor resultado possível na representação da protagonista, porém manter os custos dentro do orçamento de um jogo independente, a Ninja Theory desenvolveu um sistema próprio de captura de movimentos para gráficos em tempo real. A técnica foi premiada durante a Siggraph 2016 (evento voltado ao desenvolvimento de tecnologias de computação gráfica) e ajudou a dar vida às complexidades da guerreira Senua, interpretada por Melina Juergens – editora de vídeo da desenvolvedora, que foi utilizada como atriz temporária para testes do sistema de captura, mas cuja interpretação convenceu a todos de que ela era a pessoa certa para incorporar a protagonista.

Como resultado, Senua é uma personagem realista e convincente, com movimentos e texturas que impressionam. Os detalhes dos cabelos, da pintura de guerra seca e rachada e da pele sempre suja e marcada ajudam a comunicar os conflitos internos da personagem.

Diferentemente da protagonista, os personagens que existem na mente de Senua foram realmente filmados, em vez de modelados em 3D, e surgem no jogo como imagens fantasmagóricas, ampliando o clima de estranheza e surrealidade.

A trilha sonora é pontual e sutil, apenas acrescentando à atmosfera do jogo e crescendo nos momentos de combate. Em diversos momentos o jogo utiliza a direção do som para guiar a personagem ou manipular a tensão e o efeito das vozes na cabeça de Senua se movendo enquanto falam com você é enervante, ocasionalmente beirando o desconfortável. Ruídos e sons ambientes ajudam a ampliar a sensação de se estar em um ambiente estranho e inóspito e o título utiliza um sistema de áudio tridimensional que envolve o jogador, fazendo com que os barulhos – principalmente as estranhas vozes na cabeça da protagonista – dancem ao redor do jogador enquanto falam.

Acima de tudo, Hellblade é um título para ser jogado com fones de ouvido e em um ambiente livre de distrações.

Retratando Transtornos Mentais

Esqueça o clichê “no final, tudo estava acontecendo só na sua cabeça”. Hellblade é sobre compreender os transtornos mentais, mergulhar na mente fragmentada de Senua e aceitar que nossa relação com a realidade é filtrada – em maior ou menor proporção – por nossas próprias percepções do que é real.

A Ninja Theory não é a primeira desenvolvedora a retratar transtornos mentais em jogos, mas é inovadora na forma não-caricata e responsável com que o fez. Tanto que Hellblade: Senua’s Sacrifice teve o apoio de um profissional de saúde mental como consultor e contou com diversas sessões de feedback com pacientes. As experiências visuais e auditivas contidas no jogo, como a percepção exagerada das cores e das formas, a dança das vozes fantasmagóricas, a obsessiva busca por padrões visuais, as privações dos sentidos ou confusões, foram todas descritas por pacientes com transtornos mentais, de modo a serem retratadas da forma mais fiel possível.

Mas de todos os sintomas, todos os pacientes citam o peso do estigma social. O universo de Hellblade não é formado apenas pela mente de Senua, mas também pelas suas relações – seus pais, sua tribo, seu amado – cada uma destas uma peça no quebra-cabeça que compõe a protagonista e sua visão da realidade.

A jornada da guerreira para salvar a alma do seu amado fala sobre a percepção da realidade – não apenas da Senua, mas de todos nós – mas também de amor, de ódio, de esperança, de medo do desconhecido, da ignorância e do reencontro consigo mesmo e aceitação.

Há um bocado a ser aprendido no mergulho de Senua ao inferno em busca de uma pequena fagulha de luz na escuridão.

Uma Jornada Breve e Intensa. Mas É para Todos?

Com duração de cerca de 6 a 8 horas, Hellblade é um jogo curto, porém intenso. Pode ter sido uma decisão pautada pelo orçamento, mas a experiência com o título me traz a sensação de que uma jornada mais longa poderia dessensibilizar o jogador para o tema do jogo, fazendo com que a narrativa entrasse em um estado de dormência e as mecânicas acabassem tomando o primeiro plano. Por este motivo, a Ninja Theory decidiu comercializá-lo por US$30 (R$60 no site Good Old Game e R$92 na PSN), ao invés dos US$60 habituais.

Para fãs de narrativas interativas e jogos com uma experiência diferenciada, Hellblade vale seu preço e justifica-o na qualidade gráfica e sonora da produção (embora eu ache o valor pedido na PSN um pouco salgado).

Para quem busca apenas um pouco de ação e diversão, Hellblade não atenderá suas expectativas. O jogo oferece uma experiência única e muitas vezes assustadora e desconfortável, mas carece de um grande desafio mecânico ou fator de rejogabilidade. Hellblade exige um mergulho por parte do jogador, uma certa dose de empatia para com a personagem e o universo ao qual o jogo se propõe e um mergulho puramente mecânico no jogo está fadado à decepção.

Todavia, acima de tudo, o jogo mostra como os games formam uma mídia única e que vai encontrando suas próprias vozes. Os transtornos mentais já foram explorados de diversas formas no cinema (recomendo Cisne Negro, Spider e Uma Mente Brilhante) e na literatura (recomendo Um Estranho no Ninho), mas os games oferecem uma nova forma de tratar o tema de forma interativa, fazendo o espectador/jogador mergulhar de forma mais pessoal na experiência e ampliando a possibilidade de compreensão e empatia.

Hellblade leva o jogador para a fantasia da mitologia nórdica para tratar de um assunto moderno, sobre o qual ainda paira uma sombra densa de desconhecimento e preconceito. Se o jogador se permitir mergulhar, o título promete uma experiência provocante e única, do tipo que só é possível em um jogo eletrônico.

Hellblade: Senua’s Sacrifice foi lançado no dia 08 de agosto de 2017 para PC e Playstation 4. Ele está disponível apenas em versão digital e pode ser adquirida através do site GoG e na PSN Store. A versão testada foi a de PC.

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.

Uma jornada profunda e provocante.

Hellblade: Senua's Sacrifice oferece uma jornada profunda e provocante em uma mente perturbada por transtornos, mas exige que o jogador se deixe levar por sua proposta. A experiência curta pode afastar alguns jogadores, bem como aqueles em busca de um entretenimento mais leve.

9

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