Opinião Xbox

Retrocompatibilidade e Preservação Histórica A importância da retrocompatibilidade oferecida pelo Xbox One

Com exceção dos games, acessar mídias antigas não é necessariamente um desafio. Livros antigos são facilmente reeditados, oferecidos em bibliotecas ou digitalmente e os inúmeros serviços de streaming permitem que você assista filmes ou ouça músicas antigas. Mas isto nem sempre foi uma realidade e muito conteúdo escrito, filmado ou gravado se perdeu na história de forma irreparável até que a importância da preservação histórica fosse compreendida.

Agora é a vez dos games, como mídia e comunidade, enfrentarem os desafios que surgem diante daqueles que querem evitar que jogos e histórias da indústria se percam no tempo e lutam para permitir que as futuras gerações tenham acesso a títulos que ajudaram a moldar a cultura gamer como conhecemos hoje.

Dentro desta filosofia, a Microsoft acaba de liberar para os proprietários do Xbox One a retrocompatibilidade com o Xbox Original, somando-se à já disponível retrocompatibilidade com o Xbox 360. A lista de títulos disponíveis ainda é limitada, mas assim como aconteceu com o Xbox 360, ela deve crescer periodicamente.

De acordo com Kevin La Chapelle – em entrevista à IGN – a retrocompatibilidade é um projeto interno da Microsoft, movido pela paixão dos envolvidos e que fora prevista para o lançamento do Xbox One, mas que perdeu prioridade em meio ao tumultuado lançamento do console. A substituição de Don Mattrick por Phil Spencer foi crucial para que o projeto fosse reativado.

Não foram poucos os desafios técnicos superados para que a retrocompatibilidade saísse do papel, principalmente considerando-se que a equipe não queria simplesmente colocar um chip de Xbox 360 dentro do hardware do One – o que encareceria o produto e permitiria apenas a paridade com o console (sem as melhorias oferecidas agora, como aumento de resolução, melhor desempenho e anti-aliasing). Emulando os consoles via software, a equipe de La Chapelle reduz o ônus da retrocompatibilidade para o jogador (preço) e o passa para a empresa (o trabalho de ajustar individualmente cada um dos jogos disponibilizados). Adicionalmente, ainda há o desafio de lidar com IPs de empresas que não existem mais, licenciamentos expirados e todas as questões jurídicas envolvidas no processo.

Como resultado, usuários do Xbox One poderão acessar vários títulos das duas gerações passada, incluindo grandes clássicos como Black, Ninja Gaiden Black, Psychonauts e Star Wars: Knights of the Old Republic – seja por saudosismo ou mesmo, para as gerações mais recentes, conhecer peças que ajudaram a pavimentar a história dos games.

Não consigo imaginar a retrocompatibilidade compensando financeiramente o investimento de horas de trabalho feito pela equipe de La Chapelle, o que significa que o projeto provavelmente deva ter enfrentado alguma resistência dentro da própria empresa. Mas a paixão dos envolvidos falou mais alto e o resultado é algo que vale muito para a marca Xbox na forma de engajamento e apoio da comunidade.

Novos desafios serão enfrentados no futuro, quando o lançamento de novos hardwares e o início de uma próxima geração exigir novas adequações do software por trás da retrocompatibilidade, mas a Microsoft deu um passo importante na direção de sedimentar a retrocompatibilidade e a preservação histórica como um item crucial e indispensável nos consoles.

Os jogadores e a história dos games só têm a ganhar com este esforço.


Em tempo, se você se interessa pelo passados dos games – principalmente aqui no Brasil – vale a pena conhecer a Sociedade Histórica de Videogames do Brasil, projeto encabeçado por Fabio Santana (gerente de RP da Capcom no Brasil e aficionado por consoles e games antigos), Gus Lanzetta (apresentador do podcast Papo Torto e que cobre o mercado de games deste 2006) e  Pedro Falcão (editor da revista Vice e responsável pela incrível série Paralelos, que narra a história da pirataria de games no Brasil). Cadastre seu email no site da SHVB e fique por dentro de todas as novidades do projeto.

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.