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Review: Marvel’s Spider-man Balançando nos céus de Nova Iorque na pele do Amigo da Vizinhança

Pendurar-se entre prédios, disparar teia e combater vilões. Tornar humanamente controlável o humanamente impossível é um desafio em qualquer jogo de super-herói e algo que a Insomniac Games encarou de frente ao levar o amigo da vizinhança, Homem-Aranha, para um novo passeio no mundo dos games.

É impossível não ver em Marvel’s Spider-man o DNA de sua desenvolvedora, desde os menus circulares e bugigangas incríveis de Ratchet & Clank à navegação em velocidades vertiginosas de Sunset Overdrive. Também são inevitáveis as comparações com a trilogia Batman da Rocksteady, que provou que com os ingredientes corretos – acima de todos, o respeito ao personagem – jogos de super-herói não precisam ser caça-níqueis baratos e esquecíveis.

Um Herói que Dispensa Apresentações

Filmes, quadrinhos, jogos – a história de como Peter Parker se torna o Homem-Aranha já foi exaustivamente contada e recontada. Em Marvel’s Spider-man, pulamos o início moroso da história direto para um in media res (quando começamos a história no meio da ação) agitado e empolgante. Encontramos um herói experiente e com uma bagagem rica e detalhada, aliados importantes e vilões recorrentes.

Esta escolha tem um impacto importante na forma como a narrativa é absorvida pelo jogador. Ao invés de nos contar algo que já conhecemos, de forma linear, o jogo traz ao jogador uma nova história, ao mesmo tempo em que expande o universo como uma teia (trocadilho intencional!) e nos leva a redescobrir aos poucos o papel dos personagens que já conhecemos naquele novo universo.

Parte da narrativa está na descoberta do papel de cada personagem conhecido neste novo universo.

Cheio de detalhes para os fãs do amigo da vizinhança, o jogo não tem medo de repensar alguns personagens e contextos. Tia May, Mary Jane, Miles Morales, Norman e Harry Osborn e muitos outros estão presentes (fisicamente ou não) no jogo, mas quase sempre em novas interpretações. O título também equilibra bem os momentos entre o Homem-Aranha e Peter Parker, dando bastante peso para a vida do personagem por trás da máscara, seus problemas pessoais e dificuldades para manter as contas em dia.

Embora seja um jogo que pode cativar iniciantes, Marvel’s Spider-man foi feito para o coração dos fãs. O humor do personagem, a falação interminável, os dramas do equilíbrio entre o herói e a pessoa comum, os vilões meios bobos, tudo está presente e muitas referências ao universo Marvel podem ser identificadas.

Sob a Máscara, Sob Céus de Nova Iorque

Falando em inspirações, a Insomniac foi buscar em Spider-man 2 (2004) – considerado por muitos um dos melhores jogos do personagem – os controles que permitem que o jogador se sinta como o Homem-Aranha balançando pelos céus da cidade.

Um equilíbrio perfeito entre automatizar e dar liberdade e controle ao jogador, Marvel’s Spider-man acerta em cheio na navegação. Basta um botão para que você faça o personagem se pendurar pela cidade, fazendo com que o deslocamento não exija qualquer esforço – mas combine corretamente o timing de liberar o botão, faça disparos precisos de teia, use os elementos de parkour e principalmente a habilidade que permite que você pressione um botão no momento correto ao aterrissar para dar um impulso em velocidade e a movimentação vira uma bela dança ritmada, precisa e altamente satisfatória, nunca ficando automatizada ou tirando o controle do jogador.

Não é a primeira vez em que um jogo oferece um deslocamento tão interessante – já vimos isto em jogos como InFamous, Sunset Overdrive ou Prototype – mas Marvel’s Spider-man tem uma fisicalidade que torna o movimento mais tangível e visceral. A influência da gravidade, o efeito pendular da teia e a alternância entre flutuação e queda fazem da navegação pela cidade o ponto alto do jogo, ao ponto de tornar o sistema de Viagem Rápida – sempre pontuado com cenas divertidas do Aranha pegando o metrô – desnecessário (em meu jogo eu utilizei o sistema apenas 5 vezes, após terminar o jogo, para obter o troféu).

O mesmo tipo de fluxo, no qual tudo parece se encaixar, existe no combate, porém ele falha em preservar o frescor durante toda a experiência do jogo. Os controles permitem que o Homem-Aranha encadeie rapidamente golpes, deslocamentos, puxões e combos aéreos, além do uso de equipamentos, mas embora o jogo incremente os inimigos para forçar o jogador a utilizar novas estratégias no combate, a quantidade de inimigos enfrentados no jogo faz com que as lutas se tornem repetitivas e cansativas com o tempo.

A física do movimento do personagem pela cidade fazem da navegação um dos pontos altos do jogo.

Uma quebra nesta rotina são os momentos de furtividade, nos quais o jogador pode (em raras ocasiões a furtividade é totalmente obrigatória) eliminar parte dos inimigos sem ser detectado. O personagem é extremamente eficiente nesta tarefa e a falha geralmente tem como consequência apenas uma luta convencional.

Um Novo Jogo, Um Velho Mundo Aberto

A Nova Iorque de Marvel’s Spider-man é detalhada e linda, repleta de marcos famosos (como o Madison Square Garden ou o Central Park) e também fictícios. Não deve ter sido uma decisão fácil abrir mão do ciclo de dia e noite em tempo real do jogo, mas ao fazer isto os desenvolvedores ganharam uma incrível ferramenta para definir melhor o tom da narrativa: dia, noite, sol ou chuva, ajudam a enfatizar o humor de determinados momentos, além da eterna “hora dourada” (momento antes do anoitecer quando a luz do sol fica mais amarelada, muito procurado pelos fotógrafos) de algumas cenas ser um convite permanente ao Modo de Fotografia.

Você vai cansar de ver estes rostinhos furiosos no decorrer do jogo.

Desça dos prédios por um instante e a cidade parece viva. Pessoas caminhando, tráfego constante e vendedores de rua reforçam o cuidado com detalhes do topo dos prédios ao asfalto e a reação das pessoas à presença do herói – seja gritando palavras de incentivo, críticas ou pedindo um momento para selfies – ajudam a transformar Nova Iorque em um personagem.

Seria uma pena se este cenário tão fantástico fosse preenchido com missões e colecionáveis e torres ao estilo dos jogos de mundo aberto da geração PS3/Xbox 360 e foi exatamente isto que aconteceu. Marvel’s Spider-man não consegue fugir de convenções antiquadas do gênero e cai em clichês como torres para revelar mapas, missões paralelas pouco inspiradas e colecionáveis abundantes, minimizados apenas pela satisfação de navegar pela cidade e pela curta duração do jogo (pouco mais de 30 horas para explorar todo o seu conteúdo).

A Insomniac até se esforça para contextualizar todo este conteúdo, incluindo easter-eggs interessantes nas mochilas procuradas por Peter Parker no cenário ou dando explicações para os desafios encontrados nos laboratórios de pesquisas, mas é inevitável que o jogo caia na repetição na medida em que você enfrenta pela enésima vez o mesmo crime ou deixa Mary Jane esperando para caçar pombos.

Homem-Aranha ou Spider-man?

Marvel’s Spider-man não oferece ao jogador a opção de escolher o idioma do áudio ou texto do jogo, utilizando as configurações do Playstation 4 como parâmetro. O título conta com um ótimo trabalho de localização e atuações de voz excelentes que refletem perfeitamente o clima leve e bem-humorado do universo do personagem, mas também apresenta uma dose de pequenos problemas.

O principal deles é a estranha decisão de preservar os nomes originais de personagens e vilões (uma tendência que a Disney já vinha mantendo com alguns de seus personagens, como o Ursinho Pooh ou a fada Tinkerbell), que faz com que frases como “eu estou perseguindo a Black Cat” ou “o Vulture foi visto na cidade” soem esquisitíssimas para quem está habituado com Gata Negra e Abutre.

Outros problemas são a quantidade de falas incidentais que não foram regravadas e inconsistências de volume na mixagem. Não é raro encontrar pessoas pedindo taxi ou policiais conversando em inglês ou personagens falando em volume muito inferior ao padrão do jogo.

Para quem gosta de colecionáveis, o jogo oferece uma variedade de uniformes para desbloquear.

Vale a pena destacar o incrível trabalho de voz feito para o J.J. Jamerson – simplesmente fantástico e uma das melhores atuações de voz brasileiras que vi em um jogo.

Gostinho de Quero Mais

Após pouco mais de 30 horas de jogo e um troféu de platina garantido, Marvel’s Spider-man deixa um gostinho de quero mais. Embora não seja perfeito, o jogo é divertido e cativante, conta uma boa história e cumpre a missão de colocar o jogador na pele de um dos personagens mais queridos e icônicos de todos os tempos. Sem dúvida, o melhor jogo do Homem-Aranha e mais um título para provar que jogos de super-heróis podem ser muito bons.

Algumas coisas precisam ser revistas para uma sequência – como a estrutura antiquada do mundo aberto – mas o título monta uma base e define um universo incrível para mais jogos, deixando aquela ansiedade para subir novamente nos prédios e balançar nos céus de Nova Iorque em direção ao pôr-do-sol.

Prós

  • Navegação pela cidade divertida e satisfatória;
  • Respeita a ideia do personagem ser ‘falante’, mas evita a repetição excessiva das falas;
  • Coloca você com perfeição na pele e no mundo do Homem-Aranha.

Contras:

  • Estrutura de mundo aberto antiquada, ao estilo dos jogos da geração anterior;
  • O combate não consegue se manter fresco até o final do jogo.

Marvel’s Spider-man foi analizado no Playstation 4 Pro e adquirido com recursos próprios. 

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.