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Review: Assassin’s Creed: Odyssey A gigantesca odisseia nas ilhas gregas.

Qual é o propósito de uma análise – questionaria Sócrates – será expor suas experiências pessoais sobre o jogo ou tentar direcionar uma escolha de compra do leitor? Eu sempre prezo por falar de minhas próprias experiências, mas independentemente do objetivo, seria impossível falar de um jogo do escopo de Assassin’s Creed: Odyssey com base em uma partida rápida. Por isto peguei minha lança e meu escudo e mergulhei na Grécia do novo título da Ubisoft para uma gigantesca odisseia de 80 horas.

Odyssey surgiu como uma surpresa neste ano, visto que ninguém esperava um novo título da franquia tão cedo após o ótimo Assassin’s Creed: Origins. Desenvolvido em paralelo, Odyssey aponta para uma direção similar, mesclando elementos de RPG na fórmula já conhecida da série, mas o faz através de escolhas próprias que o diferenciam – para bem ou para mal – do seu predecessor.

Uma Prova de Múltiplas Escolhas

Tudo começa com uma escolha. A Lança de Leônidas é o aparato utilizado para que Layla possa mergulhar novamente na Animus, desta vez para explorar a Grécia. Entretanto, duas sequências genéticas estão presentes e cabe ao jogador decidir se irá explorar a história de Alexios ou Kassandra.

O jogo não possui duas histórias diferentes, de modo que esta escolha muda apenas o protagonista. Optei por jogar com Kassandra após assistir a alguns vídeos do jogo e perceber que o trabalho de atuação de voz é bastante superior para ela. A voz de Alexios soa meio cafajeste demais para o meu gosto.

Kassandra tem uma jeito cínico e sarcástico, escolha certa contra a voz canastrona de Alexios.

Embora você não possa alterar a aparência do seu personagem, Odyssey permite uma série de personalizações no decorrer do jogo. As armaduras deixaram de ser uma progressão linear como era no Origins e passaram a combinar cinco peças diferentes com atributos e bônus específicos, enquanto ferreiros podem gravar seus equipamentos com novas características, aumentando a gama de opções.

As habilidades conquistadas na medida em que você ganha níveis de experiência (e os inimigos também, visto que Odyssey tem um sistema obrigatório de nivelamento, fazendo com que seus inimigos sempre tenham nível igual ou próximo ao da protagonista) também ajudam a direcionar o personagem ao seu gosto. Ao final do jogo, você não terá pontos suficientes para ter todas as habilidades disponíveis (que agora possuem 3 níveis de poder cada) em seu nível máximo, de modo que é necessário escolher onde investir seus pontos – seja optando por ter uma maior gama de habilidades em nível mais baixo ou menos habilidades, porém mais poderosas. Felizmente, o jogador poderá experimentar, pois a qualquer momento as habilidades podem ser zerados e os pontos recuperados através de um pequeno gasto de Dracmas, a moeda corrente.

Outra novidade são as árvores de diálogo. Diferente dos diálogos lineares dos jogos anteriores, em Odyssey o jogador pode tomar decisões que terão impacto – em maior ou menor grau – durante o jogo. Durante a maior parte do tempo as opções de diálogo parecem acrescentar pouco ao jogo, apenas criando uma barreira maior entre o jogador e a informação que o personagem quer transmitir. Ocasionalmente, uma decisão pode abrir portas para outras missões, indicadas por um ícone com duas setas – infelizmente, na maior parte das vezes estas missões são pouco inspiradas, isto quando o jogo não ignora totalmente o que você fez (em determinado momento, recebi uma missão por ter matado um personagem que, na verdade, eu optei por não matar). Como o jogo tem múltiplos versões para o final, existe uma pequena gama de decisões maiores que terão impacto nisto.

A Inspiração das Musas e a Busca pela Imortalidade

Falar em decisões toca em um dos maiores problemas com Assassin’s Creed: Odyssey, a total inconsistência na qualidade do seu texto. Para um título com mais de 80 horas de jogo (eu deixei uma certa dose de coisas para trás), seu texto raramente é inspirado. A narrativa principal do jogo convence e o jogador irá encontrar diversos momentos incríveis, divertidos ou emocionantes – embora a não linearidade do jogo permita o surgimento de uma série de incongruências nos diálogos. Entretanto, o texto segue para baixo, em direção ao submundo de Hades, na medida em que você explora o conteúdo opcional do jogo.

Entre erros e acertos, Odyssey oferece ao jogador um mundo vasto.

Odyssey flerta com a busca pela imortalidade, tentando inflar seu conteúdo e tempo de jogo com missões mal escritas ou até mesmo criadas proceduralmente. Em meio às narrativas principais, o jogador irá se deparar com dezenas e dezenas de buscas sem sentido, disputas desconexas ou simples missões de entregas. Existem sequências formidáveis, como a que se refere a um grupo de rebeldes na ilha de Mikonos e suas reviravoltas, mas elas são pérolas perdidas em meio a um oceano de tarefas e eventos meramente burocráticos.

Se aproveitando do fato da protagonista ser uma mercenária, o jogo pouco se esforça para dar um contexto a estas missões, limitando-se a justificá-la através do pagamento de Dracmas (moeda que tem uso limitado no jogo e é fácil de acumular, reduzindo ainda mais o peso desta justificativa para todo o trabalho). Diversas vezes a interação com os personagens é genérica, para que a mesma linha de voz possa ser reutilizada em missões diferentes, quando não é propositalmente evasiva – como quando aceitei uma missão de resgate e ao perguntar quem deveria salvar, recebi como resposta: “não importa quem você salvará, mas sim a missão que ele deve cumprir”. Então, perguntei sobre a missão e “você não precisa saber qual era a missão, quanto menos pessoas souberem, melhor”.

Ainda no tema da falta de contexto, senti muita a ausência das pequenas histórias contadas em Origins através do cenário ou de documentos espalhados. Com exceção de um pequeno número de missões realmente interessante, o jogo falha em contar boas histórias além da protagonista.

Voando Perigosamente na Direção do Sol

Saindo de seu escopo principal, a Odisseia de Kassandra ou Alexos, Assassin’s Creed: Odyssey parece um campo experimental de novas mecânicas para a franquia. Desde os combates marítimos às escaramuças entre soldados de Atenas e Esparta pelo domínio de regiões no mapa, o jogo apresenta uma série de boas ideias, mesmo que com pequenos problemas na cola que as une.

Como a história se passa no arquipélago grego, viagens e combates marítimos ganham destaque similar ao que vimos quando a série mergulhou na pirataria em Black Flag. Em Odyssey o jogador poderá aprimorar seu barco e participar de uma série de batalhas em alto mar que, embora se tornem um pouco repetitivas no decorrer do jogo, são rápidas e divertidas (além de visualmente bonitas, quando o Egeu está revolto).

Além das batalhas marítimas, temos também os combates em larga escala. Cada região da Grécia é dominada por Atenas ou Esparta e o jogador pode minar este domínio destruindo suprimentos e estruturas, matando soldados ou assassinando líderes. Uma vez que enfraqueça o exército dominante, o jogador ganha acesso a uma batalha na qual ele pode escolher um lado e tentar garantir a vitória em uma escaramuça – que nada mais é que um combate normal envolvendo muitos personagens, porém com a vitória definida por duas barras na parte superior da tela. Cada soldado morto reduz um pouco a barra do exército e o primeiro lado a ter a barra reduzida a zero é derrotado. O lado vitorioso passa a dominar a região e o jogador pode simplesmente reiniciar o processo de destruição, em um ciclo infinito.

Não existe um “objetivo” propriamente dito nestas batalhas pelo domínio de uma região (salvo as raras ocasiões em que ela acontece dentro da narrativa), a não ser pela recompensa em equipamento e experiência para o jogador. Como mercenária, a protagonista não tem um lado, podendo até mesmo enfraquecer o exército dominante da região e depois ajudar o mesmo exército a se defender. O problema maior surge nos momentos da história em que ela está claramente apoiando algum dos lados do combate. Nestes momentos, nada impede o jogador de defender o lado oponente e depois seguir com suas missões para o lado derrotado como se nada tivesse acontecido.

Ambientado em um arquipélago, batalhas marítimas são parte do cotidiano em AC: Odyssey.

O jogo conta ainda com um sistema de mercenários: um ranking de guerreiros no qual o jogador pode subir para conquistar o topo. Uma barra de “criminalidade” é carregada sempre que a personagem é vista cometendo crimes – como roubar ou assassinar – fazendo com que mercenários sejam contratados para caçá-la. Vencer os mercenários – gerados de forma procedural – abre espaços no ranking para que a personagem rume em direção ao topo, em algo que lembra remotamente uma versão simplificada do Sistema Nêmesis de Middle-Earth: Shadows of Mordor.

O sistema funciona bem e se intromete pouco na história, gerando inclusive alguns momentos inesperados durante a sua aventura. Embora possa irritar alguns, existe uma certa diversão naquela sua invasão furtiva perfeita em um forte sendo frustrada pelo repentino combate entre três mercenários, um urso e duas galinhas.

Alvos na Parede

Preferi manter um tópico separado para uma mecânica (sim, ainda existem mais!) que mais me agradou no jogo – a caçada aos seus alvos de assassinato. Se passando antes de Origins, Odyssey não fala sobre Templários, mas conta com um grupo que a protagonista deve eliminar.

O grupo é apresentado ao jogador na forma de pequenas células – formadas por 5 membros – que se entrelaçam. Cada célula leva a um líder que, por sua vez, leva a pistas que apontam para a grande cabeça do grupo. Entretanto, a protagonista não sabe quem são ou onde estão estas pessoas, o que leva a um sistema de exploração e pistas que acrescenta bastante à franquia e espero ver repetida em outros títulos.

Alguns membros do grupo são revelados através da história, enquanto outros podem ser descobertos através de documentos encontrados ou mesmo explorando certas partes da Grécia. Cada membro descoberto passa a ser, então, marcado no mapa para que o jogados possa “visitáa-lo”.

A sensação de busca, exploração, descoberta e a forma como membros menores vão levando aos seus líderes através de pistas, documentos e relatos aumentam a sensação de interação do jogador – colocando-o como um agente não apenas no assassinato, mas no apontamento dos alvos.

Um Deus e uma Deusa na Mítica Grécia

Embora as mecânicas bebam de anos e anos de evolução da franquia Assassin’s Creed, são nos termos narrativos que Odyssey parece se distanciar ainda mais das raízes que lhe deram origem. Para um jogo que sempre tentou se inserir em contextos históricos reais, a aventura de Alexios e Kassandra nos leva para uma Grécia mítica de deuses e magia.

Isto não significa que o jogo reescreve suas origens ou simplesmente ignora sua fundação, mas ele se dá a certas liberdades. Nossos protagonistas descolam os pés do chão e flertam com poderes sobre-humanos, tornando-se imunes a quedas de qualquer altura, cavalgando montarias míticas ou praticamente se teleportando entre seus alvos.

A Guerra do Peloponeso é um plano de fundo constante, mas pouco mais que mero cenário.

A Grécia que vemos retratada exacerba seus traços mágicos e suas criaturas míticas em seus incríveis cenários. Paisagens deslumbrantes são pontuadas com esculturas magníficas e o sentimento idílico está presente em cada montanha e praia. Com uma dose de super-realismo, Odyssey retrata céus perfeitos e praias pacatas, com uma tecnologia de partículas para representar ondas quebrando que fazem o jogador parar para apreciar a cada visita.

Como se agarrasse ao Fio de Ariadne, Odyssey tenta se amarrar aos eventos de Origins através da história de Lydia, a ex-funcionária da Abstergo que agora vasculha o passado em sua própria versão “portátil” da Animus. Templários, Assassinos e Isu são mencionados, mas soam mais como uma menção obrigatória que acaba por reforçar o quão distante a aventura de Kassandra e Alexios está de toda a guerra entre Assassinos e Templários que veio depois deles.

No Fim, Uma Tragédia Grega?

Se fosse obrigado a dar uma opinião sobre Assassin’s Creed: Odyssey depois de 20 horas de jogo, é possível que minha opinião fosse muito diferente – e negativa. Preso à mentalidade de eliminar cada ponto de interrogação do mapa antes de passar para a próxima região, percebi que a história não progredia e que a maior parte deste tempo havia sido investida entre missões ruins, trabalhos burocráticos e a caçada automatizada por ? no mapa.

Atenas ou Esparta, de que lado você está?

Apenas quando eu me desliguei disto e passei a entender que a Grécia de Assassin’s Creed não é um destino em si, mas apenas um catalizador para a aventura de Kassandra/Alexios, um sandbox de proporções colossais e sistemas interligados que tem o jogador como centro de tudo, o jogo pareceu ter finalmente se conectado comigo. As ilhas estão ali para serem experimentadas e não como uma obrigação (sequer existe um Troféu/Conquista para premiar a resolução de todas as ? no mapa) e cabe ao jogador filtrar as aventuras que deseja viver.

Pelas próximas 60 horas ignorei, com facilidade e sem qualquer prejuízo para o jogo, tudo que me incomodava, como o sistema de batalhas pelo domínio de regiões ou o ranking de mercenários, desliguei-me completamente das missões procedurais oferecidas nas cidades ou dos ? espalhados pelo mapa e concentrei-me nos objetivos de Kassandra e nas principais aventuras paralelas (marcadas com !), geralmente envolvendo personagens famosos da época.

Foram dezenas de horas de aventura, relacionamentos românticos superficiais, diversão, exploração e assassinatos, muitos assassinatos. Comprei o objetivo e destino de Kassandra e a acompanhei até o fim de sua odisseia.

Como afirma uma personagem durante a aventura: “Não é isto uma recriação do Animus? Parte de uma simulação maior? As regras nos amarraram por tempo demais e é hora de novos rumos”. Com isto, Odyssey se convida a ir além de Assassinos vs. Templários, além das aventuras pé-no-chão e fatos históricos e inicia uma odisseia para ir além, para um destino idílico de areias brancas e ondas quebrando nas pedras… e sangue.

Pros:

  • Paisagens incríveis;
  • O personagem deve ser customizado, ao invés de simplesmente evoluído;
  • Narrativa principal envolvente;
  • Kassandra.

Contras:

  • Fácil de se sentir pressionado pela quantidade de eventos no mapa;
  • Mecânicas paralelas que não conversam com a narrativa;
  • Conteúdo adicional burocrático e pouco inspirado;
  • Alexios.

 

Assassin’s Creed: Odyssey está disponível para PC, Playstation 4 e Xbox One. Foi jogado no Playstation 4 Pro com uma cópia cedida pela Ubisoft para review.

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.