Playstation Review Xbox

Review: Red Dead Redemption 2 Dois mundos em conflito no novo western da Rockstar.

Decidir a melhor vestimenta para o clima, escovar seu cavalo e fazer carinho em seu pescoço antes de montá-lo, cavalgar em direção ao seu destino apreciando a maravilhosa paisagem construída com impossível esmero e dedicação pela gigantesca equipe da Rockstar. Momentos como estes fazem o jogador se perder naquilo que Red Dead Redemption 2 – a continuação do clássico de 2010 – tem de melhor: uma imersão na fantasia do velho oeste americano.

Esmero e imersão são as melhores definições para o título. Cada cantinho do mapa transborda o investimento de tempo e dedicação na construção daquele cenário. Cada personagem possui incríveis detalhes e cada uma de suas animações– algumas criadas para serem utilizadas uma única vez, em momentos muito específicos, do jogo – é executada com uma lentidão deliberada, como se o jogo deixasse claro que o jogador precisa saboreá-las com tranquilidade.

É impossível jogar Red Dead Redemption 2 sem mergulhar no Velho Oeste – sua placidez, lentidão e liberdade. E por isto o jogo soa conflitante quando ele precisa lidar com sua outra metade: todos os clichês e mecânicas de mundo aberto utilizados pela Rockstar desde Grand Theft Auto III.

O Choque Entre o Velho e o Novo

Red Dead Redemption 2 coloca o jogador na pele Arthur Morgan, um membro da gangue de Dutch Van der Linde – a mesma da qual John Marston foi membro e precisou caçá-la no primeiro jogo da série – e mais uma vez investe na temática do fim do Velho Oeste e o conflito entre estes dois mundos: a terra sem lei dos desbravadores e a chegada da civilidade.

Os diálogos com membros da gangue dão vida ao mundo de RDR2.

Embora conte com algumas soluções narrativas ruins (e uma barriga desnecessária na história, que só não a prejudica enormemente por ser um capítulo curto), a jornada é um dos pontos altos do jogo. A forma como a história transforma o protagonista é muito mais interessando do que vimos com Marston, apresentando um Arthur muito diferente entre o início e o final do jogo, sem que isto pareça forçado ou exagerado.

Roger Clark – ator por trás do protagonista – teve seu trabalho merecidamente reconhecido no The Game Awards de 2018. Com expressões faciais dignas de títulos como Uncharted, é impossível não se irritar, rir ou se emocionar na medida em que os eventos do jogo vão mudando a forma como o personagem enxerga seu papel naquele mundo.

Com uma equipe gigantesca (os créditos do jogo ultrapassam os 30 minutos de duração) e muito dinheiro para investir, a Rockstar colocou Red Dead Redemption 2 em um patamar técnico digno de jogos de escopo muito menor, com personagens e cenários externos e internos com detalhes que pareciam, até então, impossíveis em um título de mundo aberto.

Cada cantinho do jogo transborda o Velho Oeste e o faz parecer vivo. A primeira vez em que você chega em uma cidade e há pessoas construindo suas casas, o movimento no saloom e nas ruas, entra no armarinho e vê em detalhes as prateleiras cheias de produtos, pessoas fazendo suas compras e outras conversando em frente ao estabelecimento, tudo isto faz com que a experiência seja um mergulho naquele mundo.

O jogador pode cavalgar por longas distâncias e paisagens incríveis, entrar em casas cuja decoração por si só conta histórias, caçar uma quantidade impressionante de animais. Tudo isto pontuado de encontros “aleatórios” divertidos e interessantes, que quebram o ritmo da aventura. Uma sensação mágica de liberdade e imersão naquele mundo gigantesco, em uma grande simulação do oeste selvagem.

Os ambientes internos possuem um detalhamento superior ao que estamos habituados no gênero.

Entretanto, na medida em que se mergulha naquele mundo e mecânicas – em uma jornada que pode durar mais de 60 horas – o impressionante verniz deixado pelas horas de esforço da equipe de desenvolvimento começa a deixar transparecer que Red Dead Redemption 2 está, assim como seu protagonista, perdido entre dois mundos. Em um momento ele te promete um nível absurdo de simulação, forçando o jogador a pegar cada item ou saquear cada corpo em uma sequência interminável de longas e lentas animações, enquanto no outro ele abre mão disto em troca de uma aproximação mais gameficada, da mesma forma com que alterna entre promessas de liberdade com um enorme medo de deixar o jogador fazer o que quiser.

Uma Liberdade Vigiada

Para ou norte ou para o sul? Dormir ou tomar um banho antes? Vender o saque ou doar uma parte às reservas do acampamento do bando? Cuidar do seu cavalo? Ir caçar? Red Dead Redemption 2 apresenta ao jogador uma vasta gama de opções quanto ao que fazer entre as missões e encontro que levam sua história em frente.

Todos estes afazeres no jogo reforçam a sensação de vivenciar aquele mundo e são interessantes e ocasionalmente divertidos. Porém, com o passar do tempo, estas tarefas repetitivas começam a se tornar simplesmente empecilhos no ritmo e na medida em que o jogador percebe o quão pequeno (ou nulo) é o impacto que diversas delas têm no jogo, é quase automático passar a simplesmente ignorá-las.

A beleza da paisagem faz com que cavalgar seja um dos prazeres do jogo.

Na medida em que esta dose de mundo aberto e liberdade começa a ruir devido à falta de real consequência no jogo, os sistemas de Red Dead Redemption 2 passam a deixar claro o quanto temem a liberdade e o jogo se torna uma série interconectada de bolhas de linearidade que levam o jogador pelas mãos até o desfecho da história.

Cada missão (e até mesmo diversos dos encontros alternativos) existe em uma bolha isolada, na qual o jogador é pouco mais que um coadjuvante em sua própria história. Onde ir, por onde chegar, em que momento agir, qual caminho tomar, cada mínimo avanço do jogador está definido e qualquer desvio é punido com a tela de falha. O mini mapa se torna indispensável na medida em que o jogo diz para você se esconder ou se proteger, mas espera que isto seja feito exatamente sobre o ponto amarela que ele disponibilizou para tal.

Posso estar parecendo um pouco crítico ou exigente demais com o jogo, mas o fato é que este tipo de estrutura de missão em jogos de mundo aberto tem se tornado cada vez mais antiquado, um artefato histórico deixado para trás por títulos que vem inovando o gênero como The Witcher 3: Wild Hunt, Zelda: Breath of the Wild ou Assassin’s Creed: Origins.

Talvez fique mais claro com uma comparação direta. Em Assassin’s Creed: Odyssey (que joguei pouco antes de Red Dead Redemption 2), você é apresentado a uma missão na qual precisa recuperar um livro de medicina em um forte. A partir deste momento, o jogador possui uma ampla gama de opções para executar sua tarefa. Invadir o forte durante a noite, quando a maioria dos soldados estão dormindo; Utilizar uma caverna subterrânea para se infiltrar silenciosamente; Subir os muros e ir eliminando guarda por guarda; Um ataque direto pelo portão frontal. O desfecho da história sempre será o livro buscado, mas a forma como se chega até ele depende das escolhas do jogador.

Red Dead Redemption 2 apresenta uma missão similar, na qual o jogador deve resgatar um personagem em um forte. A partir do momento em que a missão se inicia (e jogo novamente se instancia em uma bolha isolada do “mundo aberto”), a infiltração do jogador é guiada passo a passo. Caminhe até este ponto, abaixe-se atrás deste muro, espere o guarda passar, siga em frente, suba o muro, mate o soldado da esquerda, suba as escada, atire na lanterna… um gigantesco roteiro de ações onde cabe ao jogador simplesmente seguir cada passo, sem qualquer direito ao improviso e sob o risco de precisar repetir a missão caso não esteja atento aos pontos amarelos que surgem em seu mapa.

Até mesmo os brilhantes encontros aleatórios do jogo, que muitas vezes conseguem nos impressionar e transmitir a ideia de que – de algum modo – aquele momento foi especial ao seu jogo, logo deixam suas mecânicas internas à mostra. Bolhas isoladas, novamente – impressionantes em sua qualidade, porém extremamente controladas pelas forças por trás do jogo.

Quem Nunca Atirou no Açougueiro Quando Queria Vender Carne?

Insistindo no tema do conflito entre dois mundos (algo que o Red Dead Redemption 2 faz constantemente, repetindo o bordão de que “não mais lugar para pessoas como nós” a cada chance). O primor técnico do jogo conflita com escolhas questionáveis de design.

O jogo não lida bem com tutoriais, enchendo a tela de mensagens enquanto a ação corre.

Os controles de Red Dead Redemption 2 são confusos, para dizer o mínimo. O botão para “focar” nos personagens para acessar as opções de diálogo é o mesmo que, caso você tenha esquecido de guardar sua arma, faz com que Arthur inicie um assalto ou tentativa de agressão. O botão para recarregar sua arma também faz com que o personagem chute quando ele está montado.

Muitas das cenas divertidas e imprevisíveis do jogo surgem destes problemas. Um assalto iniciado na hora errada. Um cavalo socado quando o jogador queria acariciá-lo. Entretanto, com o passar do tempo, tais erros viram apenas um estorvo e estas escolhas ruins deixam de ser divertidas quando você quer simplesmente entrar na cidade e pegar sua recompensa, mas tudo vai por água a baixo porque um pressionar de botão errado faz você atirar no xerife, iniciando uma perseguição que exigirá tempo e uma série de ações para ser corrigida.

O sistema de foco e botões contextuais é outra questão a ser destacada. Embora o sistema funcione nas poucas situações em que o jogador pode fazer uma escolha, na grande maioria das vezes ele limita-se a “cumprimentar” ou “hostilizar”, cuja consequência é a mesma de, respectivamente, não fazer nada ou socar um NPC. Se o jogo tivesse um botão de cumprimentar (como havia no primeiro jogo da série), todas as outras ações disponíveis por padrão (hostilizar e assaltar) poderiam ser iniciadas simplesmente através do ato do personagem (apontar a arma ou agredir), fazendo com que o menu contextual vire apenas mais uma barreira na interação com o jogo.

A Saddie até tentou, mas acho que só eu trabalho neste acampamento.

A situação se agrava na medida em que fica claro que muitos sistemas do jogo não se conversam (voltamos à questão das “bolhas”, citada anteriormente). Em determinada situação, impedi um assalto e consegui amarrar o assaltante. Logo, imaginei que poderia levá-lo para a delegacia. Para minha surpresa, tão logo comecei a caminhar com o bandido amarrado, fui acusado de sequestro e perseguido pela polícia (um deles, presente no momento em que impedi o assalto). Resultado, perseguição, sair da cidade, pagar recompensa, tempo de jogo perdido e recado dado: os sistemas do jogo não lidam bem com qualquer coisa que ele não tenha deixado muito claro que você possa ou deva fazer.

Bang! Bang! You shoot me down!

Embora também seja um sistema do jogo, acredito que as mecânicas de tiro mereçam um tópico separado, afinal estamos falando de um jogo sobre o Velho Oeste e tiroteios são parte da mítica desta época e certamente receberam uma dedicação especial da equipe de desenvolvimento, garantindo que fosse perfeito, prazeroso e recompensador…. pois então, não.

Você irá atirar em Red Dead Redemption 2, vai atirar muito. A Rockstar fez questão de que praticamente todas as missões, mesmo aquelas que não precisariam cair na ação, terminem em algum tipo de tiroteio, muitas vezes extenso ao limite. Todavia, você irá fazer isto com uma mira extremamente flutuante, imprecisa e pouco responsiva e um sistema de cobertura temperamental.

O jogo conta com algumas setpieces divertidas e emocionantes, como tiroteios em trens ou no meio de áreas em chamas. Mas na maior parte do tempo eles não passam de uma galeria de tiro pouco inspirada, onde a frustração só é mantida sob controle devido ao fato do jogo ser fácil, incrivelmente fácil.

A dificuldade baixa ajuda a minimizar os problemas mecânicos durante tiroteios.

No Velho Oeste de Red Dead Redemption 2, mortes por tiro são raríssimas. Você irá cair com seu cavalo de um barranco, ser atropelado por um trem ou falhar por simplesmente não seguir corretamente as instruções exigidas pela missão, mas mantenha-se em cobertura e faça uso dos abundantes itens para se curar e recuperar o “Olho da Morte” (que permitem que o jogador desacelere o tempo e mire em vários oponentes) e as centenas de pistoleiros oferecerão pouco mais que um contratempo em sua jornada.

Uma Longa Jornada, em que Muitos Ficarão pelo Caminho

Vamos lá! Red Dead Redemption 2 é um jogo incrível, apesar de tudo que mencionei até então. É difícil falar sobre suas qualidades sem dar spoilers ou sem cair no óbvio de mostrar aquilo que você pode ver melhor em vídeos ou imagens.

Seus gráficos são primorosos e o mundo criado pela Rockstar eleva o patamar técnico em jogos de mundo aberto, conferindo ao gênero um nível de detalhe – seja em ambientes externos ou internos – que acreditávamos estar limitados a jogos muito mais lineares. Sua narrativa, embora caia em alguns problemas como repetição excessiva de temas ou alguns desfechos desconexos, vai manter o jogador interessado do começo ao fim do jogo e a jornada de crescimento de Arthur é bastante superior ao que vimos com John Marston no primeiro jogo. A trilha sonora pontua muito bem os momentos do jogo e as faixas cantadas se conectam com as cenas em que elas são tocadas de uma forma incrível, ampliando em muito o impacto emocional.

Os efeitos de iluminação e atmosféricos são um espetáculo do qual é impossível se cansar.

Porém, para aproveitar de toda esta qualidade técnica, Red Dead Redemption 2 exige algumas coisas do jogador.

Primeiramente, é necessário abraçar o “role playing”, divertindo-se com a ideia de acampar na estrada, tomar um banho e jantar antes de dormir, cuidar do seu cabelo ou escovar o seu cavalo, não porque isto vá mudar os atributos do personagem ou criar alguma penalidade ou bonificação, mas sim por querer participar daquela grande simulação de Velho Oeste.

Em segundo lugar, o jogo espera que você não foque demais nas mecânicas dele. Red Dead Redemption 2 falha em entregar o jogo orgânico ao qual ele parece se predispor e tentar entender as engrenagens que empurram este trem só faz com que isto fique mais evidente. Tente se divertir com os problemas de controle e entenda que saquear corpo por corpo atrás de centavos após um tiroteio é uma tarefa entediante. Acima de tudo, aceite que Arthur Morgan é o protagonista desta história e nos filmes de bang bang os vilões são sempre ruins de mira.

Finalmente, esta é uma jornada longa e cansativa, feita no lombo do cavalo e nos rigores do tempo. Sua aventura pode facilmente passar das 60 ou 70 horas de jogo, muitas das quais passadas sobre o cavalo, simplesmente viajando e observando a paisagem ou fazendo tarefas simples. Red Dead Redemption 2 não é para ser jogado com pressa, mas sim saboreado. Assim como uma grande viagem, ele é sobre o caminho e não sobre o destino. Muitos ficarão pelo trajeto ou buscarão o conforto, mas aqueles que seguirem firmes pela estrada serão recompensados com um incrível pôr-do-sol.

Red Dead Redemption 2 está disponível para Playstation 4 e Xbox One. O review foi feito com base na versão jogada no Playstation 4 Pro, adquirida com recursos próprios.

 

PRÓS:

  • Gráficos incríveis
  • Personagens e história cativante
  • Surpresas com os encontros “aleatórios”
  • Mundo grande e detalhado

CONTRAS:

  • Mecânica de tiro ruim
  • Decisões questionáveis de design
  • Muitos sistemas têm pouco impacto no jogo
  • Pouca liberdade para o jogador nas missões

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.