Opinião PC Playstation Review Xbox

Seja o Comandante do seu Baralho em Thronebreaker: The Witcher Tales

Nilfgard inicia sua segunda invasão aos Reinos do Norte e cabe à Rainha Meve de Líria e Rívia reunir seus exércitos e combater as forças que ameaçam suas fronteiras em épicas batalhas de Gwent. É com esta premissa que a CD Projekt Red dá aos jogadores uma chance de entrarem no novo universo do Gwent em batalhas single player e uma narrativa épica.

Se você experimentou Gwent – o jogo de cartas que surgiu dentro do incrível The Witcher 3: Wild Hunt – apenas no jogo principal, saiba que a versão multiplayer dele já apresentava diversas mudanças, ainda que mantivesse a essência do original. Thronebreaker: The Witcher Tales, por sua vez, inaugura um novo momento para a série Gwent, apresentando um jogo novo com mudanças profundas em seus sistemas, que também foram aplicadas na versão competitiva.

Um Novo Gwent

Ao invés de 3 linhas, o campo de batalha agora é dividido em apenas duas e suas unidades não são mais forçadas a um posicionamento específico. O posicionamento das suas cartas tornou-se mais importante, não apenas quanto à linha onde elas são colocadas, mas também de acordo com as cartas adjacentes a elas. O poder numérico das cartas ainda importa, mas os combates são decididos principalmente pelos efeitos gerados por suas possíveis combinações. O número de cartas que o jogador saca a cada rodada também aumentou, fazendo com que seu baralho gire mais e permitindo que as combinações ocorram com mais frequência.

O tabuleiro de Gwent agora conta com duas linhas por jogador, ao invés de três.

Mas o núcleo do jogo permanece, a construção do seu baralho ainda é vital para sua vitória – que se dá através da conquista de mais pontos de poder que o seu oponente em duas das três rodadas de jogo, o que mantém a dinamicidade e velocidade de cada partida de Gwent.

Mas a principal diferença entre Thronebreaker e o Gwent competitivo está naquilo que acontece entre as partidas.

Entre os Duelos, Uma Rainha Viajando pelo Continente

Durante uma grande parcela do tempo o jogador estará controlando a personagem Meve, Rainha de Líria e Rívia, em diversos mapas disponíveis no jogo. A beleza dos mapas chama a atenção, cheios de elementos em movimento e efeitos de paralaxe que oferecem vistas incríveis da paisagem. Embora tenham um ponto de início e fim bem definidos (o avanço entre os mapas é definido pela história e o jogador não pode retornar aos mapas depois de avançar), cada cenário oferece uma série de rotas alternativas que levam o jogador a descobertas, quebra-cabeças ou recursos que podem ser usados para melhorar seu baralho, seja na forma de matéria prima ou novas cartas (inclusive, cartas e itens que podem ser utilizadas na versão competitiva de Gwent).

A viagem pelo mapa é repleta de diálogos e encontros, sempre descritos por um narrador (acompanhado pelo texto – ambos muito bem dublados em português) e oferecendo escolhas ao jogador que podem ter impacto imediato (na forma de bônus ou penalidades em recursos) ou prolongado, afetando a história do jogo.

A história mais uma vez é o ponto alto do trabalho da CD Projekt Red. Os eventos em Thronebreaker se passam durante a Segunda Invasão de Nilfgard, anteriores até mesmo ao primeiro jogo da série. Embora não seja necessário para aproveitar a história, leitores da saga conseguirão captar os momentos em que a narrativa do jogo cruza com a dos livros.

Mesmo com o visual isométrico, efeitos de paralaxe são usados para criar vistas incríveis.

A saga de Meve para expulsar os nilfgardianos de seu reino é repleta de momentos engraçados, curiosos, assustadores e dramáticos. A narração, somada às vozes dos personagens durante os diálogos, faz um ótimo trabalho em transmitir ao jogador estas emoções. Entretanto, Thronebreaker é um jogo relativamente longo, oferecendo algumas dezenas de horas para quem quiser explorá-lo ao máximo, e é inevitável que a forma como a história é contada comece a ficar cansativa, tornando o botão que revela todo o texto e pula a narração cada vez mais atraente.

Mesmo assim – e principalmente para fãs da série – é maravilhoso viajar pelos reinos e ver cenários e personagens que pouco foram aproveitados nos jogos, como a Mahakam dos anões ou dialogar com gnomos.

Durante suas viagens, Meve também precisa gerenciar seu exército – o que se traduz como gerenciamento do seu baralho. O jogador precisa investir os recursos encontrados durante a exploração (madeira, dinheiro e recrutas) para obter novas cartas ou melhorias para seu baralho. Tornando a história do jogo ainda mais interesse, suas escolhas também podem influenciar seu baralho, não apenas exigindo o gasto ou fornecendo recompensas em formas de recursos, como até mesmo fazendo com que cartas especiais saiam ou entrem no baralho. Desagrade um aliado e veja ele abandonar a rainha enquanto sua carta é rasgada na tela, negocie com mercenários e veja seu baralho crescer com novas unidades exclusivas.

Faço uma crítica aqui à tela de gerenciamento do jogo. Primeiramente, por ela ter um atraso de alguns segundos sempre que você acessa o acampamento da rainha (a tela do acampamento abre-se rapidamente, mas o cursor fica irresponsivo por alguns segundos. Em segundo lugar, os controles na tela de cartas são um pouco confusos e diversas vezes me peguei sem entender porque o cursor saltava direto para a barra lateral, ao invés de para a carta ao lado, quando eu dava o comando. Fora estas questões, ela é bastante funcional no gerenciamento do seu baralho e as informações estão dispostas de forma direta e fácil de entender.

Mas toda esta exploração e narração são apenas a cobertura, pois o grande recheio de Thronebreaker: The Witcher Tales está na forma como disputas são resolvidas.

Batalhas, Disputas e Quebra-cabeças

A vida de uma rainha no continente é repleta de conflitos resolvidos na forma de duelos de Gwent. Para isto, o título oferece três tipos diferentes de partidas: batalhas completas, rápidas ou quebra-cabeças.

As batalhas completas são os duelos clássicos de Gwent, vencidos por aquele que superar o oponente em 2 de três rodadas, enquanto as rápidas são definidas em apenas uma única rodado, permitindo que o jogador dê tudo de seu baralho sem se preocupar com guardar forças para as rodadas seguintes. Estes duelos geralmente colocam seu baralho de guerra contra o oponente, mas em diversas situações eles podem oferecer um batalho pré-montado ao jogador ou ainda regras especiais de vitória, exigindo que o jogador elimine uma carta específica ou não permita que alguma de suas cartas deixe o tabuleiro.

O jogo se divide entre batalhas tradicionais, rápidas e quebra-cabeças.

A maioria destas batalhas oferece um nível mediano ou baixo de dificuldade. Entretanto, algo que me chamou muito a atenção foi uma curva assombrosa de dificuldade na etapa final do jogo. Em questão de minutos de jogo, passei de batalhas que eu vencia com folga para um combate específico em que fui derrotado diversas vezes. Embora a dificuldade em si não fosse um problema (acho que, inclusive, o jogo poderia oferecer um desafio um pouco mais alto no seu decorrer), ela me soou artificial e desnecessariamente punitiva. Neste combate específico o oponente possui habilidades que “quebram” as regras do jogo, como um baralho praticamente infinito e unidades que não podem ser derrotadas, fazendo com que a única estratégia possível seja reunir o máximo de força possível – descartando todo o foco em combinações tão enfatizado durante o jogo.

Quando derrotei este oponente, a sensação não foi de ter vencido um desafio árduo e ficar orgulhoso com a minha estratégia. Ao invés disto, foi como ter derrotado um oponente que trapaceia e – para isto – me valido de um combo de 2 cartas repetido à exaustão, resultando em uma batalha monótona e vazia, tão diferente de todos os outros desafios do jogo.

Todos os textos e vozes do jogo estão muito bem traduzidos para português.

Para não ser injusto, fui pesquisar na internet sobre este combate específico e percebi que muitos jogadores também reclamam dele (e usam estratégias similares para vencê-lo). Então, pode não ter sido uma experiência exclusivamente minha.

O terceiro tipo de partida de Gwent são os quebra-cabeças, nos quais o jogo lhe dá um tabuleiro previamente preenchido, uma mão de cartas específica e uma tarefa a ser executada. A CD Projekt Red se esforçou em criar uma variedade bastante de “mini-jogos”, todos dentro do tabuleiro e mecânicas do Gwent. Os desafios vão desde os mais simples, como derrotar um número de inimigos todos ao mesmo tempo, até coisas mais complexas, como alinhar runas, alimentar um troll com comidas que tenham cheiro similar ao das suas unidades ou até mesmo um jogo de furtividade no qual é preciso levar uma carta de um ponto ao outro do tabuleiro sem que seja “vista” pelas unidades inimigas.

Nestas tarefas, é importante entender bem as habilidades das suas cartas e das unidades no tabuleiro e traçar a ordem em que você precisa agir para cumprir com o objetivo. A repetição será inevitável, mas a previsibilidade faz com que cada repetição te deixe mais perto da sucesso. Para quem curte desafios de lógicas e, ocasionalmente, matemática, os quebra-cabeças de Thronebreaker ficam progressivamente mais difíceis e exigentes.

Para Velhos Amigos e Novos Convidados

Thronebreaker: The Witcher Tales é indispensável para fãs da série The Witcher, seja nos jogos ou nos livros. Se você deixou a Ciri de lado em Wild Hunt para investir horas e horas no jogo de cartas, a aventura de Meve oferece batalhas mais profundas e estratégicas – que vão muito além de simplesmente ter as cartas mais poderosas.

Para aqueles que acompanharam Geralt de Rívia por causa da narrativa e das histórias, o jogo oferece uma saga bem temperada com drama, aventura e momentos divertidos. Tudo o que torna interessante o universo criado por Sapkowski está presente, como os personagens interessantes, monstros curiosos, situações inusitadas, conflitos raciais e o impacto da guerra.

Suas escolhas podem ter impacto imediato ou a longo prazo.

Mas se você nunca jogou ou leu nada da série, Thronebreaker ainda oferece uma boa introdução ao cardgame Gwent, sem a pressão de enfrentar outros jogadores sem os conhecimentos necessários. Nele você aprenderá as regras do jogo, entenderá melhor como as cartas se combinam e poderá se preparar – caso deseje – para a sua versão competitiva (disponível gratuitamente para PC, Playstation 4 e Xbox One).

O principal ponto negativo de Thronebreaker pode ser sua duração e o fato do jogo começar a perder sua novidade e sensação de desafio na medida em que você se aproxima do final da história. Caso você queira explorar bem o cenário, sua aventura pode ter algumas dezenas de horas e você pode se pegar pulando diálogos ou enfrentando combates fáceis de forma burocrática. Porém, caso isto aconteça, você sempre pode seguir avançando no jogo e ignorando o conteúdo adicional – afinal, a Rainha Meve tem um reino para salvar.

Thronebreaker: The Witcher Tales está disponível para Playstation 4, Xbox One e PC. O título foi jogado no Playstation 4 Pro com cópia cedida gentilmente pela CD Projekt Red.

PRÓS:

  • Um retorno ao universo de The Witcher
  • História cativante
  • Combates e quebra-cabeças interessantes

CONTRAS:

  • O interesse vai desgastando com a longa duração
  • Problemas de interface no gerenciamento do baralho

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.