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O Apocalipse Cor de Rosa de Far Cry: New Dawn

Cada vez mais, parece que a tendência de desmembrar certas franquias em títulos mais curtos – e, por consequência, mais baratos – veio para ficar. A série Uncharted lançou mão deste conceito com o excelente The Lost Legacy, assim como Dishonored o fez com Death of the Outsider, reutilizando assets e engines em um título de escopo menor, mas que aproveita para explorar novas direções nas quais as franquias possam seguir.

Far Cry: New Dawn chega como um experimento similar. Pairando sobre a área que existe entre um novo jogo completo e um DLC, o título aproveita a narrativa e uma boa parte do mapa de Far Cry 5 para explorar os eventos após o final do jogo. Então, cuidado ao seguir sua jornada daqui para frente, pois spoilers do final de Far Cry 5 serão inevitáveis.

Far Cry é uma franquia que encontrou sua identidade no terceiro jogo da série, quando Jason Brody e seus amigos chegam à ilha dominada por um vilão que todos adoram esquecer, sempre à sombra de seu mais famoso capanga, o surpreendente Vaas Montenegro. Far Cry 3 definiu os elementos que amarrariam todos os próximos títulos. Desde então, os jogos da série são conectados por seu estilo narrativo e mecânico característico, e não por uma continuidade de história ou ambientação.

Apostando no conceito de tabula rasa, New Dawn traz um protagonista genérico.

New Dawn quebra este formato, sendo a primeira sequência direta de um jogo da série. Ambientado dezessete anos depois da explosão que encerra o conflito com o messiânico Joseph Seed, o título leva o jogador a uma nova visita a Hope County, explorando as consequências daqueles eventos.

A Nova Hope County

Embora utilize a estrutura do mapa do jogo anterior, a Hope County de New Dawn mostra-se reinterpretada em decorrência do apocalipse profetizado por Joseph Seed. Locais e regiões importantes agora são ruínas ou se tornaram fortalezas de saqueadores.

Todavia, se você espera um apocalipse ao estilo Mad Max, com vastidões desérticas e inóspitas, New Dawn oferece exatamente o contrário. Em dezessete anos a natureza retomou a região e a transformou em paisagens idílicas e repleta de flores. O fim do mundo de Far Cry não é áspero e marrom, mas sim vivo e cor-de-rosa.

Diferente de outro jogos no mesmo tema, a paleta de cores traz rosas e cianos intensos.

Isto mesmo, seguindo tendências modernas de paletas de cores, os verdes e azuis da natureza de Hope County são quebrados por intensos tons de ciano e rosa e um estilo visual meio “punk”. Como resultado – e graças ao belo e impressionante motor gráfico Dunia – New Dawn cria um contraste intenso entre a exuberante natureza, os restos de civilização e a violência de seus habitantes, uma metáfora que reforça os conflitos enfrentados pelo jogador.

Um pouco mais de Far Cry

Se por um lado New Dawn inova oferecendo uma sequência direta, por outro ele entrega apenas mais Far Cry. O caos, as armas, os veículos e os oponentes, nada no título vai surpreender o jogador (com exceção, talvez, ao novo lançador de serras, que além de furtivo, permite que você atinja inimigos rebatendo os projéteis contra paredes). Embora flerte com alguns elementos de RPG, como os inimigos terem níveis que alteram a quantidade de dano que eles recebem ou causam, o jogo não explora novas mecânicas ou formas de jogar.

Se isto é um defeito ou qualidade, depende do quanto você gosta da série e o quanto gostaria de jogar mais Far Cry. Embora tenha um escopo narrativo limitado – utilizando apenas parte do mapa do Hope County e entregando uma história mais curta – New Dawn faz o possível para entreter o jogador e reutilizar ao máximo cada uma de suas partes.

Lembra das bases de Far Cry 5? Em New Dawn você pode trocar a posse de uma base por uma recompensa instantânea, permitindo que ela seja novamente tomada por seus inimigos e transformada em um novo desafio com nível de dificuldade superior. O piloto Roger Cadoret pode lhe levar para missões alternativas fora de Hope County – uma grata variação no cenário do jogo – não apenas uma, mas várias vezes e com níveis de dificuldade progressivos. Como resultado, a maioria dos desafios de New Dawn pode ser enfrentada múltiplas vezes, em troca de recompensas maiores, expandindo – mesmo que de forma repetitiva – o conteúdo oferecido ao jogador.

Cada companheiro tem habilidades específicas, como Timber, que fareja e marca inimigos e itens no cenário.

Mecânicas já conhecidas fazem seu retorno com diminutas modificações. Novamente, é possível conquistar a ajuda de aliados que o acompanham nas missões e oferecem capacidades diferentes. Pontos de habilidade, conquistados ao cumprir determinado desafios ou recolher as revistas em áreas “secretas”, são utilizado para desbloquear recursos como maiores reservas de munição ou a capacidade de matar furtivamente inimigos de níveis mais altos.

Diferentemente dos oponentes, o protagonista de New Dawn não possui níveis. Este avanço é reservado às armas ou ao acesso de algumas habilidades específicas. Mas a mecânica já é suficiente para criar um ciclo de jogo que controla o avanço do jogador, tornando progressivamente mais difícil enfrentar os oponentes de níveis elevados sem que você possua os equipamentos e habilidades corretas.

Todos estes avanços estão ligados ao principal elemento diferenciativo de New Dawn: Prosperity. A cidade de sobreviventes fundada por Nick e Kim Rye (você lembrará deles do jogo anterior) funciona como uma base central para o jogador e seu avanço depende da evolução das estruturas dela. Através do resgate de personagens chave e do investimento de Etanol, um recurso conquistado através do domínio de bases e veículos inimigos, o jogador pode aprimorar estruturas como o laboratório de explosivos (que permite construir explosivos mais poderosos), a oficina de armas (que dá acesso a equipamentos de níveis maiores) ou a clínica médica (que aumenta o nível de saúde do protagonista).

O Conforto do Lugar Conhecido

Embora se esforce para atender aos jogadores que não jogaram Far Cry 5 – inclusive com um novo protagonista – New Dawn é muito mais interessante para aqueles que estiveram na luta contra Joseph Seed e seu grupo de edenetes.

O laço com Carmina, filha de Nick Rye, é muito maior para aqueles que dirigiram em alta velocidade para que a esposa do piloto chegasse no hospital a tempo de dar a luz. O reencontro com alguns personagens e alguns lugares de Hope County certamente trará ao jogador memórias de sua aventura anterior.

A base em Prosperity é uma das principais novidades do jogo e está atrelada à evolução do personagem.

Mas ainda assim, fica-me a sensação de que New Dawn é uma continuação desnecessárias, para um jogo cujo seu melhor momento havia sido a ambiguidade de seu final. Ao tentar preencher a lacuna deixada, narrando as consequências daqueles eventos não apenas para Hope County, como também para seus habitantes, ao mesmo tempo em que tenta repetir certos temas já explorados em outros jogos da série, New Dawn enfraquece o questionador vazio deixado ao final da saga de Far Cry 5 que tornava ensurdecedor os ecos de suas bombas .

Para fãs de Far Cry, a sequência é uma boa chance de ter mais jogo, mais bases para tomar, animais para caçar e lugares para explorar – visto que seu brilho certamente não está na forma como ele continua a história de seu antecessor. Para jogadores novatos na franquia, certamente há pontos de partida mais interessante, inclusive o próprio Far Cry 5.

Prós:

  • Ação caótica e divertida, típica da série;
  • Paisagens diferentes do esperado em um jogo “pós-apocalíptico”;
  • Um jogo curto para quem quiser ir direto ao fim, mas com uma boa dose de conteúdo opcional.

Contras:

  • Arrisca pouco em inovar a série;
  • Reduz o impacto causado pela ambiguidade do final de Far Cry 5;
  • Bem sucedido no humor, tem dificuldade em acertar o tom em seus momentos mais dramáticos.

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.