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Derrota e Vitória em Sekiro: Shadows Die Twice

Quanto de um jogo você precisa preservar ou renovar para que ele pareça algo fresco, porém ainda conectado com seu antecessor? Em Sekiro: Shadows Die Twice, a From Software faz um novo distanciamento da sua clássica série Souls, dando uma nova personalidade ao título, mas sem perder o DNA que marca seus jogos.

O título coloca o jogador na pele de Sekiro, um shinobi adotado quando criança e que se tornou o guarda-costas de Kuro, o herdeiro divino cujo sangue oferece a imortalidade. O nome Sekiro significa “lobo de um braço só”, uma referência ao fato do personagem não ter um dos braços, substituído por uma prótese que permite que ele utilize uma variedade de equipamentos.

Uma nova perspectiva do modelo ‘Soulsborne’

Ao lançar Bloodborne, a desenvolvedora From Software já mostrava seu domínio sobre quais elementos imprimiam seu DNA ao jogo. Fatores como a dificuldade punitiva, que torna as vitórias recompensadoras, e os pontos de checagem onde descansar significa trazer de volta todos os inimigos já mortos (com exceção de chefes e mini chefes) eram preservados, enquanto o combate ganhava um estilo mais agressivo e ágil, fazendo de Bloodborne um jogo novo e fresco, porém com a ‘cara’ da empresa.

Este domínio de sua identidade repete-se em Sekiro, que preserva a dificuldade e os pontos de checagem, mas troca o combate por uma dança estratégica com foco no ‘parry’, ou deflexão do golpe do oponente, executado pressionando-se o botão de defesa no momento exato do impacto.

Sekiro é repleto de paisagens que evocam o místico Japão feudal.

Mas o que poderia ser uma mecânica monótona ganha complexidade na medida em que novos elementos são adicionados. Alguns golpes não podem ser defletidos, exigindo que o jogador pule ou execute uma esquiva especial na qual o personagem pisa sobre a arma do oponente, dependendo da direção do movimento. Além disto, nem toda batalha é uma luta para esvaziar a vida do inimigo.

Todo personagem de Sekiro possui uma barra de postura, além do seu medidor de vida. Cada golpe defletido, ou cada vez que o inimigo defende um golpe seu, faz com que esta barra seja enchida. Quando a barra de postura fica totalmente cheia, o oponente tem a postura quebrada e fica vulnerável a um golpe mortal. Isto faz com que certos inimigos possam ser vencidos não esgotando sua vida, mas forçando-o a se defender ou aparando seus golpes até que sua postura seja quebrada, imprimindo uma nova estratégia no combate.

Somado aos variados tipos de equipamentos (lanças, estalinhos, machados, lança-chamas e diversos outros) que o protagonista pode ter em seu braço e os golpes especiais que você pode habilitar, parte da mística do jogo está em identificar qual é a melhor estratégia para vencer o oponente. Ser agressivo e forçá-lo a se defender até quebrar sua postura, lutar metodicamente para esvaziar sua vida aos poucos até derrotá-lo ou então defletir seus golpes até que ele fique vulnerável?

Para isto, como em todo jogo da From Software, você vai morrer – vai morrer MUITO – mas sempre com a sensação de chegar mais perto do seu objetivo a cada nova tentativa. Todo inimigo no jogo possui um padrão de ataque. Um golpe A é emendado por um movimento B, um determinado combo atinge seu personagem sempre com a mesma sequência de movimentos e diversos golpes são ‘telegrafados’ por preparações longas e exageradas.

Aprender estes padrões é fundamental para o sucesso no jogo. Com atenção aos detalhes, Sekiro se torna um jogo de ritmo e com o tempo as defesas se tornam naturais como um compasso musical. Aparar, aparar, aparar, esperar um instante, aparar duas vezes rapidamente, se o inimigo preparar um golpe de ponta, esquiva… se iniciar um movimento circular, pulo. Como uma dança, ditada pelo ritmo do seu parceiro.

Um portal de entrada para quem tem medo da série Souls

Embora preserve a alta dificuldade e jogabilidade punitiva que é característica da desenvolvedora, Sekiro desponta – talvez por influência da Activision, publicadora do título – como um dos jogos mais acessíveis da From Software, reduzindo bastante a curva de aprendizado apresentada em Dark Souls ou Bloodborne e tornando este jogo um dos melhores pontos de inserção para novos jogadores nos jogos da empresa.

Diferente dos jogos anteriores, a história do lobo de um braço acontece diante do jogador, em diálogos menos enigmáticos e cenas de corte, ao invés de espalhada em fragmentos crípticos de conhecimento nas descrições dos itens do jogo.

Sekiro também abre mão dos elementos complexos de RPG, como classes diferentes de personagem durante a criação ou atributos a serem comprados com almas/pontos de experiência. Diferentemente de Dark Souls ou Bloodborne, onde era possível investir horas de jogo só para descobrir que você tomou várias decisões erradas ao evoluir seu personagem, o protagonista de Sekiro evolui de forma muito mais linear, reduzindo a quantidade de subsistemas e o emaranhado relacionamento entre os atributos que o jogador precisava dominar nos títulos anteriores.

Vitórias são sempre um misto de comemoração, sensação de sucesso e alívio.

Como consequência, é muito provável que os jogadores avancem no jogo com versões muito similares dos personagens, com os mesmos equipamentos e uma gama muito semelhante de habilidades. Entretanto, isto não torna o título mais fácil que seus antecessores, apenas reduz a frustração inicial de não entender a criação e evolução do personagem ou precisar recomeçar o jogo por ter feito muitas escolhas equivocadas.

Adicionalmente, Sekiro tem algumas escolhas que melhoram em muito a qualidade de vida do jogador. O sistema de ressurreição ajuda a mitigar a dificuldade do jogo (embora, obviamente, ela seja considerada no equilíbrio), principalmente minimizando mortes bobas para inimigos menores e a vasta maioria dos chefes conta com pontos de verificação logo antes do combate, fazendo com que uma nova batalha possa ser iniciada logo após uma derrota.

O Estilo Shinobi

Outro diferencial de Sekiro está na movimentação do personagem. O lobo de um braço só é um guerreiro ágil e versátil. Seu braço conta com uma prótese que permite disparar ganchos, conferindo ao deslocamento uma verticalidade que afeta fortemente a navegação e fazendo com que para cima e para baixo sejam direções a serem exploradas constantemente.

O shinobi conta ainda com opções de furtividade, podendo andar em silêncio, se esconder na vegetação alta e assassinar inimigos com um único golpe. Embora a mecânica não seja tão completa, ela permite que vários encontros sejam resolvidos sem combate e até mesmo alguns chefes podem ser ‘amaciados’ por um golpe furtivo antes da luta começar.

Um Velho Guerreiro no Mundo de Sekiro

Comecei Sekiro preocupado com o tempo que poderia dedicar ao título. Entre trabalho e família (e necessários momentos de descanso), o tempo para os jogos tem ficado cada vez mais limitado a poucas horas em alguns dias da semana. O título exige dedicação para aprender os padrões dos inimigos, explorar o mundo e ocasionalmente garimpar itens, dinheiro e experiência. Como estas duas rotinas se encaixam?

Para curtir o jogo você precisa entender suas características e saber que partidas homeopáticas podem levar a pouco ou nenhum avanço na história. Em uma das ocasiões passei três dias dividido (e sendo derrotado) entre dois chefes, até finalmente conseguir derrotá-los.

Este é um dos grandes momentos de Sekiro, a sensação da vitória e a forma como a sua dificuldade é honesta e faz sentido. Cada morte deixa claro exatamente onde você está falhando e executar a estratégia correta – ser mais agressivo, focar no defletir, fugir do seu oponente – faz o combate simplesmente ‘clicar’ em sua mente e a vitória acontecer.

O jogo conta com cenários menos claustrofóbicos, mais amplos e verticais.

Em certa ocasião, já tarde da noite, derrotei um gorila gigante – chefe que vinha impedindo meu avanço há alguns dias. Após vencê-lo, resolvi me deslocar até o ponto de checagem mais próximo do meu destino seguinte antes de desligar o console e ir dormir. Próximo ao ponto de verificação estava um mini chefe que já havia chutado minha bunda uma série de vezes e eu resolvi tentar um embate.

Em todas as outras ocasiões, eu fui derrotado por sua lâmina fantasmagórica rapidamente, sem tirar mais de uns 10% de sua primeira barra de vida ou ameaçar sua postura – então eu sabia que seria uma derrota rápida, só para me despedir do jogo naquela noite. Para minha surpresa, os padrões do inimigo simplesmente brilharam com imensa clareza em minha mente. Aparo, aparo, aparo, pulo, chuto ela – e vou identificando seus padrões até quebrar sua postura, não apenas uma, mas duas vezes, e derrotá-la.

Comemoro, espantando meu cachorro e meus gatos do sofá. Desligo o console e vou dormir com aquela sensação incrível de vitória na mente. Encontrei novas derrotas até o final do jogo, mas sempre certo de que cedo ou tarde a música daquele inimigo faria sentido para mim e eu descobriria seu ritmo, dançaria sua canção e o derrotaria.

Isto é Sekiro: Shadows Die Twice.

Sekiro: Shadows Dia Twice está disponível para PC, Playstation 4 e Xbox One. O título foi experimentado no Playstation 4 Pro com uma cópia gentilmente cedida pela Activision.

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.