Playstation Review

O Zen e a Arte de Matar Zumbis em Days Gone

Cowboys montados em dinossauros com arma lasers. Ninjas duelando piratas em alto mar. Foi deste tipo de mashup quase infantil que a Bend Studios – desenvolvedora responsável pela série Syphon Filter, mas que nos últimos anos esteve mais focada em desenvolver adaptações de jogos para consoles portáteis – veio com a ideia de unir Walking Dead e Sons of Anarchy, com motoqueiros durões desafiando zumbis em um mundo pós-apocalíptico.

Days Gone coloca o jogador em um mundo aberto, na pele de Deacon St. John, um motoqueiro cheio de atitude tentando viver na Oregon dominada pelos frenéticos – pessoas infectadas por um vírus que as deixam incontroláveis, agressivas e famintas – enquanto a humanidade se encolhe e sobrevive, custe o que custas, em pequenos e isolados acampamentos. Deac, como o protagonista é chamado pelos amigos (e que soa ironicamente como “Dick”, ou “babaca”, em inglês”), busca notícias de sua mulher, desaparecida no dia em que a infecção dos frenéticos se espalhou pelo mundo.

Os frenéticos estão por toda parte em Days Gone.

Neste cenário será necessário sobreviver aos perigos dos frenéticos, à violência dos seres humanos e aos rigores da natureza inóspita, lidando com a falta de recursos, equipamentos e combustível para sua motocicleta, o principal meio de transporte do jogo. Mas será que a Bend Studios, uma empresa de tamanho médio previamente concentrada em trabalhar em franquias de outras desenvolvedoras, estava pronta para lidar com um jogo de mundo aberto aparentemente tão ambicioso?

Born to be Wild

Compare o primeiro Watchdogs e The Witcher 3: Wild Hunt e perceberá que os jogos de mundo aberto sofreram evoluções nesta geração, principalmente no que se refere ao dilema entre quantidade e qualidade do conteúdo oferecido. Rompendo com os padrões que haviam sido definidos na geração passada, cada vez mais este gênero trata de histórias bem contadas e menos sobre a quantidade de ícones e atividades distribuídas no mapa.

Days Gone poderia ter sido um bom título de lançamento do Playstation 4, em 2013, mas nos dias atuais ele soa como um jogo antiquado e incapaz de surpreender em qualquer um de seus quesitos. Escolha qualquer característica do título e algum outro jogo já terá apresentado uma versão aprimorada da receita.

Acima de tudo, o título dá pistas de um desenvolvimento conturbado, como o desaparecimento das decisões morais, apresentadas em um dos vídeos de gameplay do jogo. Não são raros momentos na história em que eu tive a impressão de que havia uma decisão a ser tomada ali, mas a narrativa segue em frente como a minha escolha já fosse previamente definida.

O jogo tem dificuldade de ligar uma missão na outra e para preencher o tempo lança mão de tarefas genéricas como invadir acampamentos (onde os abrigos funcionam como uma espécie de “torre invertida”, onde você libera novos ícones para explorar em seu mapa) ou assassinar pessoas específicas. Vários marcos são enfatizados na história, só para serem ignorados depois – como a fobia que Deacon tem de água, que é mencionada e explicada na narrativa, mas que se transforma literalmente em apenas uma tela de loading na hora que ele precisa vencê-la (dando a impressão de que havia uma cena ou interação ali, mas que se perdeu em meio aos problemas de desenvolvimento).

Problemas como este ainda parecem comuns no jogo.

Embora tenham sido reduzidos com os patchs liberados após o lançamento, Days Gone ainda conta com bugs e problemas de desempenho, principalmente no trecho final do jogo. A parte sul do mapa, principalmente o acampamento próximo ao lago, é propensa a quedas pesadas de quadros. Algumas vezes o jogo também apresentou problemas de streaming, com partes do mapa não surgindo corretamente ou com objetos próximos sendo renderizados com o LoD (Level of Detail) que deveriam ter em distâncias mais longas (árvores em versão bitmap, texturas simplificadas ou terrenos sem detalhes). Em três destas ocasiões foi necessário reiniciar o jogo para que eu pudesse seguir com a missão que esteja cumprindo.

Heavy Metal Thunder

Enquanto permite que o jogador ande de moto, atire em pessoas e frenéticos e animais selvagens, Days Gone se esforça para soar muito adulto. Com o texto cheio de palavrões, Deacon e seus amigos (e inimigos) soam como um garoto de 13 anos querendo impressionar os amigos.

Deacon age e fala constantemente como um adolescente querendo parecer durão.

Com companheiros envolvidos em trabalho escravo, conspirações governamentais paranoicas e cultos pós-apocalípticos, o título não perde a chance de tocar em temas como o direito ao porte de armas, população carcerária, pacifismo ou racismo, mas sempre o faz com a truculência de alguém que quer parece constantemente muito ‘fodão’ (para usar um termo que aparece no próprio jogo). Deacon fala sozinho constantemente, tentando justificar o fato de ele estar dizimando acampamentos de sobreviventes, emendando palavrões, xingamentos e ameaças.

No fim, tudo é plano de fundo bastante bobo para um mundo que se esforça demais para parecer maduro, mas onde tudo se resume a solucionar seus problemas disparando chumbo contra eles, até que eles desapareçam.

Get Your Motor Running

Como seus companheiros estão, na maior parte do tempo, presos aos acampamentos, Days Gone é um jogo solitário sobre um homem e sua motocicleta. Este é, possivelmente, um dos pontos altos do título e que ajuda muito a tornar a saga por Oregon menos maçante.

Pilotar a moto de Deacon é agradável e com a mecânica de derrapagens e opções e aprimoramento, viajar entre as missões é uma das partes mais prazerosas do jogo. Infelizmente, o título parece não aproveitar este elemento o suficiente e o uso da moto limita-se ao deslocamento, com poucas tarefas envolvendo a moto propriamente dita.

Subaproveitada, a moto é um dos elementos mais bacanas de Days Gone.

Em algum momento Days Gone faz parecer que a gasolina era um elemento fundamental do loop de gameplay. Mas nas dezenas de horas que levei para finalizar a campanha, nenhuma vez fiquei sem combustível, abundante no cenário e infinito nos acampamentos. O mesmo vale para todo o elemento de sobrevivência. Não há escassez de suprimentos e recursos como munição, bombas ou itens de cura são encontrados em um ritmo praticamente inesgotável.

Os encontros envolvendo a moto, como tocaias e armadilhas, são genéricos, fáceis e repetitivos, oferecendo pouco mais que um contratempo em sua viagem. Days Gone encontra na motocicleta seu principal diferencial, mas exige que o jogador a deixe para trás na maior parte do tempo.

Fire All Your Guns at Once

O segundo elemento que tenta diferenciar Days Gone de outros jogos de mundo aberto são as hordas, agrupamento de centenas (ou milhares) de frenéticos que se movem praticamente como uma torrente, perseguindo o jogador.

Mostradas no primeiro trailer do jogo e reforçadas nas demonstrações de gameplay em eventos, a tecnologia por trás das hordas é incrível. Assustador ver aquela multidão de criaturas se movendo de forma independente em direção ao personagem, contornando perigos no cenário e saltando por obstáculos. Nestes momentos o jogador precisa analisar o ambiente, definir áreas de estrangulamento (onde a horda precisa se espremer para passar), posicionar armadilhas e reduzir o número de frenéticos até dispersar o perigo, uma tarefa praticamente suicida no início do jogo, mas que tende a ficar corriqueira no final do jogo.

As hordas são o ponto alto da ação do jogo. Mas só no Modo de Fotografia você as vê assim.

Infelizmente, as hordas só ganham seu merecido destaque no terço final do jogo, quando Deacon já possui habilidades e equipamentos suficiente para lidar com elas sem maiores riscos. De modo que na maior parte do tempo, o jogador enfrentará as hordas de duas maneiras, ou escondido e longe do perigo, disparando bombas e armadilhas, ou fugindo delas, correndo de modo que não conseguirá vê-las. Em ambos os casos, dificilmente poderá apreciar o efeito das hordas em movimento, suas criaturas atropelando umas as outras (correr com a câmera virada é um convite ao suicídio, vide que a maioria das arenas onde você enfrenta as hordas são repletas de áreas estreitas e propensas a prender o personagem).

Fica a sensação de que ambos os elementos, motocicleta e hordas, mereciam encontros mais planejados. Set pieces emocionantes na qual a câmera ajudasse o jogador a entender a magnitude do grupo o perseguindo e ampliando a emoção. Existe uma destas no jogo, que acaba deixando ainda mais claro que Days Gone poderia fazer mais uso deste recurso.

Looking for Adventure

Medíocre parece uma palavra forte, mas na verdade representa aquilo que é mediano, comum, sem expressão. Days Gone não corre riscos de ser um jogo ruim ou falhar em sua proposta, mas – da mesma forma – não surpreende ou apresenta qualquer diferencial.

Existe diversão e entretenimento a ser encontrado na aventura de Deacon, mas ele está diluído em um tipo de conteúdo de mundo aberto (focado em tarefas repetitivas e conteúdo vazio) que vem – felizmente – perdendo força nesta geração. Days Gone não conta boas histórias sobre seus personagens e falha principalmente em contar qualquer história sobre aquele mundo. Não me arrependo de tê-lo jogado, mas confesso que não o recomendaria… em meio aos jogos recentes e aos que serão lançados no futuro próximo, existem coisas mais interessantes com as quais você pode gastar seu tempo diante de um videogame.

Cresci com meu pai, um motociclista que já viajou por boa parte da América do Sul sobre duas rodas, dizendo que o que vale é o trajeto, quando se está sobre uma moto. Days Gone é um delicioso passeio de moto, mas que insiste em te fazer você caminhar com suas próprias pernas por seus trechos menos atraentes.

Days Gone está disponível para Playstation 4 e foi jogado no Playstation 4 Pro com uma cópia adquirida com recursos próprios.

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.