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Ar Puro e Céu de Brigadeiro em Metro Exodus

MUNDO ABERTO! Se você está desenvolvendo um AAA e precisa entrar no radar do público, falar em Mundo Aberto parece ser essencial. Toneladas de conteúdo, liberdade de exploração, faça sua própria aventura e todas aquelas frases de efeito que ficam lindas na descrição do jogo.

Mas como transportar para o mundo aberto a sequências de uma série que sempre estivera focada na sobrevivência em tuneis fechados, escuros e claustrofóbicos? Metro Exodus, o novo jogo da franquia baseada na série de romances escrita por Dmitry Glukhovsky, encara esta jornada. Mas será que ela chega ao pretendido destino?

Deixando a Bagagem para Trás

Ao embarcar na viagem de se transformar em um jogo de “mundo aberto” (as aspas serão explicadas em breve), Metro Exodus foca em novos horizontes e deixa um pouco de si abandonado na estação.

Os jogos iniciais da série, Metro 2033 e Metro: Last Light, contam a história de Artyon, um jovem habitante do metrô da Rússia desolada por uma guerra nuclear, o último refúgio da humanidade, tentando sobreviver a ataques de criaturas mutantes, radiação e conflitos entre os grupos que tentam dominar áreas importantes dos túneis.

O relacionamento de Anna e Artyon ajuda a impulsionar a história.

Logo fica claro que o protagonista é alguém especial, capaz de sentir certos fenômenos sobrenaturais e até mesmo se comunicar com os “dark ones”, uma estranha raça de criaturas telepatas que surgiu na superfície tomada pela radiação após a guerra. Estas estranhas capacidades formam o trilho sobre o qual a narrativa dos jogos caminha.

Artyon segue como protagonista de Metro Exodus, porém ele deixa de ser o foco direto da aventura, tornando-se mais como um catalizador em torno do qual outras histórias serão narradas. Dividido em segmentos, Metro Exodus funciona quase como uma antologia, utilizando a jornada do personagem para contar histórias de diferentes pessoas e regiões na superfície da Rússia pós-apocalíptica.

Os túneis claustrofóbicos do metrô rapidamente ficam para trás.

Ficam para trás os eventos sobrenaturais e a estranha raça dos “dark ones”, bem como os túneis que dão nome a série. No caminho, grandes áreas abertas, pântanos, desertos e florestas a serem exploradas.

Um Mundo Aberto, Sobre Trilhos

Metro Exodus não é um jogo de mundo aberto, no sentido literal da palavra. Não há um mapa único enorme e uma vez abandonada uma área, não há como retornar. Ao invés disto, os trilhos do Aurora, o trem que serve como base para os Espartanos – um grupo de soldados do qual Artyon e sua esposa, Anna, fazem parte – levam o jogador através de áreas abertas que podem ser exploradas.

Cada região onde o Aurora estaciona oferece um mapa de tamanho médio, onde o jogador precisa cumprir uma série de missões obrigatórias e pode executar também diversas opcionais. A exploração é recompensada com novas armas, acessórios e recursos de fabricação, mas o prêmio mais interessante são as mensagens e pequenas histórias contadas nestes cenários.

Metro Exodus se passa, na maior parte do tempo, em áreas abertas.

O jogo não oferece nenhum tipo de avanço para o personagem propriamente dito, como níveis ou novas habilidades. Ao invés disto, acessórios permitem que você modifique suas armas ou altere algumas características da sua armadura, capacete e o pulseirão. Dependendo da forma como você deseja jogar, armas podem ser mais destrutivas ou silenciosas, enquanto sua armadura pode ser mais resistente a danos ou então carregar mais itens. Exodus conta também com um sistema simples de crafting, onde o jogador coleta itens que se dividem em dois grupos, peças e químicos, que podem ser utilizados na fabricação de munição, itens de cura ou na manutenção das armas e equipamentos.

Cartões Postais, Lembranças na Parede

Ocasionalmente, Metro Exodus lembra o jogador de seu passado. Bases subterrâneas, regiões intoxicadas por radiação ou gases perigosos, tuneis escuros e decrépitos. Mas na maior parte das vezes, estes momentos só ajudam a enfatizar o quanto o título se distancia dos seus anteriores em termos de atmosfera e ambientação, soando como algo muito mais inspirado em outros cenários pós-apocalípticos (é impossível não pensar em Mad Max durante o capítulo “Cáspio”, por exemplo) do que nos próprios jogos anteriores da franquia.

A interface segue familiar para os fãs da série.

Suas armas e equipamentos estão lá, como o clássico rifle de pressão e o gerador manual para a lanterna, o sistema de karma (que determina o final do jogo e de algumas missões com base em suas ações) está presente e a imersão – uma das maiores qualidades da série – ainda deixa sua marca em cada interação com o cenário ou na claustrofobia da máscara de gás molhada de suor. Mas a ausência dos “dark ones”, os espaços amplos e abertos e o ar respirável só reforçam a obviedade de que um trem a céu aberto não é um metrô.

Isto não faz de Metro Exodus um jogo ruim – na verdade, eu me senti entretido e imerso durante todo o meu tempo de jogo, explorando o cenário e focando na furtividade. O título oferece uma boa variedade de cenários, a história – por mais simples que seja – funciona para manter o jogador “nos trilhos”, e a opção de jogar de forma mais agressiva ou furtiva atende a vários tipos de jogadores (mesmo que o jogo possa soar um pouco “lento” para fãs de jogos de ação mais frenéticos).

A fraternidade entre os passageiros do Aurora é um dos pontos mais bacanas do jogo.

Em particular, gosto muito da fraternidade que o jogo apresenta sempre que você retorna ao Aurora. A relação do personagem com os outros membros do grupo, a forma como o Aurora vai se tornando algo cada vez mais impressionante e os pequenos eventos e interações que acontecem tornam cada retorno para a base móvel especial, fazendo com que você se importe com o destino daquelas pessoas.

O jogo só parece menos “Metro” do que eu gostaria que fosse, como se ainda que seja um jogo incrível, ele fosse parte de uma outra franquia. Como se ainda que eu goste dele, não é exatamente pelos mesmos motivos pelos quais aprecio tanto seus antecessores. Metro Exodus soa como uma despedida da série, mas se despede dela já no seu princípio e constrói algo novo a partir daí, sem me oferecer uma continuação direta daquilo que eu construí em 2033 e Last Light, levantando a questão: será que todo grande jogo – todo AAA – precisa oferecer um mundo aberto? Inclusive um cujo nome remete à tuneis escuros e claustrofóbicos?

Metro Exodus está disponível para PC, Playstation 4 e Xbox One. Ele foi jogador no Playstation 4 Pro em uma cópia adquirida com recursos próprios.

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.