Playstation Review

Review: The Last of Us Parte II

The Last of Us é, para mim, um marco dos games. Lançado no dia do meu aniversário (14 de junho de 2013), foi um jogo que marcou minha memória de tal forma que me levou a comprar quadrinhos, camisetas e funkos dos seus personagens, para levar sempre aquela história comigo. Por diversas vezes mergulhei naquele mundo (tanto no jogo original quanto no remaster), 20 anos depois de uma epidemia provocada por um fungo que transforma suas vítimas em perigosas criaturas, emocionando-me continuamente, mesmo já conhecendo de cor suas falar e reviravoltas.

Por diversas vezes retornei mentalmente ao seu final e questionei as motivações de Joel, se Ellie havia comprado ou não a mentira e como seriam os próximos anos da dupla na comunidade de Jackson, para onde eles partiram. Ainda assim, com este fim cheio de possibilidades, The Last of Us sempre me pareceu um jogo encerrado em si próprio, sem qualquer necessidade de uma continuação. Sua segunda parte, desde que fora anunciada, sempre me provocou um sentimento misto: eu queria muito saber para onde a Naughty Dog levaria aquela história, mas ao mesmo tempo temia como tais rumos poderiam macular minha experiência com o primeiro jogo.

All over again

Enxergar o mundo pelos olhos de Ellie colocam a comunidade de Jackson em uma nova perspectiva. Embora a relação com Joel pareça um pouco tensa (algo normal, considerando-se até mesmo a diferença geracional entre ambos), Ellie parece bem aclimatada, com amigos e até mesmo um potencial namoro engatilhando com a cativante Dina.

A jornada logo leva os personagens para longe de Jackson.

Não leva muito tempo para que o jogo se mostre uma versão melhorada do primeiro título. Nos quesitos técnicos, o trabalho da Naughty Dog é primoroso (embora às custas de muito trabalho e horas extras, um assunto que precisa ser amplamente discutido na indústria). Rostos e expressões nunca estiveram tão críveis e os ambientes tão cheios de detalhes. Mais do que isto, a jogabilidade avançou combinando elementos que a desenvolvedora parece ter aprimorado com Uncharted 4 e The Lost Legacy com as ações mais brutais de The Last of Us.

Nossa protagonista ganhou novas ações com as quais interage com o mundo, como deitar-se no chão, esconder-se na grama alta, manipular fios e cabos, quebrar vidros ou até mesmo saltar (algo que no primeiro jogo só era possível em situações contextuais) – o que permite um novo nível de exploração no jogo. Quando os conflitos esquentam, ela pode passar rapidamente por vãos estreitos, criar silenciadores para suas armas ou eliminar rapidamente estaladores, em uma ação muito mais fluída, natural e diversa do que era possível anteriormente. Esta aumento de opções permite que o jogador explore novas formas de enfrentar as situações com inimigos.

Diversas vezes, em encontros que normalmente se limitariam a longas esperas e ataques furtivos, eu agia de forma muito mais rápida e gratificante. Ao invés de aguardar o momento em que um infectado estaria longe o suficiente do estalador para um ataque silencioso, eu podia imobilizar o infectado e jogá-lo propositalmente no estalador – fazendo com que eles atacassem um ao outro – ganhando tempo para fugir da área ou mesmo preparar um ataque menos perigoso depois que o infectado mais fraco fosse eliminado e eu pudesse me concentrar em um único oponente.

Ainda assim, o jogo preserva seus elementos caraterísticos, como a lentidão e falta de precisão na mira, recarga ou troca de armas, principalmente se elas ainda estiverem em sua mochila ou for necessário produzir algum item, dando um ar de desespero e caos sempre que as coisas saem do controle.

Quando o combate não é o foco, The Last of Us Parte II reduz o ritmo com momentos de exploração, uma faceta do jogo que ficou ainda mais interessante devido ao primor com o qual o mundo do jogo é construído, tanto gráfica quanto conceitualmente. Ao invés dos corredores do seu antecessor, o jogo aprimora o estilo que a Naughty Dog batizou de “wide linear” (linear amplo), onde seu ponto de partida e destino são interligados por múltiplos caminhos e ambientes opcionais para explorar. Em diversas situações, o jogo ganha ares de Immersive Sim, com seus ambientes cheios de detalhes que contam pequenas histórias e onde a exploração é recompensada não apenas com itens e equipamentos, mas também com interessantes aprofundamentos narrativos que ajudam a materializar aquele mundo.

O Combate continua brutal e as coisas podem sair do controle rapidamente.

Com esta maior imersão, The Last of Us Part II parece menos com um universo girando em torno de Joel e Ellie e mais com um mundo real, cheio de personagens e histórias. Nesta sequência somos apresentados a novas facções, cultos religiosos e gangues na perigosa luta pela sobrevivência, todos com suas próprias histórias, características e motivações.

Mas assim como no primeiro título, a mistura de exploração e ação de The Last of Us Parte II é apenas parte da equação, sendo combinada com uma história emocionante e de alto nível narrativo.

I still miss someone

É muito difícil falar deste jogo evitando spoilers, pois diversos dos eventos e reviravoltas serão melhores aproveitados se você não tiver qualquer conhecimento deles. A principal dica que posso dar é esquecer tudo o que você viu nos trailers e spoilers que vazaram na internet e abraçar The Last of Us Parte II de coração aberto, sem expectativas de como você acredita que a história deva ser.

Acima de tudo, não espere uma reprise da aventura do primeiro jogo. Nas palavras do próprio diretor do jogo, Neil Druckmann, enquanto The Last of Us tratava do preço do amor, The Last of Us Parte II é um jogo sobre o custo do ódio. A narrativa compartilha elementos com seu antecessor, ela é intimista, emocional e bastante brutal em diversos pontos, mas possui um tom bem diferente – muito mais soturno e cínico.

A narrativa do jogo tem qualidades brilhantes e defeitos profundos. A história é construída em cima de eventos, reações e consequências. Enquanto suas reações e consequências deixam marcas e cicatrizes, são coerentes com os personagens de formas críveis e convincentes, e por diversas vezes me deixaram angustiado, sentado na pontinha do sofá e apertando o controle, os eventos catalizadores me pareceram, em sua maioria, resolvidos de forma apressada e estabanada.

Momentos de calma permitem uma maior interação entre as personagens.

Isto faz com que o jogo perca um pouco do ritmo, deixando a sensação de que alguns eventos poderiam ter sido mais bem trabalhados e explorados, enquanto suas consequências se prolongam por muito tempo, com muitos momentos expondo de forma clara seus dramas e destilando-os de uma forma que corre o risco de dessensibilizar o jogador. A sensação final é de que há um desequilíbrio entre a subida da montanha russa e sua inevitável descida.

A história escrita por Neil Druckmann e Halley Gross sabe onde quer chegar e a mensagem que deseja transmitir ao jogador. Talvez diante do fato de muitos jogadores esquecerem rapidamente da ambiguidade do final de The Last of Us e tratarem as personagens como heróis irretocáveis (o que a exposição bastante maniqueísta do primeiro título só acaba reforçando), a narrativa da segunda parte é menos sutil e ambígua, concentrando-se mais em produzir grandes momentos narrativos e transmitir de forma inequívoca sua mensagem, e menos em construir as relações entre eles. Conexões que no jogo anterior levavam muito tempo para serem construídos, neste precisam se solidificar de forma muito mais apressada. Isto faz com que até mesmo os diálogos durante o jogo, algo fantástico no primeiro jogo, acabem não tendo o mesmo brilhantismo.

Por este motivo, por mais que eu já estivesse capturado pela parte mecânica e pelas pequenas histórias e explorações do jogo, a Parte II demorou muito mais para fazer com que eu mergulhasse emocionalmente na história de seus protagonistas. Foi somente muito próximo do final do jogo que eu comecei a me sentir investido em suas reviravoltas.

A partir deste momento, que minha relação com o jogo mudou completamente, mesmo nas partes mais serenas era possível sentir o embrulho no estômago e a sensação de que algo iria acontecer. Mais do que narrativamente, The Last of Us Parte II faz um trabalho primoroso em transmitir ao jogador as mais diversas sensações.

Os cenários estão ainda maiores, mais detalhados e com mais opções de exploração.

Este é um jogo que não pretende ser uma aventura empoderadora ou divertida. Através do enorme talento dos atores e atrizes, recursos de jogabilidade e até mesmo das fortes doses de violência gráfica, sentimentos como angústia, tensão, receio, medo e até mesmo culpa são constantemente evocados, possivelmente da forma mais intensa que já experimentei em um jogo.

I’ve been everywhere

Enquanto o primeiro jogo era uma aventura intimista, objetiva e segura, The Last of Us Parte II é ousado e – por este motivo – acaba arriscando-se mais aos tropeços. Ele não é confortável, provoca o jogador e diversas vezes encurrala seus sentimentos contra um canto frio e escuro.

O conceito que o jogo tenta explorar não é novo – outros títulos já estiveram lá – mas é a primeira vez que em que se trata de uma produção AAA deste porte e orçamento, fazendo com que seu “raio de explosão” seja muito maior.

Com erros e acertos, a jornada de The Last of Us Parte II levará você para lugares inesperados.

Em meio ao conteúdo provocante, que remói você por dentro, ele oferece uma jogabilidade com uma dose satisfatória de complexidade, entremeado por exploração tranquila e que recompensa com pontos narrativos atraentes, personagens complexos e relacionamentos profundos, ainda que construídos sem as sutilezas que eu esperava.

Termino minha experiência com a opinião de que esta é uma aventura intensa em todos os sentidos e que, como seus personagens, cheia de acertos e erros, mas que mergulha fundo e não segura seus socos. Ainda nutro o sentimento de que a aventura de Joel e Ellie não exigia uma continuação, mas The Last of Us Parte II é grandioso e afeta profundamente a jornada que comecei em junho de 2013.

Somewhere over the rainbow

Embora não seja meu lugar de fala, gostaria de ressaltar que The Last of Us Parte II faz um trabalho incrível em dois campos importantes e que precisam continuar sendo constantemente discutidos nos games.

Primeiramente, a inclusão de ferramentas de acessibilidade para pessoas com as mais diversas necessidades de adaptação, como problemas de audição, visão ou dificuldades motoras. Com a consultoria de Steve Saylor (streamer com forte deficiência visual e voz forte na comunidade de jogadores com deficiência), The Last of Us Parte II conta com mais de 60 opções de acessibilidade, indo desde a leitura automática de textos até modos de alto contraste, passando por alertas sonoros, mudanças no tamanho de interface e muito mais. Um marco para a acessibilidade nos jogos que – torcemos – servirá de novo padrão para os jogos no futuro.

Apenas jogando para saber quem é a misteriosa mulher nos trailers do jogo.

Nem um pouco menos importante, o jogo conta com um elenco diverso e representativo, fugindo da heteronormatividade típica dos games. Além de contar com personagens de diversas etnias, credos e sexualidades. Em um segmento no qual – quando muito – protagonistas que não sejam masculinos, heterossexuais e brancos (ou mulheres hiper sexualizadas) acabem limitados a spin-offs experimentais, como Uncharted: The Lost Legacy, Dishonored: Death of the Outsider e Spider-man: Miles Morales, The Last of Us Parte II traz uma protagonista lésbica no papel principal, um belo relacionamento homoafetivo e personagens com corpos não normativos. Como dito acima, que sirva como um novo padrão para os jogos no futuro.

The Last of Us Part II está disponível para Playstation 4. Foi jogado no Playstation 4 Pro com uma cópia adquirida com recursos próprios.