Pendurar-se entre prédios, disparar teia e combater vilões. Tornar humanamente controlável o humanamente impossível é um desafio em qualquer jogo de super-herói e algo que a Insomniac Games encarou de frente ao levar o amigo da vizinhança, Homem-Aranha, para um novo passeio no mundo dos games.
É impossível não ver em Marvel’s Spider-man o DNA de sua desenvolvedora, desde os menus circulares e bugigangas incríveis de Ratchet & Clank à navegação em velocidades vertiginosas de Sunset Overdrive. Também são inevitáveis as comparações com a trilogia Batman da Rocksteady, que provou que com os ingredientes corretos – acima de todos, o respeito ao personagem – jogos de super-herói não precisam ser caça-níqueis baratos e esquecíveis.
Um Herói que Dispensa Apresentações
Filmes, quadrinhos, jogos – a história de como Peter Parker se torna o Homem-Aranha já foi exaustivamente contada e recontada. Em Marvel’s Spider-man, pulamos o início moroso da história direto para um in media res (quando começamos a história no meio da ação) agitado e empolgante. Encontramos um herói experiente e com uma bagagem rica e detalhada, aliados importantes e vilões recorrentes.
Esta escolha tem um impacto importante na forma como a narrativa é absorvida pelo jogador. Ao invés de nos contar algo que já conhecemos, de forma linear, o jogo traz ao jogador uma nova história, ao mesmo tempo em que expande o universo como uma teia (trocadilho intencional!) e nos leva a redescobrir aos poucos o papel dos personagens que já conhecemos naquele novo universo.
Cheio de detalhes para os fãs do amigo da vizinhança, o jogo não tem medo de repensar alguns personagens e contextos. Tia May, Mary Jane, Miles Morales, Norman e Harry Osborn e muitos outros estão presentes (fisicamente ou não) no jogo, mas quase sempre em novas interpretações. O título também equilibra bem os momentos entre o Homem-Aranha e Peter Parker, dando bastante peso para a vida do personagem por trás da máscara, seus problemas pessoais e dificuldades para manter as contas em dia.
Embora seja um jogo que pode cativar iniciantes, Marvel’s Spider-man foi feito para o coração dos fãs. O humor do personagem, a falação interminável, os dramas do equilíbrio entre o herói e a pessoa comum, os vilões meios bobos, tudo está presente e muitas referências ao universo Marvel podem ser identificadas.
Sob a Máscara, Sob Céus de Nova Iorque
Falando em inspirações, a Insomniac foi buscar em Spider-man 2 (2004) – considerado por muitos um dos melhores jogos do personagem – os controles que permitem que o jogador se sinta como o Homem-Aranha balançando pelos céus da cidade.
Um equilíbrio perfeito entre automatizar e dar liberdade e controle ao jogador, Marvel’s Spider-man acerta em cheio na navegação. Basta um botão para que você faça o personagem se pendurar pela cidade, fazendo com que o deslocamento não exija qualquer esforço – mas combine corretamente o timing de liberar o botão, faça disparos precisos de teia, use os elementos de parkour e principalmente a habilidade que permite que você pressione um botão no momento correto ao aterrissar para dar um impulso em velocidade e a movimentação vira uma bela dança ritmada, precisa e altamente satisfatória, nunca ficando automatizada ou tirando o controle do jogador.
Não é a primeira vez em que um jogo oferece um deslocamento tão interessante – já vimos isto em jogos como InFamous, Sunset Overdrive ou Prototype – mas Marvel’s Spider-man tem uma fisicalidade que torna o movimento mais tangível e visceral. A influência da gravidade, o efeito pendular da teia e a alternância entre flutuação e queda fazem da navegação pela cidade o ponto alto do jogo, ao ponto de tornar o sistema de Viagem Rápida – sempre pontuado com cenas divertidas do Aranha pegando o metrô – desnecessário (em meu jogo eu utilizei o sistema apenas 5 vezes, após terminar o jogo, para obter o troféu).
O mesmo tipo de fluxo, no qual tudo parece se encaixar, existe no combate, porém ele falha em preservar o frescor durante toda a experiência do jogo. Os controles permitem que o Homem-Aranha encadeie rapidamente golpes, deslocamentos, puxões e combos aéreos, além do uso de equipamentos, mas embora o jogo incremente os inimigos para forçar o jogador a utilizar novas estratégias no combate, a quantidade de inimigos enfrentados no jogo faz com que as lutas se tornem repetitivas e cansativas com o tempo.
Uma quebra nesta rotina são os momentos de furtividade, nos quais o jogador pode (em raras ocasiões a furtividade é totalmente obrigatória) eliminar parte dos inimigos sem ser detectado. O personagem é extremamente eficiente nesta tarefa e a falha geralmente tem como consequência apenas uma luta convencional.
Um Novo Jogo, Um Velho Mundo Aberto
A Nova Iorque de Marvel’s Spider-man é detalhada e linda, repleta de marcos famosos (como o Madison Square Garden ou o Central Park) e também fictícios. Não deve ter sido uma decisão fácil abrir mão do ciclo de dia e noite em tempo real do jogo, mas ao fazer isto os desenvolvedores ganharam uma incrível ferramenta para definir melhor o tom da narrativa: dia, noite, sol ou chuva, ajudam a enfatizar o humor de determinados momentos, além da eterna “hora dourada” (momento antes do anoitecer quando a luz do sol fica mais amarelada, muito procurado pelos fotógrafos) de algumas cenas ser um convite permanente ao Modo de Fotografia.
Desça dos prédios por um instante e a cidade parece viva. Pessoas caminhando, tráfego constante e vendedores de rua reforçam o cuidado com detalhes do topo dos prédios ao asfalto e a reação das pessoas à presença do herói – seja gritando palavras de incentivo, críticas ou pedindo um momento para selfies – ajudam a transformar Nova Iorque em um personagem.
Seria uma pena se este cenário tão fantástico fosse preenchido com missões e colecionáveis e torres ao estilo dos jogos de mundo aberto da geração PS3/Xbox 360 e foi exatamente isto que aconteceu. Marvel’s Spider-man não consegue fugir de convenções antiquadas do gênero e cai em clichês como torres para revelar mapas, missões paralelas pouco inspiradas e colecionáveis abundantes, minimizados apenas pela satisfação de navegar pela cidade e pela curta duração do jogo (pouco mais de 30 horas para explorar todo o seu conteúdo).
A Insomniac até se esforça para contextualizar todo este conteúdo, incluindo easter-eggs interessantes nas mochilas procuradas por Peter Parker no cenário ou dando explicações para os desafios encontrados nos laboratórios de pesquisas, mas é inevitável que o jogo caia na repetição na medida em que você enfrenta pela enésima vez o mesmo crime ou deixa Mary Jane esperando para caçar pombos.
Homem-Aranha ou Spider-man?
Marvel’s Spider-man não oferece ao jogador a opção de escolher o idioma do áudio ou texto do jogo, utilizando as configurações do Playstation 4 como parâmetro. O título conta com um ótimo trabalho de localização e atuações de voz excelentes que refletem perfeitamente o clima leve e bem-humorado do universo do personagem, mas também apresenta uma dose de pequenos problemas.
O principal deles é a estranha decisão de preservar os nomes originais de personagens e vilões (uma tendência que a Disney já vinha mantendo com alguns de seus personagens, como o Ursinho Pooh ou a fada Tinkerbell), que faz com que frases como “eu estou perseguindo a Black Cat” ou “o Vulture foi visto na cidade” soem esquisitíssimas para quem está habituado com Gata Negra e Abutre.
Outros problemas são a quantidade de falas incidentais que não foram regravadas e inconsistências de volume na mixagem. Não é raro encontrar pessoas pedindo taxi ou policiais conversando em inglês ou personagens falando em volume muito inferior ao padrão do jogo.
Vale a pena destacar o incrível trabalho de voz feito para o J.J. Jamerson – simplesmente fantástico e uma das melhores atuações de voz brasileiras que vi em um jogo.
Gostinho de Quero Mais
Após pouco mais de 30 horas de jogo e um troféu de platina garantido, Marvel’s Spider-man deixa um gostinho de quero mais. Embora não seja perfeito, o jogo é divertido e cativante, conta uma boa história e cumpre a missão de colocar o jogador na pele de um dos personagens mais queridos e icônicos de todos os tempos. Sem dúvida, o melhor jogo do Homem-Aranha e mais um título para provar que jogos de super-heróis podem ser muito bons.
Algumas coisas precisam ser revistas para uma sequência – como a estrutura antiquada do mundo aberto – mas o título monta uma base e define um universo incrível para mais jogos, deixando aquela ansiedade para subir novamente nos prédios e balançar nos céus de Nova Iorque em direção ao pôr-do-sol.
Prós
- Navegação pela cidade divertida e satisfatória;
- Respeita a ideia do personagem ser ‘falante’, mas evita a repetição excessiva das falas;
- Coloca você com perfeição na pele e no mundo do Homem-Aranha.
Contras:
- Estrutura de mundo aberto antiquada, ao estilo dos jogos da geração anterior;
- O combate não consegue se manter fresco até o final do jogo.
Marvel’s Spider-man foi analizado no Playstation 4 Pro e adquirido com recursos próprios.
