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Review – Carrion

Você já se imaginou na pele de um terror biológico monstruoso? Não estou falando de criaturas humanoides deformadas, com garras e membros desproporcionais, mas sim de uma massa totalmente disforme de tentáculos, espinhos, dentes e olhos. Pois esta é a oportunidade que Carrion – o jogo desenvolvido pela Phobia Game Studio e publicado pela Devolver Digital, lançado em 2020 para PC e Xbox e que agora chega ao Playstation – oferece para você!

Apenas o Caos

Sem qualquer história ou preâmbulo, o jogo começa com a criatura se libertando de seu cativeiro, para desespero de todos os cientistas ao redor. Não há qualquer indicativo de objetivo ou intenção e por instinto sabemos que devemos sobreviver e se alimentar e ficar no mesmo lugar não vai resolver nenhuma destas duas questões. Logo percebemos que estamos em um grande complexo de laboratórios localizado no que parece ser um conjunto de cavernas, e seguir em movimento o único caminho possível.

Tudo começa aqui…

Com vista lateral, bidimensional e uma bela arte pixelizada, Carrion rapidamente nos apresenta à sua violência gráfica. Como se não bastasse o próprio movimento da criatura, que deixa marcas por toda parte, toda morte causada por ela resulta em membros voando e uma chuva de pixels vermelhos cobrindo as superfícies. Mas os gráficos estilizados ajudam Carrion a fugir do tortureporn. É quase como se a própria criatura sequer se importasse com o resultado de suas ações.

Fora incorporar esta criatura, o principal objetivo do jogador é seguir em frente. Embora tenha características que possam lembrar um Metroidvania, Carrion é um jogo muito mais linear e o backtracking se faz necessário apenas para buscar alguns colecionáveis que ficam para trás devido à falta de uma habilidade específica. Neste processo, nossa criatura precisa solucionar quebra-cabeças com o uso de seus poderes, combater as forças de segurança do laboratório e deixar partes de sua biomassa para infectar locais específicos.

Habitando um Corpo Estranho

Um dos pontos mais marcantes em Carrion é controlar a criatura. Embora ela possa se mover em qualquer direção sem limitações, a sensação é muito diferente daquela que costumamos ter ao controlar um personagem que anda na perspectiva superior ou então um personagem que voa. Para se mover em qualquer direção, a criatura precisa lançar seus tentáculos, se agarrar em partes do cenário e então de puxar na direção pretendida. Tudo isto é automático… basta você colocar o analógico para cima e os tentáculos irão buscar os melhores pontos de apoio e então seu corpo irá se mover na direção pretendida. Mas tudo isto tem um atraso e um peso que causa uma estranheza que ajuda muito na sensação de que estamos habitando um corpo incomum.

Na medida em que a criatura cresce, a movimentação fica cada vez mais esquisita e desengonçada. O peso e o atraso no movimento aumentam e partes da criatura podem ficar exposta aos oponentes quando você tenta se esconder ou fugir.

Quanto maior a criatura, mais estranho é controlá-la.

Além disso, a criatura não possui um “centro” de referência que ancore todo o corpo e que o jogador possa utilizar para basear seu movimento. Mova-se para a esquerda e a criatura se alonga naquela direção e logo temos a sensação de que o controle está ancorado na extremidade esquerda do monstro, mas basta mover o controle para a direita e agora estamos com o foco do controle no lado oposto (tecnicamente, é como se a parte “âncora” da criatura fosse sempre a que está mais próxima da direção em que estamos apontando com o controle – algo cada vez mais desorientador, na medida em que a criatura cresce). Este fenômeno fica ainda mais claro quando precisamos mover a criatura em seu tamanho máximo através de dutos estreitos ou corredores com bifurcações complexas, sendo necessário adequar rapidamente os controles na medida em que partes diferentes da criatura estão sendo controladas.

Na medida em que a criatura cresce, se alimenta e explora, ela adquire novos poderes, como disparar uma espécie de teia, dar um “encontrão” com seu corpo, ficar invisível ou dominar a mente de humanos (e controlá-los) temporariamente. Além de serem uteis no combate contra os humanos e máquinas que defendem o laboratório, estes poderes também são importantes na resolução de quebra-cabeças para avançar no jogo. A teia permite atingir alavancas distantes, o encontrão quebra bloqueios de madeira e ficar invisível permite passar por armadilhas com sensores.

Para ampliar a complexidade dos quebra-cabeças, o crescimento da criatura é dividido em três tamanhos diferentes e cada um destes possui um conjunto específico de habilidades, de modo que é necessário administrar em que estágio da criatura você está. O tamanho da criatura está relacionado com seus pontos de vida e você pode reduzir sua biomassa tomando dano ou deixando parte dela em poços de biomassa espalhados no cenário (neste caso, ela pode ser recuperada depois, no mesmo local), enquanto o aumento do monstro é feito se alimentando de humanos ou então acessando os locais infectados com biomassa. Estes são os desafios mais interessantes do jogo, pois exigem que você raciocine com os 3 tamanhos em mente e a solução envolve o uso correto dos poços de biomassa para manipular o estágio da criatura.

Controlar os inimigos é um dos poderes da criatura.

A exploração do ambiente também pode levar o jogador a salas secretas que recompensam o jogador com vantagens adicionais, como mais pontos de energia (usado para algumas habilidades, como a invisibilidade), tentáculos adicionais (que permitem atacar mais de um humano ao mesmo tempo) ou maior resistência ao fogo (um dos principais pontos fracos da criatura). Estas salas são opcionais e podem exigir um pouco de backtracking por parte do jogador, pois muitas estão bloqueadas por obstáculos que exigem habilidades que só estarão disponíveis em fases posteriores.

Quando a Presa vira Predador

Na medida em que nos aprofundamos nas instalações do laboratório, a segurança fica cada vez mais rígida e agressiva. Embora o ambiente esteja repleto de cientistas e funcionários, que servem basicamente como alimento fácil para a criatura, soldados armados, drones de ataque e robôs vão tentar impedir o avanço do jogador. Escudos, armas pesadas e lança-chamas fazem com que seja necessário utilizar o cenário para se proteger e os dutos estreitos para pegar seus oponentes pelas costas, uma tarefa que pode ficar mais complicada na medida em que nossa criatura cresce e torna-se mais difícil de controlar.

Estes momentos de combate são o elo mais frágil do jogo, mas não se tornam um problema na medida em que são eventos rápidos, seja pela fragilidade da criatura diante de certas armas ou chamas, principalmente se pressionada contra um canto, ou pela velocidade com a qual ela consegue eliminar os seus oponentes com seus poderes mais avançados. Alguns destes cenários até mesmo funcionam como uma espécie de quebra-cabeça, onde você pode simplesmente encarar o problema de frente ou então utilizar as opções de poderes e do cenário para eliminar a segurança com pouquíssimo ou nenhum risco.

Frenesi e Fúria

Habitar um corpo alienígena pode ser cansativo no longo prazo e por isto Carrion é uma experiência frenética, furiosa e curta. A criatividade dos novos poderes e a forma como eles são utilizados para resolver os problemas mantém o jogo interessante durante todo o seu percurso e quando os obstáculos começam a cansar e recorrer demais aos combates longos, significa que o jogo está próximo ao seu final.

O lança-chamas é um dos maiores perigos para a criatura.

Mesmo assim, depois de cerca de 5 horas de jogo, eu ainda queria controlar um pouco mais a estranha criatura (agora libertadoramente poderosa) e a possibilidade de retornar a estágios anteriores em busca das últimas salas secretas pode oferecer mais uma ou duas horas de jogo focado em exploração e resolução de quebra-cabeças bastante interessantes. Faça isto, e o resultado é um novo troféu de Platina ou 1000G para a sua coleção.

Depois disto, é finalmente deixar o corpo do monstro sabendo que Carrion faz valer a pena cada minuto das horas de jogo que ele oferece, sem enrolação ou tentativas de encher linguiça… apenas caos, frenesi e fúria.

Carrion está disponível para Playstation 4/5, Xbox One/Series e PC. A versão avaliada foi jogada no Playstation 5 e gentilmente cedida pela Devolver Digital.