A busca por capturar o espírito do cinema muitas vezes leva os jogos em direção às narrativas interativas, jogos repletos de cutscenes ou longos quick time events cheios de ação. Na contramão destas tendências, Trek to Yomi – o novo jogo desenvolvido pela Flying Wild Hog e distribuído pela Devolver Digital – tenta replicar o estilo visual dos filmes clássicos do celebrado diretor Akira Kurosawa em um jogo de ação com deslocamento lateral.
Yajimbo – O Guarda Costas
Trek to Yomi coloca o jogador na pele de Hiroki, um jovem samurai que – após a morte do seu sensei – se vê responsável pela segurança da vila quando sua paz é ameaçada por um senhor da guerra.
Movido por seu senso de dever e pelo amor pela jovem Aiko, ele parte em missão para impedir os avanços do exército do senhor da guerra, antes que este consiga chegar a sua vila, uma jornada que o levará por altas montanhas, cavernas perigosas e até mesmo ao reino dos mortos da mitologia xintoísta.
Ao mesmo tempo em que vivemos a aventura de Hiroki, Trek to Yomi aproveita para explorar elementos da religião xintoísta e o passado do protagonista. Com a dramaticidade necessária para uma boa história de samurai, a narrativa é competente para prender a atenção do início do fim, incluindo algumas decisões a serem tomadas e que ajudam a definir a conclusão da história.
A Mais Bela
Não é a primeira vez em que algum jogo tenta emular o estilo dos filmes clássicos de samurai e por mais que sejam jogos estruturalmente diferentes, é inevitável a comparação com o recente Ghost of Tsushima, que também possui um modo de jogo em preto e branco.
Porém, enquanto o resultado em Ghost of Tsushima fica aquém do esperado, Trek to Yomi aproveita a sua simplicidade e o posicionamento fixo da câmera e da hora do dia para extrair o melhor do estilo, indo além do simples filtro monocromático e ruído cinematográfico para buscar a fotografia, contraste e disposição harmônicas dos elementos na tela típicos do gênero.
Resultado: Trek to Yomi é lindo demais, a todo momento.
Cada tela do jogo parece ter sido pensada cuidadosamente para que as áreas claras e escuras se complementem, as luzes atraiam o olhar para os lugares certos e as silhuetas sejam sempre claras e definidas. Formas no primeiro plano emolduram a cena, enquanto os planos de fundo preenchem os espaços sem poluir ou distrair.
Como resultado, a jornada de Hiroki exala o aroma de um cult perdido do cinema japonês. Mas apesar de toda a sua beleza, Trek to Yomi também nunca deixa você esquecer que ele é um jogo, com sua movimentação lateral e combate compassado e é neste quesito que o título parece errar no equilíbrio.
Céu e Inferno
Porém, enquanto a dramaticidade de sua história e a beleza de suas telas fazem desta uma aventura incrivelmente satisfatória, a sua jogabilidade se coloca como um obstáculo na jornada, oferecendo um desafio raso e repetitivo, que se esgota antes da conclusão final.
Trek to Yomi se equilibra em três pilares principais: exploração, quebra-cabeças e combate. Nenhum deles suficientemente sólidos.
Alternando entre momentos de deslocamento puramente lateral (para o combate) e áreas nas quais o jogador tem mais liberdade de movimentação tridimensional, a exploração do jogador é recompensada com colecionáveis, alguns diálogos, munição e golpes novos, mas sem oferecer nada que ajude a quebrar o fluxo puramente linear do jogo ou que tragam uma sensação de frescor.
A partir de um determinado momento, o jogador também passa a se encontrar quebra-cabeças simples e fáceis, sendo que alguns chegam a parecer até desnecessários, obrigando o jogador a selecionar kanjis encontrados pelo cenário ou reproduzir sequências de alvos.
Mas a exploração pouca abrangente e os quebra-cabeças não seriam um problema se Trek to Yomi acertasse em cheio em seu principal pilar, o combate.
Mas isto não ocorre. Embora pareça oferecer muitas possibilidades até o final da aventura, como novas armas de longo alcance e combos, o combate é raso, impreciso, pouco responsivo e ocasionalmente frustrante.
A falta de um feedback claro fez com que muitas vezes seja difícil entender se um golpe foi bloqueado corretamente ou porque um determinado combo não está sendo executado como deveria. A vasta maioria dos inimigos pode ser derrotada com o mesmo combo simples e às vezes a melhor forma de derrotá-los é errar propositalmente o início do combo, de modo que apenas o último golpe atinja o oponente e o deixe vulnerável a uma finalização (que além de derrotar o inimigo rapidamente, ainda recupera um pouco da sua vida).
Com o foco nos duelos de espada, o que começa parecendo um combate razoavelmente competente logo se mostra raso e repetitivo, oferecendo como variação apenas alguns dos chefes (e nem todos funcionam tão bem em sua variedade). Sendo o principal fio condutor da aventura, o combate infelizmente deixa a desejar e dá sinais de muito cansaço antes do final do jogo.
A Sombra do Samurai
Mesmo com seus problemas, os elementos de Trek to Yomi se encaixam de forma a levar o jogador até o final da breve aventura. Ao longo de suas 4 a 6 horas, o combate, a história e principalmente a beleza estética do jogo se alternam na tarefa de prender o interesse e garantir que você queira avançar mais um pouco na jornada de Hiroki.
Se você está na expectativa de uma aventura de samurai mais longa e complexa, com um combate que faça justiça aos lendários duelos de katanas, existem outros títulos que podem saciar esta sede com maior sucesso. Mas para uma experiência breve e contida, Trek to Yomi homenageia com muito sucesso os filmes clássicos do diretor Akira Kurosawa, oferecendo uma história dramática e – acima de tudo – visuais impressionantes e artísticos que ficarão em sua memória por muito tempo.
Trek to Yomi está disponível para Playstation 5, Playstation 4, Xbox One e Xbox Series S/X e PC. A versão jogada foi a de Playstation 5, gentilmente cedida pela Devolver Digital.
Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.