Se você não morou sob uma rocha durante o último ano, então sabe do que se trata o Project Scorpio. Anunciado oficialmente durante a E3 de 2016, trata-se de uma promessa da Microsoft de lançar o mais poderoso console conhecido, com incríveis 6 teraflops de processamento gráfico e capaz de rodar jogos em resolução 4K nativa (3840 × 2160), sem truques ou recursos de pós-processamento.
Depois de um bom tempo de mistério, a equipe da Digital Foundry – um dos maiores sites de análise de hardware e desempenho em games – foi convidada à sede da Microsoft em Redmond para uma demonstração exclusiva do Project Scorpio. Acostumados com o que há de melhor em termos de hardware para games, eles ficaram impressionados com o que viram.
O novo console da Microsoft é superior a tudo que há no mercado – inclusive o recém-lançado Playstation 4 Pro – em todos os sentidos possíveis. Memória, CPU, GPU e até mesmo na qualidade de construção – o Project Scorpio realmente entrega a qualidade premium que foi prometida pela empresa na E3.

O primeiro ponto que chama atenção no novo console é a forma como a Microsoft alcançou os desejados 6 Teraflops. Ao invés do esperado pela Digital Foundry – o uso de um maior número de unidades de processamento com clock menor – a empresa investiu em 40 unidades customizadas com clock de 1172MHz. Para suportar esta velocidade (e o calor produzido por ela), o Scorpio utiliza o que há de mais moderno em sistema de refrigeração – uma câmara de vapor – similar ao utilizado em placas de vídeo de ponta, como a GTX 1080 Ti.
Outro ponto fundamental é a memória, uma das críticas mais comuns feitas ao hardware do Playstation 4 Pro. Com uma largura de banda de 326GB/s, o Scorpio disponibiliza 8GB para os jogos(e reserva 4 GB para o sistema, permitindo que a dashboard também rode em alta resolução). Isto permite que o jogo não tenha apenas a velocidade de processamento necessária para gerar polígonos em 4K, mas também a memória para armazenar as texturas em maior resolução.
Estas configurações foram obtidas invertendo-se a forma como normalmente consoles são pensados. Ao invés do hardware guiar o software, como normalmente acontece em novos consoles, a Microsoft utilizou os jogos já lançados do Xbox One e simuladores de harware para testar e experimentar até obter a melhor combinação possível de elementos, evitando gargalos e aproveitando ao máximo cada componente.
O Scorpio ainda herdou do Xbox One S, além do painel de conexões atrás do console (incluindo a ausência do conector para o Kinect), o processador de áudio. Porém, a novidade está no surround espacial, que inclui o componente “altura” na configuração 7.1 atual. Além do suporte ao Dolby Atmos, o novo console também suportará o formato proprietário HRTF, utilizado pelo Hololens. Como o processador de áudio é o mesmo, as versões anteriores do console também serão atualizadas.
Nem tudo são números
Mas nem tudo são números e força bruta no Project Scorpio e a Microsoft equipou a nova máquina com uma série de truques e otimizações para melhorar ainda mais o desempenho.
Antes de mais nada, o Scorpio não é um apanhado de peças de hardware compradas na prateleira da loja e montadas em um console. Cada elemento dele foi customizado em prol da melhor eficiência e ganho de desempenho, reduzindo desperdícios e eliminando perdas.

A Microsoft literalmente incorporou o Direct3D 12 ao processador de comando da GPU, aumentando a eficiência da comunicação entre o jogo e o processador gráfico, reduzindo a carga na CPU até pela metade. Outra técnica utilizada no console chama-se “Método Hovis” – batizada com o nome do engenheiro que a desenvolveu. Cada processador do Scorpio que sai da cadeia de produção da TSMC (fabricante do hardware) tem seu próprio perfil energético. Ao invés de adotar um único perfil para todos os consoles, a Microsoft irá personalizar cada placa em relação ao chip, melhorando a eficiência energética. Uma solução revolucionária para consoles.
Na corrida pelo topo – Forza
Entretanto, mesmo com o hardware impressionante, a Microsoft ainda precisava comprovar sua afirmação de que o Project Scorpio poderia rodar jogos do Xbox One com resolução de 900p ou 1080p em 4K, e esta comprovação veio na forma de Forza 6.
Produzido pela Turn 10 Studio, a demo ForzaTech mostra o jogo rodando em 4K nativo e 60 quadros por segundo, utilizando texturas de alta definição. Mesmo com muitos carros, AI e simulações físicas em cena, o console consegue manter o desempenho esperado utilizando cerca de 60% a 70% de potência da GPU, demonstrando que ainda há espaço para novas melhorias gráficas.

Jogadores que ainda não aderiram aos painéis 4K também poderão aproveitar o novo console, com a promessa de que todos os modos de jogo – desempenho ou gráficos melhores – também estarão disponíveis em TVs 1080p, através de melhorias como o supersampling, que renderiza o jogo em UHD e então reduz para a resolução da TV, garantindo um visual mais limpo e com menos serrilhados (aliasing).
Além disto, diferentemente do que ocorre no Playstation 4 Pro (embora atualmente o Boost Mode libere parte dos recursoso do Pro para os jogos que não receberam patchs, produzindo ganhos marginais de desempenho), jogos antigos do Xbox One também farão uso do poderoso hardware do Scorpio (ou parte dele), garantindo melhorias em desempenho em todos os títulos da plataforma.
De Volta ao Front
Com a revelação do hardware do Scorpio, a Microsoft se preparar para uma nova frente no mercado de consoles. Com a Sony vendendo praticamente o dobro de Playstation 4 em relação ao Xbox One, algum movimento se fazia necessário e a combinação Project Scorpio e Microsoft Pass (um sistema de “aluguel” de jogos similar ao Netflix que já está sendo testado para Xbox) podem sacudir o cenário.
Um hardware poderoso pode ser uma arma e tanto, mas o software é a munição que alimenta qualquer console. Com o cancelamento de títulos importantes e uma fraca lineup de jogos exclusivos para o futuro próximo, muitos questionam o silêncio da Microsoft neste sentido. Mas surge a impressão de que existe algo mais acontecendo e que a Microsoft ainda pode surpreender neste sentido. Phil Spencer recentemente deu a entender que um evento sobre o Scorpio poderia acontecer antes da E3, mas a Digital Foundry afirmou que se este evento acontecer, o console não será apresentado nele. O que sobra para um evento especial, já que as especificações de hardware já foram apresentadas? Isto mesmo, jogos. Será que a Microsoft tem cartas nas mangas?
No atual cenário, a Sony encontra-se em uma posição confortável – mas sua recusa em anunciar números de vendas do Playstation 4 Pro indicam que o console pode ter vendido bem abaixo do esperado, indicando uma resistência do público ao conceito de iteração de meio de geração. Considerando-se que o mercado de TVs 4K ainda representa um público restrito (cerca de 20% nos EUA, mas com perspectiva de atingir 50% até 2020), como será que a Microsoft irá apresentar o Project Scorpio e como ele será recebido pelos gamers?
Faixa de preço, bons jogos e um marketing bem direcionado ditarão o futuro do Project Scorpio. Um console caro demais resultaria em uma base instalada muito pequena para ser relevante, a falta de exclusivos poderia minar o sucesso da máquina e, como já mostramos aqui no Doze Bits, não é fácil mostrar para o público as vantagens de tecnologias como o 4K e HDR, sem que o público tenha acesso direto e pessoal a elas.
Mas por trás de todos estes obstáculos temos a máquina mais poderosa e inteligente que os gamers de console já viram e isto significa muito em um mercado que está sempre em busca do melhor.
Fonte: Digital Foundry/Eurogamer