Os termos 4K e HDR têm surgido recentemente em qualquer conversa sobre games. Os novos consoles da Sony e da Microsoft (quem sabe, e da Nintendo) suportarão estas tecnologias, mas pode ser muito difícil entendê-las sem acesso aos equipamentos necessários para visualizá-las (ou seja, um monitor ou TV que dê suporte à resolução 4K e HDR).
Por mais que seja difícil visualizar mentalmente o impacto da resolução 4K, não é complexo imaginar como ele funciona e o que ela significa para os games. De forma similar ao salto de resolução que tivemos entre a definição padrão (480 pixels de altura) e o Full HD (1080 pixels de altura), o 4K representa uma imagem com área quatro vezes maior (ou seja, 2160 pixels de altura). Isto significa mais pixels (os pontinhos que formam a imagem) na tela, resultando em mais detalhes, linhas mais precisas e menos serrilhadas.
O HDR, por sua vez, pode ser uma quimera para a imaginação humana, muito difícil de exprimir em palavras ou de exemplificar sem o acesso a um televisor compatível com a tecnologia. Neste artigo, vamos tentar mergulhar na difícil tarefa de explicar o que significa o HDR e o que ele representa para o games.
O QUE É HDR?
HDR é a abreviação de High Dynamic Range (Alta Amplitude Dinâmica), um termo amplamente utilizado por quem trabalha com fotografia ou tratamento de imagem. Amplitude dinâmica, por sua vez, refere-se à diferença de luminosidade entre o ponto mais escuro e o mais claro de uma determinada cena.
Todo dispositivo – seja ele uma câmera, TV ou até mesmo o olho humano – possui uma amplitude dinâmica limitada, na qual uma determinada cena deve se encaixar para que a imagem seja vista com detalhes tanto nas áreas mais escuras quanto nas mais claras. Qualquer nível de luminosidade abaixo deste limite é registrado apenas como preto, sem qualquer flutuação que gere detalhes, enquanto os níveis acima do limite são registrados como branco.

Mas como você está vendo alguma diferença nas imagens acima, se o seu monitor não é compatível com o sistema HDR? Na verdade, a imagem acima é apenas uma simulação fotográfica de um HDR – para capturar toda a amplitude da cena (como as áreas escuras no corpo da ponte e nas nuvens e claras nas áreas de luz), foram produzidas 3 fotografias com exposições diferentes, mescladas em uma única imagem. Finalmente, para que a imagem pudesse ser vista corretamente em um monitor comum, o contraste tonal dela é remapeado dentro da amplitude possível para o monitor. Em resumo, temos a amplitude dinâmica de 3 fotos inteiras nesta cena, mas com contraste inferior ao permitido pela tecnologia HDR.
(Observação: o HDR da fotografia (principalmente aquele tipo mais exagerado, que virou moda nos últimos anos) possui diferenças importantes em relação ao HDR oferecido em TVs [que, por sua vez, visa produzir uma imagem mais realista]. A comparação acima visa apenas ilustrar o efeito da limitação da amplitude dinâmica em uma imagem.)
Entretanto, se esta imagem estivesse configurada e sendo visualizada em um monitor compatível com HDR, o contraste – a diferença de luminosidade entre as áreas mais claras e escuras da cena – seria ainda maior, mais real e mais impressionante, com luzes ainda mais brilhantes e sombras ainda mais profundas, mas ainda com todos os detalhes visíveis. Para fins de comparação, os fabricantes de TV utilizam a unidade “nits” (que significa a luminosidade de uma única vela) para definir os pretos e brancos de seus painéis. Enquanto um televisor comum pode produzir cerca de 300 a 500 nits de diferença entre o preto e branco da imagem, aparelhos HDR podem reproduzir pretos com menos de 0.05 nits e brancos com mais de 1.000 nits.
Além do efeito na luminosidade de uma cena, o HDR ainda tem impacto nas cores que um televisor pode reproduzir. Com o intuito de produzir imagens ainda mais realistas, o HDR permite uma gama de cores muito mais amplas. Segundo a Nvidia, a tecnologia pode reproduzir uma gama de cores duas vezes maior que a dos televisores comuns, abrangendo cerca de 75% do espectro visível pelo olho humano.

Então, você viu apenas uma parte da história na imagem acima. A parte mais interessante – a diferença de contraste – só será possível em um televisor compatível com a tecnologia. Mas garanto a você, o impacto é impressionante.
Sabe aquele impacto que você teve quando todas as TVs em sua casa eram de tubo de imagem e então uma tela Full HD apareceu em sua frente? O aprimoramento do HDR tem a mesma relevância.
O QUE ISTO SIGNIFICA PARA OS GAMES
Imagine um jogo como Gears of War, que possui um contraste intenso, com área da imagem extremamente sombrias e escuras e explosões brilhantes e chamativas. Com a tecnologia atual, os programadores responsáveis pelo jogo precisam dosar o quão escura são as sombras do jogo e o quão claras são as explosões, mantendo tudo dentro da amplitude disponível nos televisores atuais.
A imagem abaixo simula a diferença de contraste entre o que temos atualmente e o que poderemos ter nos jogos compatíveis com o HDR (Gears of War 4 será um dos primeiros deles). Não é uma comparação real, mas para fins de referência, é como se as TVs de hoje pudessem reproduzir a imagem da esquerda, enquanto as telas HDR nos darão o contraste mais intenso da direita (considerando que hoje já temos o que você está vendo na direita, e que o HDR lhe dará algo bem superior a isto, visível apenas nos televisores compatíveis).

Com o HDR, os programadores poderão trabalhar com sombras muito mais profundas, em contraste com explosões, efeitos de luz, chamas e raios muito mais brilhantes e com cores mais intensas e realistas.
Para dar uma noção maior da relevância do HDR para os games, considere que a maioria dos especialistas considera o impacto desta tecnologia na imagem ainda maior e mais relevante que a passagem do Full HD para o 4K. Além disto, em termos de processamento, o HDR é bem menos taxativo que renderizar o jogo com quatro vezes mais pixels, seja de forma nativa (como fará o Xbox Scorpio – produzindo uma imagem mais nítida e detalhada) ou através de upscaling (como fará o Playstation 4 Pro – produzindo uma imagem em resolução inferior e ampliando-a através de técnicas de pós-processamento, resultando em uma imagem menos nítida) – fazendo da tecnologia o melhor custo benefício entre consumo de recursos de processamento e ganho real e perceptível na qualidade da imagem.

Deste modo, rodar um jogo em 4K significa dedicar à resolução recursos de processamento que poderiam ser utilizados para gerar mais efeitos de luz, colocar mais detalhes na cena ou produzir sombras mais realistas, entre outras coisas – exigindo sempre algum tipo de concessão por parte dos desenvolvedores. O HDR, por sua vez, é muito menos taxativo, exigindo menos concessões em troca de um ganho de qualidade de imagem muito maior e mais perceptível para o jogo.
ONDE E COMO PODEREI JOGAR EM HDR
Primeiramente, você precisará de um televisor compatível com a tecnologia HDR. Embora sejam tecnologias diferentes, a maioria dos televisores HDR também são 4K – então você precisa estar pronto para investir algum dinheiro nisto.
Além do televisor, você precisará de um console compatível com a tecnologia. No momento, suas opções são o Xbox One S e o Playstation 4 (tanto o modelo antigo, que recebeu a capacidade através de uma atualização de firmware, quanto o “Slim”). Futuramente, o Playstation 4 Pro também será lançado com este recursos, assim como o Xbox Scorpio, previsto para o fim de 2017.
Todas estas opções serão compatíveis com streaming de vídeo em HDR e 4K, mas os consoles da Sony não suportarão BluRay 4K e HDR (chamado de UHD) – diferentemente do Xbox One S, compatível com este tipo de mídia. Esta ausência nos Playstations é bem estranha, principalmente considerando-se que a Sony é uma das proprietárias da tecnologia BluRay, mas é um detalhe importante para quem assiste ou coleciona filmes em mídia física e que deve ser considerado no momento da compra.

O primeiro jogo compatível com a tecnologia HDR é NBA 2K17 e ele já está disponível nas lojas (diferentemente da versão para Xbox One S, a versão do Playstation 4 aguarda um patch pós-lançamento para habilitar o recurso). Forza Horizon 3 – para Xbox One – também é compatível e será lançado no dia 27 de setembro, seguido por Gears of War 4 e Battlefield 1, entre outros. Os consoles da Sony deverão começar a receber mais jogos compatíveis a partir de novembro, quando for lançado o Playstation 4 Pro – entre os jogos anunciados estão Horizon: Zero Dawn e Rise of the Tomb Raider. Alguns títulos já lançados, como Uncharted 4, receberão atualizações para suporte HDR.
Como nem só de jogo vive o ser humano, o Netflix já está oferecendo versões compatíveis com HDR de seus seriados Marco Polo e Demolidor.
O QUE EU PRECISO SABER ANTES DE COMPRAR MINHA TV HDR?
Existem atualmente dois tipos de tecnologia HDR para TVs, incompatíveis entre si – HDR10 e Dolby. É muito importante saber com qual formato a televisão trabalha. Aparelhos Sony e Samsung trabalham com o HDR10, enquanto Vizio, LG e alguns outros pequenos fabricantes utilizam o Dolby – mas pesquise bem, para garantir, antes de efetuar sua compra.
O Xbox One S é compatível apenas com o formato HDR10. Embora a Sony ainda não tenha declarado qual é o formato compatível com o Playstation 4, é provável que utilize o mesmo, pois a empresa é uma das integrantes do UHD Alliance, um acordo de padronização responsável pelo HDR10.
Então, se você é gamer, adquira um aparelho compatível com o padrão HDR10 e esteja pronto para aproveitar ao máximo esta tecnologia no momento em que os jogos começarem a ser disponibilizados, o que está prestes a acontecer.