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Review – Assassin’s Creed: Valhalla

Difícil imaginar uma franquia dos games que tenha o tamanho de Assassin’s Creed. Desde a sua estreia em 2007 foram onze jogos principais, dezessete spin-offs, sem contar filme, livros e outros projetos. Ver Assassin’s Creed: Valhalla despontar como o maior lançamento da franquia deixa claro o quão relevante a série ainda é e como ela se afastou do cansaço que começava a apresentar depois dos títulos Unity e Syndicate.

Desde a história de Bayek em Origins, Assassin’s Creed vem buscando inovar suas mecânicas trazendo elementos de RPG, mas para funcionar, é preciso encontrar um equilíbrio entre o novo e o antigo, para que o frescor possa ser sentido, porém não se perca o elemento que faz do jogo um Assassin’s Creed.

Assassin’s Creed: Valhalla, o mais recentemente lançamento da série, atinge este equilíbrio? É o que analisaremos neste review prévio. Entretanto, é importante considerar que ainda não consegui finalizar o jogo, pois Valhalla é grande… muito grande. Para dar uma noção do tamanho, eu acabo de completar 50 horas de jogo e liberei sequer metade dos territórios disponíveis entre a Inglaterra e a Noruega.

Mas, vamos começar pelo começo.

Entre Deuses e Homens

Assassin’s Creed: Valhalla começa em uma festa viking, onde conhecemos a pequena ou o pequeno Eivor, vemos uma aliança ser firmada e uma nova guerra entre clãs eclodir. Após esta introdução, nos deparamos com a possibilidade de escolher o gênero de nossa protagonista.

Ao jogador, são oferecidas três opções, o Eivor masculino, feminino ou então permitir que o Animus decida e altere o gênero da personagem de acordo com o caminhar da história. A motivação por trás desta possibilidade é explicada durante um dos primeiros eventos em que jogamos com Layla Hassan, a pesquisadora contemporânea que utiliza a Animus para reviver a história de Eivor.

Da neve norueguesa aos campos inglêses, Valhalla o levará em uma longa aventura.

Após uma breve introdução na Noruega, Eivor parte com seu irmão de criação, Sigurd, para a Inglaterra em busca de novos territórios para conquistar e explorar. Como seria esperado de um jogo da série, esta viagem a coloca em contato com membros da Irmandade dos Assassinos e sua luta contra A Ordem (que futuramente se tornariam os templários).

Ao menos até onde pude aproveitar, a história de Valhalla é mais mundana e pé no chão do que a fantasia grega de AC: Odyssey (onde as pessoas pareciam simplesmente não se importar com a protagonista ser capaz de saltar montanhas e outros feitos similares). Centrada na ideia de fazer alianças e conquistar territórios na Inglaterra, os elementos místicos sempre presentes na franquia voltam a ocupar um pano de fundo, preservando o mistério e a sensação de descoberta que merecem.

Embora tenha me mantido engajado e curioso para saber os rumos que ela irá tomar, um fator que tem me incomodado na história são as constantes flutuações de humor de certas personagens. Muitas vezes, isto refere-se aos NPCs menores da história – como um certo prisioneiro capturado por Eivor que inicia a cena pedindo clemência e, de repente e sem muita explicação, encontra sua coragem e começa a desafiar a personagem sem qualquer medo de morrer. Mas um dos principais conflitos da narrativa principal, entre Eivor e outra personagem, surge de forma inesperada, abrupta e sem qualquer explicação, soando mais como um recurso narrativo do que consequência de coisas que aconteceram em tela. Ainda assim, com reviravoltas interessantes e mistérios que aguçam a curiosidade, o desejo de seguir esta narrativa funciona bem como fio condutor para a experiência.

Pelos Vales e Fiordes

Em termos de jogabilidade, Valhalla, como outros jogos da franquia, é construído em cima de três pilares principais: furtividade, combate e exploração. Inclusive, o jogo permite que você personalize a dificuldade da sua campanha separadamente nestes três itens, com opções de fácil, médio e difícil para cada um deles.

Os dois primeiros pilares não trazem grandes novidades para quem já jogou Origins e Odyssey, mas a temática viking faz com que – naturalmente – o combate franco ganhe um peso maior, enquanto a furtividade aparece apenas em momentos mais pontuais do jogo.

O combate e exploração, e não a furtividade, são os principais pilares do jogo.

O jogador pode personalizar sua/seu Eivor através da escolha de armaduras e armas, podendo agora combinar, inclusive, duas armas, para um combate mais agressivo. A árvore de avanço de níveis foi construída de modo que seja possível priorizar certas características da personagem (furtividade, arco e flechas ou combate corpo a corpo), mas com o tempo parece-me inevitável que o jogador termine por desbloquear todos os avanços possíveis. O tradicional esquema de associar habilidades especiais aos botões L2 e R3 (LT e RT no Xbox) combinados aos botões de face do controle obrigam o jogador a selecionar aquelas que melhor combinem com seu estilo de jogo.

No equipamento está uma das novidades mais bacanas do jogo. Todas as armas, escudos e peças de armadura em Valhalla são únicos e exclusivos. Você não vai encontrar sua octogésima espada longa ou escudo de bronze, e cada baú de equipamento sempre resultará em algo com nome, aparência e características únicas, que ainda pode ser aprimorado no ferreiro (ganhando incrementos tanto de estatísticas quanto de aparência) e personalizado através de runas, tornando a exploração do mundo muito mais interessante e recompensadora.

Quando estas armas precisam ser usadas para derrubar seus inimigos, o combate do jogo não surpreende, mas mostra-se suficiente para sustentar a experiência. Embora tenha parecido um pouco truncado e duro no início, o combate clicou comigo depois de um tempo e agora parece mais natural e responsivo, principalmente quando o número de oponentes é limitado. Mas é nas lutas um contra um que ele mostra o seu melhor e apresenta algum nível mais elevado de desafio.

Fora destas lutas especiais, o nível de dificuldade e a inteligência artificial dos oponentes em Valhalla é bastante baixo e pouco exigente para o jogador. Embora traga de volta elementos de jogos antigos (como se disfarçar entre grupos de pessoas ou interagindo com o cenário), a furtividade tem pouca ou nenhuma importância no jogo (eu acabo apelando para a furtividade mais por “role play” do que necessidade), sendo que muitas vezes é mais fácil, rápido e eficaz simplesmente encarar os inimigos de frente e dizimá-los rapidamente.

O mundo é cheio de vistas incríveis e histórias interessantes.

Mas a principal novidade, em termos de combate, está nas tradicionais invasões vikings, onde os tripulantes do seu barco atacam em conjunto alguma localização. Estas invasões estão limitadas a pontos específicos do mapa e representam a atividade menos interessante e variada do jogo. Embora tente representar um combate em larga escala, com seus soldados e os inimigos se enfrentando enquanto casas são queimadas e tesouros são pilhados, as mecânicas das invasões falham em transmitir esta empolgação. Como a única falha possível é a morte de Eivor, é possível caminhar tranquilamente pelo mapa em busca dos tesouros a serem pilhadas, enquanto os combates paralelos entre seus soldados e os oponentes parece o plano de fundo de um filme de guerra pouco convincente com seus guerreiros praticamente não causando dano nos oponentes (e também recebem pouco dano), de modo que a luta fica parecendo um fingimento entre figurantes esperando que o/a grande Eivor resolva o conflito com suas próprias mãos. Acredito que a intenção por trás seja evitar que a invasão se resolva sem a interferência do jogador, mas o resultado é que a invasão em si parece apenas um grande roubo de baús, com uma “batalha pouco convincente” acontecendo ao fundo. Felizmente, estas invasões representam uma parcela bastante pequena do jogo (existem outros combates em massa, que ocorrem como parte da história e são definitivamente mais interessantes e imersivos), servindo apenas como um respiro breve entre os momentos de exploração.

Falando em exploração, este é o pilar que apresenta a maior e mais interessante evolução em Assassin’s Creed: Valhalla. Ao invés de prezar pela absurda quantidade de conteúdo genérico como em Odyssey, o novo título retorna às “Origens” (Origins, sacou?!) e preza por uma menor quantidade de conteúdo, porém mais variado e interessante, resultando em um engajamento muito maior na exploração.

Substituindo os “?” por pontos coloridos, temos um mapa menos poluído e que permite ao jogador saber de antemão se vai encontrar uma Riqueza (ponto amarelo), Mistério (ponto azul) ou Artefato (ponto branco). Somado a isto, Valhalla oferece uma boa variedade de atividades (os chamados Mistérios), como eventos do mundo, enigmas de portais, instabilidades do Animus, desafios de combate, construção de moledros (pedras equilibradas umas sobre as outras) e outros, de modo que raramente você encontra duas vezes o mesmo tipo de evento em uma mesma região do mapa.

Sombrios, assustadores, belos, curiosos… as aventuras de Eivor levarão a muitos eventos interessantes e variados.

Os eventos do mundo, por sua vez, substituem de uma ótima maneira as missões paralelas. Isto mesmo, Assassin’s Creed: Valhalla basicamente não tem missões paralelas, apenas aquelas que empurram a história para frente. Ao invés de te fazer ir e voltar no mapa para entregar flores ou procurar cachorro perdido (e, normalmente, retornar ao ponto de partida para “entregar a missão”), os eventos são mini histórias que dão cor e vida ao mundo do jogo. Engraçada, emocionante ou maluca, seja qual for o tom da história, sempre será um evento curto, imediato e localizado, dando variedade à narrativa do jogo e apresentando personagens curiosos, mas sempre interferir na narrativa principal ou tirar o jogador constantemente do rumo.

Em conjunto com a beleza dos cenários do jogo, sua vegetação, ruínas, vilas e poentes que parecem ter saído de um quadro, a combinação destas mudanças faz com que Valhalla recupere em mim algo que havia morrido completamente em Odyssey… a vontade de limpar uma região antes de passar para a próxima. O mapa menos poluído e os encontros pontuais, e que não exigem que você mude sua rota ou dedique horas de jogo a solucioná-los, faz com que o ato de traçar uma rota até sua próxima missão principal, resolvendo os encontros no caminho, não atrapalhe o fluxo do jogo. Como resultado, ao concluir as missões principais de uma determinada região, é normal perceber que restam apenas poucos pontos a serem resolvidos rapidamente, preservando a sensação de que a história está constantemente seguindo em frente.

Valhalla Espera Grandes Guerreiros

Decisões morais, equipamentos variados e um mundo enorme e cheio de personagens interessantes, pequenas histórias, curiosidades e belas vistas faz de Assassin’s Creed: Valhalla um jogo de ação com elementos de RPG muito competente. Embora eu sinta falta de uma presença maior de elementos de furtividade, a exploração e diversas histórias que existem dentro do jogo me mantém engajado e conectado com a experiência.

Depois da inundação de conteúdo genérico de Odyssey, a aventura viking de Eivor é repleta de capricho em relação ao conteúdo, recuperando minha vontade de jogar limpando todo o mapa e conhecendo cada cantinho daquele mundo antes de passar à próxima região do jogo.

O combate representa bem o brutal e violento universo viking.

Embora apresente alguns bugs, a maioria é visual e não interfere na experiência do jogo, e muita coisa foi corrigida em um dos últimos patchs lançados pela Ubisoft – que aproveitou para melhorar muitos elementos de qualidade de vida.

Valhalla não irá lhe convencer a gostar de Assassin’s Creed se você já não curtir a franquia por qualquer que seja o motivo. Mas se você é um fã, esta nova aventura está entre as melhores da série. Caso você não tenha experimentado Assassin’s Creed Origins ou Odyssey, saiba que a experiência mudou um bocado em relação ao que tínhamos em Unity e Syndicate e Assassin’s Creed: Valhalla pode ser um ótimo ponto de reentrada (mas, se você gostar, volte e jogue o Origins também, pois vale muito a pena).

Assassin’s Creed: Valhalla está disponível para PC, Playstation 4, Playstation 5, Xbox One, Xbox Series S e Xbox Series X. A versão jogada foi no Playstation 4 Pro, com cópia de análise gentilmente cedida pela Ubisoft.