PC Playstation Review que Ninguém Viu Xbox

Amizade, amor e viagem no tempo em Life is Strange Porque a vida é... esquisita.

Menos jogo, e mais narrativa interativa – similar a outros como Heavy Rain ou The Walking Dead – Life is Strange carrega consigo muito dos acertos e erros característicos do gênero. Acompanhe-nos em um passeio pela cidade de Arcadia Bay neste review.

A História

Life is Strange narra uma semana na vida de Maxine Caulfield, ou simplesmente Max. Nascida na pequena cidade de Arcadia Bay, a garota mudou-se para Seattle aos 13 anos, perdendo total contato com sua melhor amiga, Chloe Price. O jogo começa quando Max retorna à cidade, depois de 5 anos, para cursar fotografia na faculdade Blackwell.

A aventura de Max tem início quando ela vê uma garota de cabelos azuis ser assassinada no banheiro da escola e, em pânico, descobre ter o poder de rebobinar o tempo e alterar as coisas, evitando que a garota seja morta.

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Durante os próximos cinco dias, Maxine precisará utilizar seus poderes de alterar o tempo para lidar com dramas escolares, reencontrar sua melhor amiga e desvendar os motivos por trás do desaparecimento de Rachel Amber – amiga de Chloe desaparecida seis meses antes dos eventos do jogo.

Jogabilidade

Similar aos seus pares, o título foca na exploração, diálogo com personagens e alguns poucos quebra-cabeças utilizando os poderes da protagonista.

Max pode retornar alguns segundos no tempo e utiliza isto como vantagem nos diálogos. Uma personagem pode se demonstrar hostil, mas deixar escapar na conversa que está chateada por causa da doença de sua mãe. O jogador, então, pode retornar no tempo e reiniciar a conversa, desta vez começando demonstrando-se preocupado com a mãe da personagem e garantindo uma conversa muito mais amistosa e conseguindo maiores informações.

Itens coletados permanecem no inventário quando você retorna no tempo, permitindo mecânicas nas quais você precise utilizar um determinado item antes de ter a chance de coletá-lo. Além disso, Max permanece no mesmo lugar quando faz seus retornos, o que é usado no jogo para superar obstáculos como portas e barreiras.

Infelizmente, estes desafios são raros e bastante simples, fazendo com que na maior parte do tempo o jogador utilize os poderes de Max simplesmente para explorar novas opções de diálogo, retornando e selecionando outras respostas e avaliando as reações das personagens. Esta possibilidade não afeta negativamente o jogo – focado nas consequências de suas escolhas – pois ainda será necessário lidar com as consequências de longo prazo destas decisões. O poder permite rebobinar apenas alguns minutos de tempo e a maioria das escolhas irão gerar repercussões muito além deste prazo.

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Life is Strange tem um raro momento no qual os poderes da personagem falham e o jogador precisa lidar com as consequências de suas escolhas de diálogo sem qualquer chance de retornar no tempo e corrigi-las. Este foi um dos pontos altos de tensão no jogo, que poderia repetir-se mais vezes e ser melhor aproveitado – o que, infelizmente, não ocorre.

O último capítulo do jogo ainda traz uma breve sequência de furtividade que soa totalmente incoerente com o restante do jogo, acabando por soar totalmente irrelevante em termos de jogabilidade.

Um desafio adicional presente no jogo são as fotografias de Max. A personagem precisa encontrar imagens para fotografar, com base em pistas visuais que existem em seu diário. Na maioria das ocasiões, basta estar no lugar certo e pressionar o botão de ação para fazer a foto, mas certas situações podem exigir determinadas interações com o cenário ou diálogos especiais com outras personagens.

Como é parte do tema do jogo – fotografia – o desafio é divertido e combina perfeitamente com a ambientação e a personagem. Entretanto, ele é bastante fácil e um sistema de rejogar os capítulos permite que o jogador complete a coleção rapidamente após o final do jogo. Sem maiores complexidades, capturar todas as imagens do diário resulta no Troféu de Platina do Playstation ou em 1.000G pontos no Xbox.

Gráfico e Áudio

Cheio de personalidade, Life is Strange foge do realismo e aposta em um visual 3D com texturas pintadas a mão, conferindo ao jogo um visual estilizado que combina perfeitamente com a temática fotográfica e adolescente da série.

Os cenários são bem detalhados e repletos de referências de fotografia, design gráfico e cultura pop, replicando muito bem o clima de uma faculdade. Os outros ambientes, como a casa de Chloe ou a lanchoneta Two Whales, são cheios de personalidade e refletem muito bem as características da cidade de Arcadia Bay, com todas as suas peculiaridades.

Embora visualmente bem feitos, os personagens de Life is Strange pecam no quesito expressividade e sincronia labial. Roupas e cabelos remetem às gerações passadas dos videogames. Algumas personagens parece conflitar com o estilo visual do jogo. David Madsen – padrasto de Chloe – é um dos piores casos, com seu cabelo e bigode aplicados de forma bastante esquisita na textura sobre o modelo tridimensional.

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O trabalho de voz no jogo tem inconsistência similar ao que vemos no gráfico. As protagonistas Chloe e Max são muito bem interpretadas, contrastando bastante com outras personagens do jogo, com interpretações pouco convincentes, ocasionalmente flertando com o péssimo.

O ponto forte do áudio do jogo está na trilha sonora, repleta de músicas tranquilas e extremamente agradáveis, que fazem a ponte entre o universo jovem da faculdade e o clima interiorano de Arcadia Bay. Mais de uma vez peguei-me concentrado na música, recusando-me a avançar no jogo para não interrompê-la.

Profundidade e Tabu

O ponto forte de Life is Strange está em seus personagens e nos assuntos abordados paralelamente. O jogo tem poucas personalidades superficiais, e a maioria dos personagens tem duas ou mais facetas a serem exploradas – muitas delas focadas em arquétipos clássicos de histórias de universidade. É impossível não se identificar com Maxine e suas inseguranças com o ingresso na vida adulta.

Além de acompanhar a relação entre Max e Chloe – duas personagens com as quais muitos gamers, principalmente garotas, irão se identificar, mesmo que parcialmente – e a descoberta de seus poderes de viagem no tempo, Life is Strange lida com assuntos que poderiam ser considerados tabus para muitos jovens gamers, como abuso de mulheres nas universidades, bulling, shaming (o ato de estigmatizar outra pessoa), vazamento de vídeos e até mesmo suicídio. Embora muitos destes assuntos não sejam centrais à narrativa, eles são explorados de forma que torna muito difícil simplesmente ignorá-los. Um ponto muito positivo no trabalho da Dontnod – desenvolvedora do jogo.

Escolhas Importam?

O maior defeito de Life is Strange é compartilhado por muitos outros jogos do gênero – a insistência em vender a ideia de que suas escolhas importam, quando na verdade ela irá causar pequenas diferenças na narrativa, que inevitavelmente se afunila em direção ao mesmo fim.

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Personagens ou eventos afetados por suas escolhas são substituídos para que a história siga seu rumo sem maiores tropeços, fazendo com que as consequências pareçam apenas cosméticas e pouco relevantes. Com uma série de supostas bifurcações, a história desemboca em apenas dois finais possíveis, com seu destino decidido com o apertar de um botão na última cena do jogo.

Diferentemente de narrativas interativas similares, o jogo sequer faz questão de premiar o jogador com as consequências de seus atos na vida dos outros personagens – cabendo a eles simplesmente aparecer ou não na cena que compõe o encerramento.

Em resumo, escolhas não importam tanto assim e Life is Strange é mais sobre sua jornada atraente, curiosa e interessante do que seu destino decepcionante.

Veredito

Life is Strange certamente agradará aos fãs de narrativas interativas. Suas personagens são interessantes e a história é muito bem escrita e contada. Em tempos nos quais discutimos tanto a representatividade nos jogos, o título traz uma personagem com a qual garotas gamers poderão se identificar e os garotos poderão aprender.

Infelizmente, embora o final do jogo seja satisfatório em termos narrativos, ficamos com a sensação de que o jogo falha em nos recompensar por toda a tensão em cada decisão tomada durante o seu percurso, fazendo com que o encerramento pareça não nos pertencer.

Comercializado dividido em 5 episódios, Life is Strange chegou aos consoles da Sony (PS3 e PS4) e da Microsoft (X360 e XOne) em janeiro de 2015, sendo concluído em outubro do mesmo ano, e hoje pode ser encontrado em versão completa e com preço bastante acessível para PC, Playstation 3, Playstation 4, Xbox 360 e Xbox One – tanto em disco como digital – tornando muito mais interessante experimentá-lo.

PRÓS

  • História cativante
  • Personagens interessantes
  • Trilha sonora fantástica
  • Discussão de assuntos delicados

CONTRAS

  • Gráficos inconsistentes
  • Problemas de expressividade e sincronização labial
  • Decisões não importam

Designer por profissão e gamer de coração, Raphael é apaixonado por jogos que sejam imersivos e permitam que ele se esgueire por trás de seus inimigos, eliminando-os de forma silenciosa e impiedosa.

Uma viagem interessante, com um destino inconsistente.

Life is Strange oferece uma história envolvente, personagens interessantes e uma ótima experiência para fãs de narrativas interativas, mas peca em seu encerramento, dando pouca consideração às decisões do jogador.

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